Desdenhar, desvalorizar, para comprar e… ganhar

ANTÓNIO ABRANTES  *

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Quem desdenha quer comprar, diz o ditado.

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Desdenha-se e desvaloriza-se para poder comprar barato. O mais barato possível.

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1 – O Sr João tinha uma burra já com uns anitos mas ainda boa, valente para muitas utilizações para o que uma burra dócil, pachorrenta mas forte pode servir.

Porém, o Sr. João já não precisava da burra que tantos préstimos lhe dera até aí e decidiu, com o acordo da sua Maria, levar a bela burrinha à feira para ver se a vendia.

E assim fez. No dia da feira lá estava ele com a sua burrinha bem escovada, limpa e bem nutrida, disposto a vendê-la, mas por uma boa nota, porque era isso que ele bem sabia que ela valia.

Por ali andava o Chico Cigano, um espertalhão sempre à coca de bons negócios de compra aqui e vende acolá e com isso conseguir uma mais-valia interessante e sem grandes despesas de transação.

Chico Cigano, mira a burrinha de alto a baixo, da cabeça ao  rabo, e dispara a pergunta sacramental: “Quanto quer pela sua burra”?

O Sr. João, homem sério e de boas contas, disse-lhe o preço que considerava justo, pois uma burrinha como a sua não encontraria o pretendente nas redondezas.

Chico Cigano retorquiu: “Nem pensar. Olhe que de burros percebo eu! Então já viu os problemas que a burra tem, se calhar sem forças para chegar a casa,  tem ali umas pintas castanhas que são sinais de doença grave, tem as pernas tortas e uns dentes de quem já comeu muita palha e que, por isso,  já não vai longe?”

O Sr. João, perante aquelas apreciações tolas, que havia de fazer?

Mas o mais grave foi saber que o Chico Cigano andou a espalhar, por toda feira, os supostos defeitos da burrinha e daí a um bocado, por ali, já não se falava de outra coisa senão nos defeitos da burrinha. No entanto Chico Cigano não se afastou muito e não tirava os olhos daquele animal, que bom lucro lhe poderia dar se conseguisse assustar convenientemente o pobre do Sr. João.

Tal era o alarido sobre os “defeitos” que o próprio Sr. João já não tinha a certeza das boas qualidades da sua burrinha e dizia mal dos seus pecados porque tinha prometido à sua Maria que a venderia por um preço razoável e agora se via naquela situação de ter que a vender por muito menos. Como é que iria explicar toda aquela cena e o preço tão baixo à sua Maria?

Desgostoso e desesperado, lá decidiu vender a boa burrinha ao Chico Cigano como se fosse uma burra velha, falida, a cair de podre.

Chico Cigano, de posse do animal, já sabia onde a iria vender e por um preço duas ou três vezes superior ao que deu por ela.

São assim os “bons” negócios. Desdenha-se, desvaloriza-se, para comprar barato. Ai de quem vai na onda ou não pode ou não consegue resistir à pressão ou estratégia do comprador astuto!

2 – Foi isto que fez um tal Peter Boone, com residência em Londres, economista reputado que escreve no New York Times (um dos jornais mais reputados da “feira” planetária), com as obrigações da dívida pública portuguesa nos idos tempos de 2011. Escreveu artigos alertando os potenciais investidores para os enormes riscos desses títulos fazendo descer o seu preço de mercado para níveis que levaram o governo português de então a ter que pedir o apoio da famosa troica.

Diz agora (jornais de outubro de 2015) o Ministério Público português que ele, com essa estratégia de denegrir os títulos da dívida pública portuguesa, ganhou mais de 800 milhões em pouco tempo.

Por isso  tem uma acção judicial por “manipulação do mercado” com os artigos que escreveu.

Trata-se de um Chico Cigano que quis ganhar milhões espalhando balelas sobre a dídvida pública portuguesa. E por isso está, agora, a contas com a justiça.

Falta saber  como é que o Ministério Público português vai conseguir provar o dolo, ou seja, a relação de causalidade entre o que ele escreveu e publicou e os avultados ganhos de 800 milhões que obteve.

Tendo em conta a barragem de opiniões de governantes, comunicação social, comentadores oficiosos, etc. sobre as imposições legítimas (?) desses mercados, esta acção do Ministério Público português talvez sirva (pouco) para salvar a honra do convento mas ficará longe, muito longe, de travar as acções desses “Chicos manipuladores” dos preços das dívidas soberanas como a portuguesa.

3 – Coisa algo parecida  aconteceu agora com o Banif. Os mercados desvalorizaram e voltaram a desvalorizar as acções do Banif ao ponto de, com 1 euro apenas, poder-se comprar mil acções de capital do banco. Mais baratas que a uva mijona! Por isso logo apareceram vários compradores, tendo saído a sorte grande ao Santander Totta.

Que importa mais 2 ou 3 mil milhões que se “evaporaram” com a venda do Banif? Responsáveis? Não há. Governo anterior, Banco de Portugal e Comissão Europeia, ninguém é responsável. É uma maravilha!

Os “Chicos Ciganos” continuam, como sempre, nesta “feira” planetária, à espera de mais oportunidades. Porquê?

Porque os mercados mandam, dizem-nos. Devemos aceitar o funcionamento dos mercados e deixar de interferir na sua regulação e supervisão, como defendem os liberais, neoliberias, certos partidos e governos que têm como real objectivo criar boas oportunidades de negócios para os espertalhões “Chicos Ciganos” sem escrúpulos.

No fim da linha, lá estará o ZÉ, um ser de memória curta e muito sugestionável, sempre disposto a pagar (via mais impostos e menos serviços públicos) e a … perdoar.

Feliz NATAL!

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* Economista, professor aposentado do IPV

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