PORTUGAL – Investimentos na Ferrovia 2017-2027…

PEDRO ZÚQUETE *

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Tendo o País realizado um investimento na Ferrovia na segunda metade da década de 90, com a electrificação e renovação integral da Linha da Beira Alta (1996), permitindo a realização de comboios de mercadorias mais compridos e pesados, favorecendo o corredor internacional entre o país e a vizinha Espanha, outros projectos semelhantes se seguiram quando houve necessidade de requalificar o espaço urbano da cidade de Lisboa, para albergar a Expo 98.

Construiu-se a Gare do Oriente e todo o interface com o Metro de Lisboa e a Linha de Cintura (já se perspectivando a ligação à Ponte 25 de Abril, como ligação mais directa e rápida para o Alentejo e Algarve) com ligações à zona Centro e Oeste da cidade de Lisboa, servindo a Linha de Sintra e linha do Oeste.

Sem dúvida que, foram visões excelentes no âmbito dos transportes ferroviários; com a realização do Euro 2004, novos investimentos foram executados, como a renovação integral de dois terços da Linha do Norte (Lisboa Sta. Apolónia-Alfarelos, Mealhada-Válega), reforço do tabuleiro da ponte 25 de Abril para receber os comboios pesados de mercadorias e passageiros, requalificação e electrificação da Linha do Sul (até Faro), Linha da Beira Baixa (até Covilhã), Linha do Douro (até Caíde de Rei), Linha do Minho (até Nine), Ramal de Braga, Ramal de Guimarães, Linha do Oeste (Bifurcação de Lares-Louriçal), Ramal de Sines, Linha de Vendas Novas e por último Ramal de Évora, já no final da primeira década do presente século.

Muito ainda existe para fazer na requalificação da ferrovia em Portugal; muitas das actuais linhas férreas possuem traçados antigos, do tempo do Vapor e necessitam de ser corrigidos, para que possamos ter um Caminho de Ferro eficiente e moderno, onde o custo das mercadorias transportadas seja muito mais competitivo que sendo as mesmas transportadas por via rodoviária.

Isto aplica-se nas mercadorias como nos passageiros; possuir uma rede de composições versáteis, onde a frequência de comboios seja de acordo com as necessidades dos seus clientes (passageiros) e despachantes de carga, aumenta a eficiência do transporte, alivia o peso do Estado na manutenção e gastos com reparações das estradas e ajuda o ambiente.

A articulação de plataformas logísticas de mercadorias combinadas entre o transporte ferroviário e o transporte rodoviário, este último funcionando num sistema de distribuição de pequeno raio de acção, gera um aumento de eficiência no valor da carga transportada.

Não podemos descorar o transporte de passageiros; quanto mais reduzirmos a frequência deste tipo de transporte, mais depressa, o passageiro procura uma nova modalidade de transporte alternativo, recorrendo ao automóvel particular ou Expresso rodoviário.

Este é um factor facilmente visível, todavia, as repercussões a médio e longo prazo são penalizadoras para o país, com o aumento do despovoamento do interior e a deslocalização de indústrias, serviços e população para o litoral ou regiões onde existam transportes eficientes.

A Linha da Beira Alta é um caso que merece alguma reflexão, dado o nível de investimento executado e o retrocesso dos índices de passageiros e mercadoria transportada.

Tendo muito próximo, os Portos de Aveiro e Figueira da Foz (este último, com uma capacidade enorme de expansão) fazia todo o sentido que se investisse num corredor estratégico entre o nosso país e a vizinha Espanha, não descorando a continuação para o centro da Europa.

A Sul, apenas Lisboa e Sines possuem portos com um nível elevado de mercadorias transaccionadas.

Setúbal, tal como a Figueira da Foz, tem potencialidades para crescer e expandir a área de atracação.

No Algarve, a barra de Faro é instável, o cais exíguo e deveria-se apostar nos portos de Portimão (Barlavento) e Vila Real de Santo António (Sotavento), onde os canais navegáveis não são tão influenciados pelas correntes de maré.

Tenho realizado vários estudos de carácter pessoal sobre possíveis investimentos de desenvolvimento e melhoramento do nosso transporte ferroviário em consonância com o transporte marítimo.

Tendo em conta que já existe muitas vias electrificadas, o potencial de expansão e criação de novos circuitos vão ser geradores de riqueza para a CP e para o desenvolvimento económico das regiões mais desfavorecidas (sobretudo o interior do país, onde a ferrovia possui fraco índice de ocupação).

Aproveitando os corredores de tráfego existentes, consegue-se criar ligações práticas, gerando um elo entre o Norte, Centro e Sul, que hoje não existem e devem ser implementadas, de forma contrária ao clássico de décadas.

Deste modo, vejamos o que proponho sete novas ligações:

 Linha Verde (Entroncamento-Santarém-Muge-Marinhais-Coruche-Bombel-Poceirão-Alcácer do Sal-Grândola-Lousal-Ermidas Sado-Alvalade-Funcheira-Amoreiras Odemida-Luzianes-Santa Clara Sabóia-S. Marcos da Serra-Messines Alte-Tunes) – serviço Regional;

– Linha Vermelha (Entroncamento-Santarém-Coruche-Poceirão-Monte Novo Palma-Alcácer do Sal-Grândola-Ermidas Sado-Santiago do Cacém) – serviço Regional com enlace em Santiago do Cacém a Sines, por autocarro;

– Linha Cinza (Coimbra-B-Alfarelos-Soure-Pombal-Fátima-Entroncamento-Santarém-Coruche-Vendas Novas-Casa Branca-Évora) – serviço Regional com ligação a Beja;

