Farol da Nossa Terra – PLIM PLIM (conto infantil)
sexta-feira, 28 julho 2017

Catarina Fonseca — Sábado, 23 Janeiro 2016 — 1 Comentário

PLIM PLIM (conto infantil)

CATARINA FONSECA *

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.

Tic, tac, tic, tac, tic.

Era mais de meia-noite. O relógio grande da sala respirava alto. Tic, tac, tic..

A lua, branca e redonda como uma bola de sabão, iluminava as estrelas pequeninas que bordavam o cobertor da noite.

Inês, enquanto o sono não espreitava, imaginava estórias fantásticas onde tudo, mesmo tudo, podia acontecer. Volta e mais volta, mas o sono, nada. Contar carneirinhos não era solução, pois Inês era pequenina e não sabia contar senão até dez. Um carneirinho, dois carneirinhos, três carneirinhos…e eis que se ouve um barulho estranho, fffff, ffffff.

Puxa o lençol com força e, cheia de medo,  esconde-se debaixo da roupa. Fff, fff, fff. O barulho continuava. Ffff, ffff, plim, plim, ffffffffffffffffff.

– O que será? – pensou Inês assustada.

Espreitou para debaixo da cama e o gato não estava lá. Levantou-se, correu a persiana e, em bicos de pés, viu uma grande rua de luzes acesas, mas sem ninguém. Inês imaginou que aquele barulho fazia parte de um pesadelo e voltou a deitar-se.plim.JPG

Mal tinha ajeitado a roupa quando um fff, plim, fff, plim, recomeçara.

Sem acender as luzes, desce a escada descalça e em bicos de pés. De ouvido alerta, apercebe-se que o barulho vem da cozinha. Seria um ladrão? Um tacho de água a ferver?

Inês era muito corajosa. Abriu a porta da cozinha e começou a perguntar:

– Quem está aí? Quem és tu?

A resposta foi o silêncio. Inês repetiu:

– Não me ouves? Fiz-te uma pergunta.

Aproximou-se do fogão, depois da janela, dos armários e da banca. Estava tudo normal. Encolheu os ombros, abriu a boca ensonada e decidiu voltar para a cama.

Mal tinha virado costas e fechado a porta da cozinha quando ouve novamente,

– ffff, plim, fffff, plim, ffff, plimmm.

Com algum medo, deu dois passos para trás e pensou que estaria mesmo um ladrão lá em casa. Mas ela tinha a certeza que aquele fffff, fff, vinha da cozinha e lá era impossível estar alguém escondido. Tinha vasculhado tudo com os seus grandes olhos curiosos.

Abriu novamente a porta e repetiu a busca. Fogão, armários, tachos e panelas. Não havia nada que Inês não tivesse revirado. Tudo parecia normal, mas o ffffff, plim, fffff, plim tinha recomeçado muito baixinho, tão baixinho que parecia alguém envergonhado a chorar. Inês pôs o ouvido à escuta. O fff, plim, vinha do lava-loiça. Olhou com muita atenção e viu um grande rio de gotinhas que, ao cair faziam uma cantiga: plim, plim, plim. E um enorme ffffffffffff escuta-se de novo. Inês percebeu que não eram as gotinhas. O ffff vinha de algo mais alto. Pôs-se em cima de um banco e seguiu atentamente as gotinhas que caíam da torneira.

– Pst, pst, gotinhas, por que correm tão depressa?

Mas as gotinhas, mudas e apressadas correram mais depressa, e ficavam cada vez mais tristes.

Continuava Inês de olhos pregados ao lava-loiça quando uma voz rouca e cansada se ouve.

– Vou-te contar uma coisa…

Inês fixa o olhar no fundo do lava-loiça e exclama:

– Gotinhas! Eu sabia que me estavam a ouvir.

– Oh, oh, estás enganada, não sou quem pensas. Olha bem que já me vês.

Inês não via nada que pudesse falar e então repetiu:

– Gotinhas, gotinhas, falem comigo.

– O meu nome é Luísa. Não tenhas medo.

