CARLOS PEIXEIRA MARQUES
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Foi muito badalado e criticado o artigo de opinião com que José Pacheco Pereira encerrou o ano de 2016. Dele destaco o que o autor qualifica como “atitude hostil ao saber e ao seu esforço” e “ataque ao saber, ao conhecimento certificado, em nome de um igualitarismo da ignorância”. Embora me pareça que JPP está mais preocupado com o negócio da informação e da opinião mediática, não faltam exemplos da desvalorização do conhecimento certificado. Por exemplo, falando da minha área de docência, é confrangedor perceber como diversos organismos, sobretudo os municípios, geram por esse país fora um manancial de brochuras, panfletos, outdoors, etc. para a chamada “promoção turística”, criados por cabeças que não fazem ideia de como se define uma audiência-alvo, um posicionamento, ou os efeitos de comunicação. Pensa o ignorante comum que não é preciso estudar nem praticar para saber isso.
No entanto, para os fins desta crónica, o que me interessa não é tanto o conhecimento certificado, seja feito de ciência ou de experiência, mas sim a atitude perante o conhecimento e o esforço que o produz. A atitude hostil a este esforço, realçada por JPP, não só alimenta a ignorância, como a legitima e a valoriza. Face a nova informação, a atitude sábia é reconhecer a ignorância e procurar, verificar, questionar, comparar, pedir conselho. A atitude inversa tem duas variantes: a inconsciência da ignorância, que resulta no bitaite; a despreocupação com a ignorância, que resulta na aceitação passiva da informação pelo seu valor facial. É esta última que é objecto do artigo citado. Potenciada pela cultura da presentificação e facilitada pela distração tecnológica, promove a partilha massificada de falsidades e vieses que no final favorecem determinados mecanismos de poder.
É preciso que se diga que esta atitude ignorante não é eficazmente combatida pela escola. As pessoas com mais formação escolar sabem mais, mas não têm necessariamente uma atitude mais sábia perante nova informação. Veja-se a facilidade com que um famoso jornalista de economia do Expresso caiu no conto do Baptista da Silva ou a espantosa quantidade de professores que publicam no facebook “notícias” que garantem que existe uma planta que elimina rapidamente o cancro, mas não é usada nos hospitais por influência das farmacêuticas; ou que se acham inteligentes porque partilham frases triviais com as quais se identificam e que um anónimo qualquer atribuiu a Einstein.
Existem diversos traços psicológicos que interferem na propensão para acreditar em patranhas. Foi criada uma escala para medir esta propensão, especificamente para frases sem sentido, do género das que circulam pelas redes sociais. Estudos com esta escala, que tem o sugestivo nome Bullshit Receptivity Scale, têm mostrado que quem tem uma forma de pensar mais analítica é muito menos influenciável por este tipo de petas. Por outro lado, também tem sido evidenciada uma menor propensão para aquilo que acima chamei “despreocupação com a ignorância” por parte das pessoas que tendem a processar a informação de forma mais profunda (faça aqui o teste).
É sabido que a maioria das pessoas prefere, pelo contrário, o processamento superficial. Quem quer saber dos pormenores? Quem quer ver comprovado com informação factual e avaliável se o Primeiro-ministro está a “devolver” rendimento “aos portugueses”, se o Governo se preocupa com “o Interior” ou se o executivo camarário promove o desenvolvimento harmonioso de todas as freguesias? Quando muito, o que a maioria quer saber é se foi servida vichyssoise ou sopa de lentilhas. Neste sentido, parece-me que esta ignorância, ao contrário da tese de JPP, não é nova, apenas utiliza novas formas de reprodução.


Há inúmeros exemplos das más consequências do desprezo pelo conhecimento. Recentemente tivemos notícias de crianças falecidas porque os pais são contra vacinação ou porque foram “tratadas” com produtos homeopáticos. Tudo indica que a tragédia que ontem nos calhou poderia ter consequências menos graves se os “responsáveis” valorizassem mais o conhecimento, nomeadamente o científico:
«E é este desprezo pelo conhecimento que existe, e existe mesmo, aliado a uma fobia à avaliação independente de desempenho, que faz com que se possa invocar sempre a imprevisibilidade, como se não houvesse dezenas de textos a dizer que tragédias como a deste fim-de-semana são apenas uma questão de tempo, se a gestão do fogo se mantiver como tem sido».
Não deixa de ser um triste paradoxo que, num contexto desta gravidade, o nosso Presidente da República, com larga carreira de professor universitário, tenha imediatamente sinalizado que não vale a pena conhecer, nem sequer procurar saber se houve algo que poderia ter sido feito e não o foi ou algo que foi mal feito. É, a todos os níveis, uma tristeza.
Excelente artigo. Força a reflexão sobre como nos portamos frente à informação.