– Linha Azul (Lisboa Oriente-Sete Rios-Pragal-Pinhal Novo-Palmela-Setúbal-Monte Novo Palma-Alcácer do Sal-Grândola-Canal Caveira-Ermidas Sado-Alvalade-Funcheira-Luzianes-Sta. Clara Saboia-S. Marcos da Serra-Messines Alte-Tunes) – serviço Regional com enlace em Ermidas Sado com a Linha Vermelha;

– Linha Violeta (Beja-Cuba-Vila N. Baronia-Alcáçovas-Casa Branca-Vendas Novas-Bombel-Poceirão) – serviço Regional com enlace com as linhas Cinza, Verde e Vermelha;

– Linha Amarela (Abrantes-Ponte de Sor-Crato-Portalegre-Arronches-Santa Eulália(ap)-Elvas-Badajoz-Mérida) – serviço Regional (Diesel) com ligação aos IC da Linha da Beira Baixa em Abrantes, com ligação a Espanha, semelhante ao serviço que faz o Celta para Vigo;

– Linha Azul escuro (Guarda-Cerdeira-Vilar Formoso-Fuentes D’Oñoro-Ciudad Rodrigo-La Fuente San Esteban-Salamanca) – serviço Regional (Diesel) com ligação ao IC da Beira Alta.

Estes novos serviços, para além de terem um carácter Regional, a Linha Amarela e a Azul escuro irão servir como serviços diurnos, aumentando a oferta com destinos que viabilizam rotas comerciais de passageiros, com retorno económico.

Os restantes serviços, permitem descongestionar a Linha do Norte e aproveitar a Linha de Setil a Vendas Novas/Bombel, com uma ligação entre o Norte e Centro com o Alentejo e Algarve, não sobrecarregando o tráfego na Linha da Ponte Salazar.

Actualmente existem dois serviços ferroviários de passageiros e mercadorias de carácter internacional; um, entre a cidade do Porto e Vigo (O Celta), usando a Linha do Minho e o outro entre Lisboa (enlace com o Porto) e Paris (com ligação a Madrid), usando para o efeito duas composições da Renfe (Talgo), usando a Linha da Beira Alta.

O Serviço que serve Paris e Madrid junta duas composições (Sud-Express e Lusitânia) sendo de periocidade nocturna.

Sendo Salamanca uma cidade com um vasto historial cultural, onde existem portugueses a trabalhar e a estudar (Universidade de Medicina), a CP deveria apostar num serviço diurno de passageiros, entre Lisboa/Porto/Coimbra e Salamanca. Estou certo que, seria uma excelente aposta e teria viabilidade económica para ambas as operadoras (CP e Renfe), não só na vertente de turismo, como económica, social e ambiental.

Retirar o automóvel da estrada, ajuda o ambiente e a segurança do cidadão.

Com apenas duas automotoras consegue-se ter um bom serviço, de 3 composições em cada sentido.

Numa outra região do país, a nossa ferrovia deixou de ser competitiva e rentável, por várias razões.

Uma, o seu traçado, cheio de curvas e pelo facto das estações e apeadeiros se situarem longe das respectivas localidades.

Outra, o estado de degradação a que a via foi votada durante dezenas de anos, composições vagarosas e o infinito tempo que elas demoravam para chegar ao destino; este é uma das principais causas da fraca procura por parte dos passageiros e a procura de transportes alternativos.

A Linha do Leste e o Ramal de Marvão são dois exemplos onde este fenómeno se deu nos últimos 30 anos.

Na última década, a procura de passageiros era tão escassa que a CP encerrou o serviço de passageiros nestas duas vias.

Este serviço pode ser efectuado recorrendo a duas automotoras Diesel. Em função da procura poderão ser ajustados os serviços propostos.

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 * Técnico Superior de Ambiente e de Segurança e Higiene do Trabalho

Aveiro, 27 de Fevereiro de 2017

2 Comments

  1. Não me considerando um ser demasiadamente viajado, lamento não me poder deslocar, em composição ferroviária, entre todas as antigas capitais de distrito (e eram apenas dezoito)!!!!!

  2. Parabens pelo seu excelente trabalho.Só agora o encontrei,Não tenho tido paciencia para continuar com os meus pobres comentários.É uma pena os nossos governantes,terem abandonado a ferrovia,para construirem 2840 km de autoestradas,muitas paralelas com as linhas.É um crime de lesa pátria,as linhas do Sabor,Corgo,Tamega,Tua ,a terceira mais bonita do mundo,Moura,Reguengos,estarem abandonadas,á mais de vinte anos,e transformadas em ecopistas,para passearem de biciclete nos fins de semana.So´e mPortugal se troca umas linhas de combóio por ecopistas..Quantas povoações no Minho ficaram sem o COMBÓIO,o melhor transporte terrestre no mundo?Talvez mais de cinq:uenta.Em Portugal devemos ter umas oito cidades sem combóio.Todas as linhas encerradas deviam ser ativadas,com os mesmos carris,com travessas em betão,as estações todas reparadas,e não estarem algumas ao serviço da ródovia.Como já disse em comentários anteriores,,automotoras eletricas com ou sem atrelado,a circularem a 100km/h.Com uma EXPLORAÇÃO ECONÒMICA,o custo dos bilhetes,podia ser reduzido entre 20 a 25% da ródovia.Em minha opinião,todas as ecopistas,devem desaparecer das linhas férreas.Só de autarcas falhados ,trocarem boas linhas férreas,por ecopistas,privando muitas povoações do minho e alentejo do combóio.O caso mais revoltante,é o ramal da Lousã.que servia mais de um milhão de habitantes,ser trocado,segundo julgo por autocarros.Já não comento mais,atiro a toalho ao chão. Os meus respeitosos cumprimentos.Ex chefe estação Azaruja,Machede e chefe de combóio estrela de Evora.Mauricio Arrais.

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