– Luísa? Qual Luísa? A minha tia?

– Ah, ah…como tens graça, miúda, sou a Luísa, já te disse. A Luísa Torneira.

– Uma torneira a falar? Ah, ah. – Inês dava gargalhadas sem parar.

– Sim, disseste muito bem. Uma torneira que fala, dorme, pensa e vive.

– És uma flor?

– Não, mas dou água às flores, limpo as lágrimas dos pratos.

E de novo, um grande rio de gotinhas se começa a formar no fundo do lava-loiça, seguido de um fffffffffffffffff que parecia interminável.

Inês esticou os braços, esfregou os olhos e decidiu voltar para a cama.

***

Quando amanheceu a mãe chamou Inês e Tiago para o pequeno-almoço. Era uma Segunda-feira, o que queria dizer que havia escola e era preciso acordar cedinho.

– Inês, Tiago!

– Vou já mãe! – disse o Tiago enquanto descia as escadas e cantarolava:

– “Fui visitar minha tia a Marrocos, fui visitar minha tia a Marrocos (…) Ai ai ai ai ai (…) ”

– Que se passa, Tiago, caíste? – perguntou a mãe aflita, chegando-se ao fundo das escadas.

– Não mãe. “Ai ai ai ai” é da música – respondeu o Tiago. E acabaram numa risota.

Tiago correu à casa de banho para lavar as mãos e depressa se sentava à mesa com vontade de devorar uma taça de leite com cereais que a mãe lhe tinha preparado.

– Inês, Inês, levanta-te. – repetiu a mãe.

– Já sabes que ela é vagarosa. É melhor ires buscá-la à cama, ou perdemos o autocarro.

Tiago e Inês, apesar de irmãos e de amigos armavam discussão por tudo e por nada.

A mãe subiu as escadas até ao quarto de Inês.

– Mãe, mãe, não vais acreditar. – dizia a pequenita enquanto se agarrava a Mariana com força.

– Tu e os teus sonhos. O que foi desta vez? – perguntava a mãe enquanto descia as escadas com Inês pendurada no pescoço.

– Deve ter sonhado com uma vassoura de palha a transformar-se em rato e um príncipe de chocolate a derreter ao sol – disse o Tiago, sempre pronto a arranjar motivos para arreliar a irmã.

– Tiago, não digas disparates. A tua irmã só tem 9 anos.

– E uma grande imaginação. – concluiu Tiago.

– Mãe, chamava-se Luísa e estava muito triste.

– Quem? A princesa? Fechada no castelo? –  perguntava a mãe.

– Não, mãe. Vive na cozinha, lá em baixo.

– Que engraçado, uma princesa que vive numa cozinha.

– Não mãe. É a Luísa Torneira que vive na nossa cozinha.

– Tens cá uma imaginação! – dizia a mãe enquanto piscava o olho ao filho Tiago.

E Inês, ainda ensonada, insistia:

– A Luísa Torneira vive na nossa cozinha. Ela está muito triste. Chorou a noite inteira, mãe. E foi por isso que tive de me levantar.

– As torneiras não têm vida. Não penses mais nisso. – disse a mãe.

– Deves ter tido pesadelos. – emendou o Tiago.

Para além de muito imaginativa, Inês tinha um grande apetite. Gulosa como era, fez com que os cereais e o leite desaparecessem da taça que a mãe tinha preparado num instante.

Vestiu o casaco e depois a mãe pegou-lhe ao colo, deu-lhe a mochila, e certificou-se que não faltava nada.

***

– Já estavas a inventar estórias para a mãe outra vez? – perguntou Tiago a Inês num tom ameaçador.

– Não são estórias, é tudo verdade. Por que é que não acreditas em mim?

– Ah ah ah…torneiras com vida, com sentimentos. Nunca acreditei nessas parvoíces.

– Mãe, mãe. Diz-lhe que é verdade. – pedia Inês com ternura e insistência.

E a mãe, para evitar uma gritaria logo de manhã, enquanto recomendava ao Tiago que não falasse durante as aulas e não arreliasse os colegas, ia abanando a cabeça em sinal de confirmação.

