Farol da Nossa Terra – QUANDO O DESCONFORTO É OUTRO…
quinta-feira, 17 agosto 2017

Hélio Bernardo Lopes — Domingo, 7 Maio 2017 — 1 Comentário

QUANDO O DESCONFORTO É OUTRO…

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Nunca duvidei da falta de lógica das candidaturas ditas independentes desde que a moda surgiu. Invariavelmente, mormente em Portugal, tais candidaturas disfarçam concidadãos nossos da Direita, mas que se recusam a militar num partido político, saltitando, depois, entre posições cuja proximidade vai variando com cada partido em função das condições objetivas.

A lógica do funcionamento de uma democracia suporta-se nos partidos políticos, razão que sempre levou os seus detratores a ilegalizarem os mesmos. Por ser assim, e não podendo pedir-se o fim dos partidos – sobreviria o caciquismo dos mais poderosos…–, recorre-se ao mecanismo das candidaturas independentes. Estas candidaturas ditas independentes constituem um isomorfismo do mercado, onde, supostamente, a livre concorrência traria benefícios para todos. O resultado está hoje à vista do mundo, bastando prestar atenção às palavras do Papa Francisco.

Acontece que estas candidaturas, de um modo mais ou menos direto, insinuam sempre o compadrio presente nos partidos políticos: quem está nos partidos é mau, quem é (dito) independente é excelente. Ou a caminho disso…

Escrevo este texto, como se percebe, a propósito dos recentes acontecimentos criados por Rui Moreira, ao redor das palavras da Secretária-Geral Adjunta do PS, Ana Catarina Mendes. Tratou-se, porém, de um uma atitude essencialmente tática, suportada na ideia de que Rui Moreira terá já adquirido um potencial próprio, podendo, por isso, assumir-se com mais naturalidade, prescindidndo do apoio do PS.

Fez mal o PS em não se apresentar com um candidato próprio na anterior eleição portuense, dado que nada impedia a perceção de que Rui Mmoreira, de facto, era uma personalidade da Direita, objetivamente contrário a tudo o que pudesse relevar das preocupações político-sociais de um partido como o PS. Fez mal por esta razão, mas também porque perder não é algo que seja um desastre terrível. Perde-se hoje e talvez se ganhe a seguir.

Mas o PS voltou a fazer mal em não prevenir, a tempo e horas, esta eleição portuense. Tinha o dever, perante os seus militantes, perante os portuenses e perante os portugueses, de apresentar uma candidatura própria à autarquia do Porto. É o que sempre terá de esperar-se do PS, bem como dos reais grandes partidos do País.

Como se percebe agora com facilidade, o que Ana Catarina Mendes disse foi simples e o óbvio: se a candidatura liderada por Rui Moreira tivesse também o apoio do PS, uma vitória daquela também seria deste partido. Nem Lapalice faria melhor. Mas assim não pensou Rui Moreira, que acredita hoje já poder demarcar-se do PS, assumindo a sua posição de Direita e contrária à atual solução de Governo de um modo mais fácil e publicamente aberta.

Pode acontecer, como é lógico, que Rui Moreira venha a perder votos em razoável quantidade. Se o PS surgir com um candidato prróprio, a equipa de Rui Moreira, objetivamente, será uma candidatura da área do CDS/PP. Mas claro que Rui Moreira dirá que não, tal como os dirigentes deste partido, embora os portugueses não vivam na Lua.

Como facilmente se percebe, a anterior equipa dirigente da autarquia portuense não foi nunca uma estrutura uniforme, antes contendo pontos que pudessem ser seguidos de modo diferente se o poder fosse de outro concidadão ou partido político. Ocorre-me o caso dos futebolistas, que são hoje de um clube e amanhã de outro. Em cada situação, dão o seu melhor pela equipa de que fazem parte. Não sendo Rui Moreira Deus, nem mesmo santou ou beato, haverá sempre quem possa fazer melhor. O que significa que a equipa do PS que vier a defrontar a lista encimada de Rui Moreira terá de apontar as discordâncias em face da anterior ação política e apresentar um programa estratégico para o concelho, também com reflexos na área metropolitana e mesmo no País. Nada é aqui contraditório.

Por todas as razões objetivas, o candidato natural do PS deverá ser Manuel Pizarro, até porque o próprio Rui Moreira reconheceu já ter sido um concidadão de elevada competência no desempenho das suas funções ainda atuais. O resultado será o que for, sendo certo que nunca será mau. O problema passará, deste modo, para Rui Moreira, até porque pode vir a ter de coligar-se no futuro…

Espero que este episódio, perfeitamente previsível, leve os dirigentes políticos dos partidos a perceberem que têm o dever de apresentar candidaturas suas a todos os cargos políticos em disputa, porque esse é o único caminho para defender a democracia. É, porém, um caminho necessário, mas não suficiente. É essencial, depois, que realizem uma ação política virada para a defesa dos direitos mais essenciais dos cidadãos, mormente os que se ligam ao Estado Social. E que não esqueçam, no futuro, o que acabou agora de ter lugar com esta tomada de posição de Rui Moreira, também ele assumido como independente.

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

Um Comentário

  1. Carlos Peixeira Marques diz:

    Creio que está equivocado quando escreve “Fez mal o PS em não se apresentar com um candidato próprio na anterior eleição portuense”. O PS concorreu com lista liderada pelo mesmo Manuel Pizarro, tendo obtido três mandatos, tantos quanto o PSD de L. F. Menezes. A lista de Rui Moreira teve seis mandatos.

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