Mil gotas de chuva por um raio de sol – precipitação e outras manias

CATARINA FONSECA *

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Li uma vez, já nem sei onde que o tempo afeta o humor – sobretudo o tempo do relógios. (digo eu). Para nós, portugueses, cuja fama de pouco pontuais é tida como um traço cultural, o que mais mau humor nos causa será certamente o relógio, sempre desatento às nossas necessidades cronológicas.

Para a Ciência, já não restam dúvidas sobre a intimidade entre mau tempo e mau humor.

Chega! Chega de chuva: quase 45 dias em que o sol não dá um ar de sua graça, diz um artigo acabadinho de apanhar na rede onde a dita chuva é culpada por todas as desgraças: o trânsito fica caótico,as roupas demoram a secar ( às vezes secam no corpo), as pessoas ficam irritadas. Por causa da chuva, irritadas? Os números não mentem e a ciência explica – parece que a falta de exposição solar prejudica a produção de neurotransmissores que estão relacionados com o humor. Eu não entendo bem esta linguagem, mas a ciência explica e eu…eu sinto muito….sinto muitas saudades de um raiozinho de sol.

Mesmo inundada de dúvidas, como os últimos dias de nuvens cinzentas, a ciência, agarrada a factos e números, insiste em encontrar relações entre isto e aquilo, a tecer considerações sobre qualquer assunto: sim, pode debruçar-se em pesquisas sobre a cura de um doença ou no modo de eliminar o mais incomodativo  e irritante dos insetos. E, já está! Morta a mosca, finalmente posso reencontrar-me com o meu raciocínio. Onde é que eu ia mesmo?

Manias, somos cheio delas. Superstições, rituais, pensamentos e tantas outras coisas que nos fazem movimentar.

E andava eu, não literalmente, na rede, a ver se pescava alguma coisa….ideia, quando me deparo com peixe graúdo, uma citação de Fernando Pessoa – “Pensar incomoda como andar na chuva” – e não é que estava certo?

Não, não me vou precipitar. E já chove….outra vez.

Dias e dias, semanas….uma infinidade de gotinhas escorregam até nos nossos ao mais intimo dos nossos pesadelos.

Ainda sentada e a tentar reconcentrar-me, depois da dita mosca já não me sobrevoar os pensamentos, deparei-me com um, bom, mais um dia cinzento e com chuva a ameaçar. …ah…a mosca ameaçava os meus pensamentos numeralmente: o primeiro, o segundo e toda a lista que veio a seguir…

Ah…e falava eu de números e de manias.

Temos a mania dos números: para o bem e para o mal, contamos tudo – os dias que faltam para o natal, as horas para o almoço, os minutos que um comprimido demora a levar uma dor de cabeça para tempos esquecidos. Contabilizamos tudo.

Fazemos previsões, pensamos em percentagens, estimamos, prevemos e às vezes acreditamos no que os números parecem dizer. Números são o que são: números.

E como em tudo o resto, no que toca a contar, há gostos realmente para tudo. Conheci uma senhora que, discretamente, da janela do seu quarto contava automóveis. Acha estranho? Ainda não lhe disse tudo. Desengane-se se estava a imaginar a tal senhora a contar automóveis clássicos que num dia de sol saiam do Museu do Caramulo para as ruas. Contava por cores? Não, frio, muito frio. A dita senhora contava os automóveis que faziam parte de cortejos fúnebres? Estranhou ?

Também eu acho estranho culparmos a chuva pela nossa tristeza, pelas  nossas depressões. Será que antes da chuva estavamos realmente contentes?

E falam e falam da  tristeza nos dias de chuva…tudo explicadinho também em números: os dias em que chove, os comprimidos que se tomam, as discussões… É caso para dizer que estamos em plena depressão atmosférica – sim, é por isso que chove”. O são Pedro, para quem acredita, pode dar um jeito nas torneiras lá em cima, mas não tem nenhuma vantagem em nos ver entristecer.

A propósito  ou sem ele….agora o julgamento é vosso –  e sem necessidade de grandes números….a tal senhora que contava os automóveis até tinha mais que fazer e coisas bem mais interessantes e importantes: tratava do quintal como se fosse o jardim de um palácio, punha todo o seu saber no cultivo da terra, no alimento do corpo que deixa a alma sossegada.

Então, porque contava ela os automóveis?

Era considerada falta de respeito andar a trabalhar enquanto o cortejo fúnebre passava. Respeito pelos que partem e são bem mais que números. A senhora, minha avó, não ligava tanto aos números, mas às palavras: respeito.

E com todo o respeito, esses e outros números que nos preenchem as ideias como rótulos dos produtos alimentares, por vezes não passam de abstrações, percentagens, quantidades disto e daquilo que supostamente devemos consumir para nos sentirmos bem e nem sabemos ao certo que interesse tem para a nossa felicidade. Números. De pouco valem sem a verdadeira magia das palavras.

Para os que sofrem com esta ou outra depressão, transtorno de humor e ansiedade, – deixem ir tudo por água abaixo – os efeitos podem ser acentuados. – Os dos números? Não, os da falta de boas palavras.

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.*  Lapa do Lobo

Em mais um dia quase chuvoso

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