– Pois é Inês, a Luísa Torneira ainda vai ser muito feliz. Vai viver num grande palácio com as gotinhas de água.

– Vão lavar as mãos e os dentes, não se podem esquecer. – recomendou a mãe.

-E depois a Luísa Torneira vai deixar de chorar de noite e nunca mais me levanto assustada.

***

Durante as brincadeiras na escola, Inês não se conseguia esquecer das aventuras daquela noite. Ninguém lhe podia dizer que a Luísa Torneira não chorava e não estava triste. Tinha muita vontade de contar o que tinha acontecido à Rita e à Catarina, mas elas iam logo espalhar por toda a escola e ninguém acreditava. Inês ficou com a estória da torneira em segredo, mas sempre a matutar-lhe na cabeça.

Tiago fartava-se de rir quando se lembrava da estória que a Inês tinha inventado nessa manhã.

– Nem queiram saber que a minha irmã acredita que as torneiras falam e choram. E outras coisas parecidas.

– O que estás para aí a dizer? – diziam os colegas do Tiago, não parando de rir.

– A minha irmã Inês anda com uma estoira de uma Luísa Torneira….

– Vais-me dizer que vive lá em casa e está muito triste…

– Como é que sabes, Pedro?

– Também tenho um irmão mais novo e quase todos os dias inventa uma tolice qualquer.

A campainha dá toque para saída e a criançada corre euforicamente para o portão.

– Até amanhã, Sr. Alfredo! Adeus, Sra. Cândida!

– Até amanhã, meninos! Tenham cuidado a atravessar a estrada e não se esqueçam dos trabalhos de casa.

– Amanhã voltamos! – diz Inês, ao mesmo tempo que agarra a mão do irmão para subirem para o autocarro.

– Queres que diga uma coisa, mano?

– A torneira foi de férias? Casou-se?

– Vou dizer à mãe que estás a fazer pouco de mim! Não acreditas, pois não?

– Põe na tua cabeça oca que as torneiras não têm nome, não falam, não…

***

Chegaram a casa, atropelando-se para contar à mãe as coisas que tinham aprendido e para fazer todas as queixas possíveis e imaginárias. Mas não havia queixinhas e novidades que não acabassem quando a barriga dava horas. Correram para a cozinha à procura de qualquer coisa para comer.

– Fizeste bolo de bolacha! – disse Tiago com os olhos a brilhar

– E há sumo de laranja sem bolhinhas!

– Não são bolhinhas, é gás!

– Tu pensas que sabes tudo, é?!?

– Pelo menos sei que as torneiras não falam.

– Meninos, despachem-se. Há trabalhos de casa para fazer. – lembrou a mãe.

– Mas eu queria ver o “Sítio do Pica-pau amarelo», lembrava Inês.

Inês quase amuava, mas da boca da mãe saiu um sim.

– Está bem – disse a mãe. Mas só depois de fazeres os trabalhos de casa.

– Eu vou para o computador.

– Adeus irmã Torneira! Não tenhas medo do escuro.

– Ó mãe, ó mãe.

Com tanta agitação, Mariana não via a hora de deitar as crianças para poder descansar um pouco. Trabalhos de casa, banho, jantar e a correria de todos os dias.

– Sabes uma coisa, mãe?

– O que é, Inês?

– Quando o pai vier, quando o calendário já tiver muitos dias riscados com lápis de cera, vou-lhe pedir para irmos comprar uma coisa.

– Mas tu já tens tantos brinquedos, Inês.

– Eu quero que o pai compre uma torneira, ou um torneiro.

– Uma torneira, um torneiro? Para que queres uma torneira?

– Para a Luísa não chorar de noite quando ficar sozinha.

– Que imaginação. Bons sonhos.

– Até amanhã.

– Deixas mãe, deixas? Deixas? Diz que sim.

Inês adormeceu a contar os dias que faltavam para o pai voltar.

