ERAM VERDES AS FERIDAS DO MEU PAÍS

HELENA ROMÃO

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EM ALCÁCER ERAM VERDES AS FERIDAS DO MEU PAÍS

Joaquim Pessoa

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Tivemos um inverno particularmente chuvoso e o país ficou verde.

Que somos um país de parcos recursos já o sabíamos. Que somos inventivos mas pouco criativos e pouco eficazes a gerir esses recursos também. Que muitos das exportações incorporam pouco valor acrescentado também sabíamos.

Dizia o relatório do Banco de Portugal[1] em 2014 que “o nível de participação da economia portuguesa nas CVGs é ainda limitado, especialmente se comparado com o de outros países da UE de dimensão semelhante. Embora o valor acrescentado externo nas exportações tenha aumentado de 1995 para 2007, ocorreu uma redução significativa em 2009, que não tinha ainda sido recuperada em 2011. Por outro lado, a reexportação de valor acrescentado nacional incorporado nas importações é muito reduzida, indicando uma necessidade de reposicionamento em etapas da cadeia produtiva geradoras maior valor acrescentado. O valor acrescentado externo nas exportações é maior no comércio intracomunitário e a sua origem geográfica reside na Espanha, Alemanha e “Resto do mundo”. Em termos setoriais, a indústria transformadora apresenta o maior peso do valor acrescentado externo nas exportações.

Ante os últimos e desafortunados eventos emerge a consciência de que em vez de produzirmos riqueza e, com ela, melhorarmos a nossa qualidade de vida individual e coletiva, constantemente, andamos a trabalhar para repor riqueza destruída.

Num mundo em que já se fala de coeficiente de IC (inteligência coletiva), não parecemos lidar muito bem com planos, decisões e estratégias. Ora, sendo, muitas delas, governamentais não aparecem situações de responsabilização e prestação de contas.

Após o 25 de Abril fomos destruindo aquilo que (sendo criticável) tinha sido planeado. O país fora alvo de um extenso plano de florestação (Plano Florestal Nacional de 1938) que da iniciativa privada passa a uma liderança pública. Paralelamente ao plantio de espécies (sobretudo pinhal) surgem os serviços florestais que incluíam os guardas-fiscais e as suas típicas casas da floresta. Diz a revista Visão que, enquanto a Europa tem (hoje) mais de metade da sua área florestal sob propriedade e gestão pública, Portugal tem menos de 2% e quase toda essa propriedade é constituída por minifúndio, o qual as ideologias mais à esquerda não deixaram emparcelar (esgrimindo o fantasma capitalista) e onde também não estimularam o cooperativismo.

Lembramos a antiga florestação de pinhal das dunas do litoral (30.000 ha florestados até 1948), e dos baldios, a arborização do Gerês, a da mata de Monsanto em Lisboa (o famoso pulmão da cidade), a de espécies selecionadas no Buçaco, na Serra da Boa Viagem, na Serra da Estrela e em outros tantos locais que deliciaram a nossa infância. Talvez houvesse pouca consciência da preservação das espécies autóctones e tenha havido alguma invasão de espaços agrícolas e pastoris mas o país era verde e não cinza.

Contudo, após o 25 de Abril, os governos republicanos não parecem ter conseguido florestar o país de um verde saudável. Houve migrações do interior para o litoral, desertificação e a floresta (muita dela eucalipto) e o mato invadiram muitos terrenos agrícolas porque esses terrenos agrícolas continuaram minifúndios e pouco lucrativos pela ausência de emparcelamento. Se tivéssemos promovido a grande exploração e uma agricultura moderna e lucrativa, a floresta não teria invadido o país. No Baixo Mondego assistimos sempre à ceifeira ou avioneta que tratava as terras de todos e que continuam de todos.

Perdemos agricultores e excelentes terrenos agrícolas porque, coletivamente, permitimos que nos impusessem conceitos e leis limitadoras da nossa criatividade, da nossa iniciativa, da nossa liberdade económica e dos nossos lucros. As esquerdas impuseram ao país o receio e um preconceito feroz contra a riqueza e contra os ricos. Mas não faz mal que se perca riqueza e cidadãos abandonem o país. Não faz mal que o vazio da gestão estatal permita interesses duvidosos (de um capitalismo de grupos) que a comunicação social aponta, sempre que acontecem estas calamidades.

É desolador e triste e não há adjetivos, nem racionalidade, nem ideologia, nem utopia capazes de atenuar as perplexidades que os nossos caminhos coletivos nos levantam.

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[1] Vide, https://www.bportugal.pt/pt-PT/BdP%20Publicaes%20de%20Investigao/AB201402_p.pdf

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