Farol da Nossa Terra – O NOVO DIZ TU, DIREI EU, OU O BINÓMIO JORGE – PEDRO
segunda-feira, 22 maio 2017

Hélio Bernardo Lopes — Quinta-feira, 16 Março 2017 — 1 Comentário

O NOVO DIZ TU, DIREI EU, OU O BINÓMIO JORGE – PEDRO

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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A sociedade portuguesa da III República mostra, desde há muito, uma invulgar capacidade de produzir fait-divers a um ritmo muito veloz e alucinante. Em mui pouco tempo, passou-se da primeira comissão da Caixa Geral de Depósitos para a segunda, logo seguida do caso Núncio, depois com o ressurgimento do Caso Marquês, de pronto surgindo o segundo livro da biografia autorizada de Jorge Sampaio, e hoje mesmo da reação de Pedro Santana Lopes, na Renascença, a esta última obra. Não nos faltam fait-divers.

Dispensando tudo o resto – e é importante –, atenho-me aqui ao convite de Pedro Santana Lopes a Jorge Sampaio para um debate público, civilizado, ao redor do que se passou ao tempo da demissão do primeiro pelo segundo e que conduziu a novas eleições e à vitória, com maioria absoluta, de José Sócrates e do PS.

Embora desconhecendo a realidade das palavras de Pedro Santana Lopes, hoje na Renascença, há meia dúzia de dados que se impõe aqui salientar, de molde a perceber o que se passou ao tempo da sua subida ao cargo de Primeiro-Ministro. Analisemo-los.

Em primeiro lugar, ficará para a História de Portugal, embora pelas piores razões, o abandono do Governo de Portugal por parte de Durão Barroso, a fim de se tornar Presidente da Comissão Europeia. Uma mancha negra que sucedeu a do encontro das Lajes e que conduziu ao atual panorama político mundial na zona do Médio Oriente e do Norte de África. Infelizmente, o desempenho de Durão na União Europeia situou-se na zona do medíocre, passando a mau na sequência da sua saída a caminho da Goldman Sachs. E a vida sempre a correr…

Em segundo lugar, há um dado que nunca é referido: Jorge Sampaio nada tinha já que ver com a Esquerda, estando apenas filiado no PS. Pude explicar isto mesmo num texto meu, já muito antigo, a que dei o título, UMA CONFUSÃO LONGÍNQUA.

Em terceiro lugar, e ao contrário do que se diz serem agora as palavras de Pedro Santana Lopes, Jorge Sampaio não estava ao serviço dos poderosos do País. A grande verdade, porém, é que estes não queriam Pedro Santana Lopes no poder de modo algum. E, naturalmente, Jorge Sampaio não poderia mostrar-se alheio a esta realidade.

Em quarto lugar, é bom recordar o que foi o corrupio de gente a caminho do Palácio de Belém, sempre salientando, abertamente ou não, o imperativo da saída do Governo de Pedro Santana Lopes, seguida da convocação de eleições para deputados à Assembleia da República. E – é a verdade – esta enorme maioria de opinadores ansiava pela subida de Cavaco Silva ao lugar presidencial, logo que possível. Quase com toda a certeza, Jorge Sampaio também via esta ideia com agrado.

Neste contexto, desempenhou um papel crucial a grande comunicação social, que diariamente achincalhava tudo o que pudesse envolver a ação política de Pedro Santana Lopes. A mesma, precisamente, que depois elevou a Maioria-Governo-Presidente de Direita a algo de verdadeiramente pré-divino.

Em quinto lugar, o próprio Pedro Santana Lopes reconheceu já que o seu maior erro político foi não se ter lançado a eleições para deputados, na sequência do abandono de funções de Durão Barroso. Um erro que ajudou a potenciar o que depois veio a poder ver-se a um ritmo diário nos nossos canais televisivos.

E, em sexto lugar, Pedro Santana Lopes sabe muitíssimo bem que Jorge Sampaio, por todas as razões, nunca aceitará o tal debate que referiu na RTP 3, no programa semanal que tem com António Vitorino. No fundo percebe-se perfeitamente que tal debate nunca serviria para nada.

Faltou a Pedro Santana Lopes, até este momento, reconhecer duas coisas. Por um lado, que as ditas democracias, sobretudo nestes dias, nada têm que ver com a vontade popular, antes se constituem em máquinas legitimadores do exercício do poder, sempre ao serviço de minorias de com interesses. E, por outro lado – viu-se, mais uma vez, nestas eleições holandesas, e vai voltar a ver-se, ao menos, em França –, os socialistas democráticos, ou os trabalhistas, ou os sociais-democratas, por se terem entregado ao serviço do neoliberalismo, estão em vias de extinção. Seria o que se daria entre nós com Seguro ou Assis à frente do PS.

Objetivamente, ninguém queria Pedro Santana Lopes no Governo, antes alguém do PS, sobretudo José Sócrates – recorde-se a sua posição em face do atual Governo –, sempre com os olhos postos em Aníbal Cavaco Silva no exercício presidencial. E é inquestionável a simpatia de Jorge Sampaio ao redor desta ideia. Sobretudo, porque a ligação de Jorge Sampaio ao socialismo, democrático ou real, foi sempre mera aparência, ligada a um erro de apreciação com origem social e circunstancial. Basta recordar, por exemplo, a história reunião da RIA no Técnico, ainda presidida por Jorge Sampaio, e que deixou marcas de sangue hoje ainda vivas.

Em resumo: a aparente linearidade do modelo explicativo de Pedro Santana Lopes, ao redor do que se passou com o fim do seu Governo, está longe da realidade, porque a sintonia de Jorge Sampaio, enquanto Presidente da República, com os representantes do poder real em Portugal derivava de uma razão ligada à própria origem social de Jorge Sampaio. Por ser esta a realidade, sempre que penso na ação política de Jorge Sampaio, o que logo surge ao meu pensamento é Zita Seabra. As coisas são como são. E já agora: qual será o próximo fait-divers, a ser logo utilizado contra o atual PS e o seu Governo?

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

Um Comentário

  1. Hélio Bernardo Lopes diz:

    Nota Breve

    De facto, Pedro Santana Lopes arrependeu-se, isso sim, de não se ter proposto a líder do PSD, através de um congresso legitimador. E um abraço.

    Hélio Bernardo Lopes

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