Mal o sol acordou, Inês, mais desperta do que nunca, calça os chinelos e, voando pelas escadas, dirige-se à cozinha. Podia estar com fome e com vontade de alguma gulodice, mas a curiosidade de Inês era bem maior do que tudo o resto.

– Bom dia Luísa. Gosto de te ver sem lágrimas.

Inês fazia cócegas à torneira enquanto lhe dizia:

– És tão linda, tão brilhante. Queres ser minha amiga? Queres?

– Com quem estás a falar, Inês? – perguntou a mãe que estava a limpar o pó dos armários.

– Deve estar a falar com as portas e com os tapetes. É uma parvinha. Ah, ah, ah.

– Tiago,  já conversámos sobre isto.

– Não lhes ligues Luisinha eles têm a mania que sabem tudo, mas não sabem nada.

– Anda Inês, é Sábado e precisamos de ir às compras.

– Vamos comprar uma bicicleta? – Tu prometeste.

– Tiago, não sei se pode ser este mês. Vocês precisam de roupa.

– Mas compras uma torneira, não compras, mãe?

– Inês,  já temos tantas torneiras em casa.

– Mas a Luísa está triste porque não tem com quem falar.

– Mãe, diz-lhe que sim só para ela se calar. – pediu Tiago caridosamente.

– Mau! Eu ouvi o que estavas a dizer à mãe.

– Calados os dois! Ou querem ficar a tarde toda de castigo?

– Mas foi ele que começou.

– Porque ela só diz parvoíces.

E no meio deste palavreado se passou a tarde.

Experimenta um vestido, agora umas botas, depois uns sapatos.

– Mas tu prometeste que me compravas a bicicleta hoje, mãe.

-Ele é um mentiroso.

– Mãe! A defendê-la outra vez?! – resmungou o Tiago fazendo beicinho.

– E se fizéssemos um jogo? – disse a mãe para acalmar os dois.

– Siiiiiim! – Responderam em coro.

– Fazemos uma fila e contamos os nossos passos até encontramos uma flor amarela.

– Que engraçado. – disse Inês.

– Que infantil. – Murmurou Tiago.

Tiago tinha 12 anos e não conseguia perceber que Inês, com 9, não podia entrar em brincadeiras complicadas.

– Ganha quem encontrar mais flores amarelas.

– Ganha o quê, mãe? – perguntou o Tiago, imaginando uma bicicleta nova.

– Um gelado! – disse Inês batendo as palmas.

– Eu queria era uma bicicleta.

A mãe decidiu mandar começar o jogo.

Um, dois, três, quatro, cinco, seis…

– Já estou farto deste jogo.

– Olha que é divertido.

– É mãe, é mãe.

-Um, dois, três, quatro, cinco, seis, cinco, sete.

– Burra.

– Tiago! – disse a mãe, arregalando-lhe os olhos.

– Encontrei!

– Onde Inês? – perguntou a mãe.

Inês apontava para o telhado de uma casa velha.

– Ó mãe, não lhe ligues, é uma andorinha a sair do ninho.

– Não é nada, é mais em cima. Mais alto que o telhado.

– Alguma nuvem te parece uma flor?

– Não acredites nela, está a gozar.

– Tu é que és mentiroso. Olha lá para cima. É uma flor muito brilhante.

Era Outono e a tarde estava amena. As folhas das árvores, secas e douradas, estalavam debaixo  dos pés.

– Inês, aquilo não é uma flor.

– Diz-lhe que é uma bola e ela acredita.

– É uma flor amarela, mãe.

– É o sol.

– Não faz mal, é amarelo.

Era Sábado e já tinham os trabalhos de casa feitos. Assim que chegaram a casa, Inês e Tiago correram para o sofá para ver televisão.

– Tirem os sapatos.

– Já tirámos.

Os dois irmãos não passavam mais de cinco minutos calados.

– Eu não quero estórias de princesas e galinhas!

– Eu não quero ver bonecos estúpidos e feios a transformarem-se em monstros.

– O jantar está na mesa. Lavem as mãos e venham depressa.

– O Tiago escondeu-me os sapatos!

– É mentira.

