SÃO NEGRAS AS FERIDAS DO MEU PAÍS

HELENA ROMÃO

Helena Romão.jpg

.

Vai quase um ano que escrevi a última crónica[1] para o “Farol da Nossa Terra” que a isso me obrigou, não a falta de assunto (ai, há tantos!) mas, a falta de tempo e toda uma série de prioridades de um outro tipo de cidadania.

Contudo, os últimos e trágicos acontecimentos haveriam de me despertar, de novo, essa vontade de partilha. Não de uma mesma reflexão. Essa está lá e, infelizmente, completamente atual porque não mudou absolutamente nada.

(É meia-noite e dezasseis minutos. Ao longe passa um helicóptero de combate a incêndios e fico a desejar que esteja tudo bem e sob controlo.)

O que eu queria partilhar é algo que já não é a crítica racional, política ou ética, em torno de uma situação ou acontecimento.

O que quero partilhar, hoje, são, coisa invulgar, sentimentos. Já sei que estão todos a pensar num rol de sentimentos negativos como a revolta profunda, a irritação, a frustração e o desânimo, pedaços de dor que seriam facilmente compreendidos pelo povo português.

Pois pretendo, antes, falar de medo e nostalgia.

É que passei, hoje, entre pinheiros numa estrada nacional (como a “estrada da morte”). Fazia muito calor. Então, a minha mente, ou seria o sistema sensorial, quis abrandar a velocidade e experimentar o sabor da sombra. Aquele Eu de memórias quis sentir-se bem com a frescura e o sabor a oásis que essas árvores permitiam. Mas, logo uma espécie de censura se sobrepôs, qual sistema de alerta. “Não. Não faças isso. Acelera e passa depressa este local com árvores de um lado e do outro.”

Sobreveio, então, a nostalgia de uma época em que essa paisagem era ativamente procurada no verão (sim, um verão de canícula e cigarras), sem que qualquer evocação de risco se sobrepusesse ao deleite do momento. De todas as paisagens de floresta guardo maravilhosas recordações de viagens de infância e piqueniques.

O medo associado à floresta só me parece comparável à sensação de insegurança que ensombrou as cidades que sofreram ataques terroristas. Qualquer coisa que não sabemos se ou quando vai acontecer mas que poderá com forte probabilidade acontecer provocando muitos danos e dor.

Sobreveio a nostalgia de um tempo em que o pior que nos podia acontecer era uma picadela de abelha ou de mosquito, umas formigas ou uma água que aquecia, apesar do gelo.

O Mundo tem desprezado o aquecimento global e talvez que esse grau ou dois a mais façam a diferença: menos chuva, mais seca …ah! E o que já disse no ano passado.

Apetece-me, agora, lembrar que neste país (todos, do mais-desfavorecido ao mais-privilegiado) desprezámos tantas regras e que, sim, a violação de tantas delas enforma, demasiadas vezes, os fenómenos da corrupção, do compadrio, do desprezo pela lei e da negligência. E, porque inventei uns hífenes, recordo que até desprezámos as regras da ortografia e agora temos contatos, palavra que nunca ouvi. Mas adiante.

Os governos deixaram de ter planos e projetos no terreno para terem apenas gabinetes e assessorias, parcerias, estudos e consultadorias. Tudo isto soa bem e é capaz de granjear uns votos.

Enfim, não gostaria de terminar sem me dirigir deliberadamente às esquerdas do país dizendo-lhes que respeito muito o pluralismo mas que têm demasiados fantasmas associados a regras e a fardas. Por isso, não deixam que o Estado crie empregos com os guardas florestais. Já deviam ter percebido que é matéria consensual e que, BOM, até teriam a oportunidade de criar emprego público útil, ao reintegrarem funcionários públicos em risco de despedimento, reduzindo o desemprego e, imagine-se, obtendo mais votos.

Com tantas petições online, esta é seguramente uma que vale a pena lançar, acrescida de ordem veemente aos nossos representantes na Assembleia da República para que criem regras científicas e técnicas para o reordenamento florestal, agrícola e urbano (todos eles desordenados), numa preocupação de efetiva sustentabilidade e de herança patrimonial pela qual somos responsáveis ante as gerações futuras.

.
[1] http://www.faroldanossaterra.net/2016/08/12/em-alcacer-eram-verdes-as-feridas-do-meu-pais/

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*