– Meninos, acabem com a discussão e tragam os talheres.

– Mãe, vem ver. Ela deve estar doente. Olha!

– Quem é que está doente?

– A Luisinha chorou muito. Deve ter chorado a tarde toda.

– Foi ela que te disse, ó parvinha?!

– Anda cá ver. Ela esteve a chorar.

– Deixa lá, Luisinha, hoje venho-te fazer uma visita para conversarmos.

Tiago desata à gargalhada e a mãe vem buscar Inês para a mesa.

As crianças, cansadas, quase não abriram a boca durante o jantar.

– Parece que vamos ter uma noite sossegada.

– Ai!

– O que foi, Inês?

Inês correu para a cozinha e Tiago foi atrás dela.

– Apanhei-te, malvada. Vou-te fechar num quarto escuro e não voltas a bater na Luisinha Torneira.

– Com quem estás a falar, Inês?

– Agora já sei que a Luisinha Torneira chora porque a esfregona está-lhe sempre a bater com o cabo na cabeça.

– Só faltava uma guerra na cozinha. Meninos, cama.

– Boa noite, mãe.

– Eu sabia. Ela não estava triste sem motivos.

– Xau Inês.

– Não acreditas, pois não, Tiago?

– Querias que acreditasse?

Inês esperou que todos adormecessem para poder ir à cozinha.

– Olá Luísa, deves ter um grande galo.

– Foi um acidente, Inês, um acidente. – respondeu a Esfregona.

– Nesta cozinha tudo fala! Como te chamas? – perguntou Inês

– Sou a Esfregona Beatriz, mas os amigos chamam-me Biz, por causa da minha pronúncia.

– Olá Biz, és engraçada – disse Inês

– Eu zzz estive alguns anos zzz em Paris zzz .

– Ela cantava para muita gente. – disse a Luísa Torneira

– Podias cantar para nós. Só um bocadinho. Anda lá. – insistiu Inês.

– Oh, estou muito cansada, mas posso-te mostrar as fotografias zzzz.

A Esfregona Biz abriu a gaveta ao lado do fogão e procurou um saco cor-de-rosa.

Do grande saco saíam imagens coloridas da família e das viagens da juventude, em Paris.

– Agora estou velhota e já não posso dançar. Tenho muitas dores de costas.

– Continuas linda. – disse Inês.

– Ninguém me respeita. Metem-me debaixo da mesa, das cadeiras, dos armários e saio de lá toda suja e cheia de dores. E isso nem é o pior.

– Há mais crueldades? – perguntou Inês.

– Fica atenta.- disse a Luísa Torneira.

– Quando é dia de limpeza até me arrepio. Só de pensar, fico com as franjas esticadas. Se soubesses como custa… -suspirou a Esfregona.

– Nesses dias fica tudo revirado. Agarram-me no pescoço com muita força e, sem dó nem piedade, enfiam-me num balde cheio de água gelada até eu ficar com os olhos a arder.

– Não tenho culpa da água ser gelada, Biz – diz a Luísa Torneira – Esses dias  deixam-me esgotada.

– Eu sei. E agora lembraram-se de me fazer madeixas.

– Aquelas risquinhas amarelas e brancas que as senhoras fazem no cabelo, Biz? – perguntou curiosa Inês.

– Sim, mas eu não gosto nada dessas modernices. Não gosto de lixívia. Sempre sonhei ter o cabelo curto, usar brincos compridos e mostrar o meu pescoço esguio num grande decote. Mas nunca mais decidi nada da minha vida.

– Ainda me lembro do dia em que chegaste – disse a Luísa Torneira – trazias um véu transparente de plástico e o cabelo muito bem arranjado. Vivo cá há mais anos do que tu, sou a mais velha da cozinha. Pouco me lembro da minha família, dos meus amigos, da terra onde nasci. Acho que venho de longe, de um sítio muito mais verde do que Lisboa, de um sitio mais pequenino e silencioso.

– De onde és? – perguntou Inês

Luísa Torneira fechou os olhos e, cansada, não respondeu a Inês.

– Não insistas. – disse a Esfregona Biz – hoje foi um dia muito triste. Posso dizer-te que ela é do norte de Portugal, da cidade de Guimarães. Quando não está cansada promete-me que havemos de lá ir passar uns dias, passear no Largo da Oliveira, ver as casinhas de pedra com varandas floridas.

– Mas por que é que ela anda triste, Biz? Diz-me.

– Passou o dia a chorar. Como na noite em que vieste à cozinha. Lembras-te? – perguntou a Esfregona Biz.

– Claro. Conta-me o que tanto a entristece – pediu Inês

– Está com medo que a mandem embora. Tem medo que a troquem por uma torneira moderna toda brilhante. Ela não quer acabar cheia de pó num sótão qualquer ou num balde do lixo.

Estava a Esfregona Biz a contar a história da Luísa Torneira a Inês quando se ouve um forte e repetido clack, clack, clack. Pum, clack, clack, pum.

– Que barulho é este? – perguntava Inês, agarrando com muita força a Esfregona Biz.

– Falaram em Lixo e…cá estou eu! O meu nome é Tomé, o Balde reformado, o Sábio. – disse com a tampa levantada.

– Olha este a armar-se em fino! – disse Inês à Luísa Torneira, já acordada do seu curto, mas delicioso sono.

– Inês, Biz, o Balde Tomé é bom rapaz, mas não consegue ficar sem meter a colherada. É muito amigo de todos, mas lá tem os seus defeitos. Está sempre a bater com a tampa na barriga. Não é capaz de guardar um segredo.

– Estás a falar mal de mim, Luísa Torneira? Tens memória de elefante! Já esqueceste as birras que te aturei quando tinhas pesadelos e gritavas para te acudirem porque estavas a afogar-te em água quente? – disse o Balde Tomé irritado.

– Não é nada disso- disse a Luísa Torneira- o que nós gostamos é de Festas!

– Festas, festas, festinhas! Adoro festas! Clack, clack. – dizia o Balde Tomé com o suor a escorrer pela tampa.

Depois de uma gargalhada geral, Inês lembrou-se que a mãe lhe tinha dito para arrumar os brinquedos espalhados pela casa e, com pouca vontade, despediu-se.

– Promete que voltas, Inês.- pediu o Balde Tomé caridosamente.

– Fica prometido. Descansem e divirtam-se.

***

Tiago apanhou uma grande gripe e como não podia ir à escola, ficou uma semana na cama sem poder brincar. Inês tinha bom coração e todas as tardes ajudava o irmão a passar o tempo, contando-lhe as estórias do Balde Tomé, da Esfregona Biz e da Luísa Torneira.

– A Luísa Torneira anda um bocado esquecida.

– Coitadinha… –  disse o Tiago num tom de gozo.

– Só por não acreditares em mim, vou-me embora. Agora ficas aqui sozinho. Não gosto de ti!

– Nem eu de ti! – gritou o Tiago até ficar sem voz.

Inês desceu as escadas a choramingar, mas antes de entrar na cozinha limpou os olhos para os seus amiguinhos não notarem nada.

– Voltei, amiguinhos! –  disse Inês ansiosa por novidades – Olá Tomé, Olá Biz, Olá Luisinha.

– 0lá! – responderam em coro.

– Inês, Tomé, Biz – disse a Luísa Torneiras passei a noite em claro e já me lembro da minha família. – Sentem-se que vai ser uma longa história.

Ficaram todos muito atentos.

– A minha avó era filha da Torneira Elizabete, mas como a família era muito numerosa e em Guimarães não havia trabalho para todos, viemos para Lisboa.

– Já sei! – gritou a Esfregona Beatriz – a tua mãe conheceu o teu pai… – e Inês Interrompeu,

– Apaixonaram-se e tiveram muitas torneirinhas de olhos pretos, azuis, vermelhos.

– Sim, é verdade. Mas agora estou sozinha. Os meus pais e os meus irmãos viajaram para outras cozinhas e nunca mais os vi. Mas hei-de voltar à minha terra para ver os jardins e as crianças a brincar na rua, subir ao Castelo…

– Uma pessoa gosta sempre de voltar ao sítio onde nasceu, mas Paris é muito longe e enjoo nas viagens – disse a Esfregona Beatriz com tristeza.

– E se fossemos a Guimarães em Agosto? Nessa altura há muitas pessoas, as famílias reúnem-se para passar férias, os emigrantes regressam e há sempre festa! – a Luísa Torneira corou.

– Por que estás corada? – perguntou o Balde Tomé.

– Tinha 17 anos quando prometi ao Torneira Luís que íamos casar, mas tenho medo que ele não se lembre. Passou tanto tempo.

– A Luísa Torneira deixou cair uma lágrima e, de novo, se ouviu PLIM.

– Tenho a certeza que o Torneira Luís não te esqueceu. – disse a Esfregona Biz.

– Continuas a ser uma Torneira muito bonita. Não percas a oportunidade – disse o Balde Tomé.

– Podias escrever uma carta para o Torneira Luís e eu posso pô-la no correio.

– Boa ideia, Inês! – gritaram em coro.

 Lisboa, 12 de Novembro de 2032

.

Querido Torneira Luís,

Não esqueci o prometido.

Casaremos muito em breve

Só falta comprar vestido.

.

Com tambores e concertinas,

Será uma festa sem par

E Torneiras de todas as partes

Vão ouvir a Biz cantar.

.

O padrinho é o Tomé,

Balde com muita distinção.

A madrinha é a Inês,

Pois tem um grande coração.

.

Despeço-me com saudade

e espero que tenhas saudades minhas.

Depois do nosso casamento,

Nascerão muitos torneirinhas.

.

– Não chores mais, Luísa Torneira. Assina aqui – disse Inês – que rapidamente correu com a carta para os correios.

A resposta não tardou e o casamento ficou marcado.

O comboio levava a noiva e os convidados para se celebrar o casamento. Tudo era verde. A Esfregona Biz, emocionada, chorou durante toda a cerimónia, enquanto o Balde Tomé lhe dizia ao ouvido:

– Biz, amiga, não chores. Um dia destes vamos ter muitos afilhados a pingar pela casa.

A festa mal tinha começado quando um convidado surpresa apareceu com uma máquina fotográfica. Era bom registar aqueles momentos.

– É o Tiago! – disse Inês espantada.

A Luísa Torneira atirou o ramo de noiva tão longe, tão longe, que ninguém o conseguiu apanhar.

Acabada a cerimónia, o jovem casal Torneira despediu-se dos convidados e partiu para lua-de-mel.

Foi um dia muito especial. Inês estava agitada. O calor era muito e fazia-a transpirar. Tudo à volta era belo e sossegado. A mãe apareceu de repente, com um bonito vestido de alças e com um colar de pedrinhas amarelas. Na mão direita trazia um tabuleiro com sumo e bolo.

– Oh mãe, não quero mais bolo de noiva. – disse Inês.

– Foi uma Festa maravilhosa. A Luísa Torneira estava linda, cheia de rendinhas.

– E eu era fotógrafo – disse Tiago rindo.

– Levanta-te Inês, o pai acabou de chegar.

– Vai abrir a porta, Tiago.

– É só mais um minuto, mãe – balbuciou Inês.

Os noivos iam de comboio e já tinham feito amigos. Um Mapa-mundo muito chique e intelectual ofereceu-se para lhes mostrar o caminho. Mas a felicidade morava ali mesmo.

– Inês, Inês! –  chamou o pai

– É só mais um bocadinho. Alguém apanhou o ramo da noiva.

Eram onze horas. Os passarinhos cantavam. E no primeiro dia de férias aproveita-se sempre para dormir até mais tarde.

.

.* Lapa do Lobo

Um Comentário

  1. Celeste Cortez (Escritora de romances e Literatura Infanto-Juveniel e Poesia diz:

    Lindíssima história. Apeteceu-me ser criança… ou fui, enquanto estive a lê-la. Parabéns. Muitos parabéns.

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