Farol da Nossa Terra – A Política não é só um discurso
quarta-feira, 20 setembro 2017

Artur Fontes — Quinta-feira, 6 Julho 2017 — 1 Comentário

A Política não é só um discurso

ARTUR FONTES
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«A salvação depende doravante de um soberano que para tudo preservar tem tudo na mão»

Corneille, Cinna

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Ao lermos a História Política dos diversos Povos, vamos encontrando sempre algo que é comum a todos: a luta pelo Poder! Luta que, com mais ou menos aproximações, é constante na vida dos povos. Essa luta executa-se sob as mais diversas formas. Tem causas e objectivos diferentes. Pelos seus actores, pelos seus participantes, poderemos perceber qual a origem e motivação dessa luta. O que está em causa é perceber quem detém o Poder e como o executa? Se forem os poderosos contra os “pequenos” depressa verificamos estar em presença da defesa de interesses desses “grandes”. “Os reis querem ser absolutos, e à distância grita-se-lhes que o melhor meio para o serem é fazerem-se amar pelos seus povos, (…) o seu interesse pessoal é, primeiramente, que o povo seja fraco, miserável, e que jamais possa resistir-lhes” ( J.J.Rousseau, “Contrato Social”).

A este poder de um rei e focalizado apenas em si, sem partilha, chamou-se de absolutismo monárquico. Se tirarmos a palavra “rei” e a substituirmos por “presidente” temos as conhecidas ditaduras modernas, que podem ser militares ou civis. Mas, não se pense que esta concentração de poderes se se circunscreve ao já mencionado. Também se estende às chamadas ditaduras das maiorias! Mesmo, em regimes democráticos, corremos o risco de estarmos sujeitos a uma ditadura.

Guilherme d´Oliveira Martins, sobre o búlgaro e radicado em França, Zwetan Todorov, falecido neste ano de 2017, escreve: “é uma das vozes mais lucidas na complexa reflexão sobre a liberdade e a democracia nos dias de hoje”(in “Nova Cidadania”).

Mais à frente, e sobre o último livro daquele, “Le Triomphe de l´Artiste”, cita-o: “O mundo contemporâneo, não menos que as sociedades totalitárias, empurra-nos em todos os domínios, trabalho, justiça, saúde e educação, para o que Alain Supiot designa como “governo pelos números” (rev.cit.).

A preocupação de Z. Todorov, que deveria ser também a nossa, leva-o a exclamar, mostrando-nos que “a tirania dos indivíduos pode ter consequências tão graves como a tirania do Estado”.

Esta tirania ou vilania por parte dos que detém o poder ou o desejam a todo o custo, tem contornos hábeis e subtis para iludirem as pessoas. Mascaram-se de boas qualidades e intenções. Verificamos, hoje em dia, sempre que se aproximam dias de eleições. O assunto não é novo. Aliás, escrito ainda no Sec. XVI, pelo florentino Maquiavel, o livro “O Príncipe”, dá-nos a seguinte nota: “voltando às boas qualidades (…) não é necessário que um príncipe as possua todas, mas sim que pareça tê-las. (…) É-lhe sempre bom, por exemplo, parecer clemente, fiel, humano, religioso, sincero”, (Maquiavel, “O Príncipe”, Cap. XVIII).

Bastará o disfarce e dissimularem aparentemente essas “qualidades”. Pretendem serem vistos, ouvidos, cumprimentados e a desfazerem-se em doçuras. Trazem atrelados e agarrados à fama do poder, uma alcateia de submissos. Não suportam a crítica por julgarem estar a serem “atacados”, e afastam os que discordam, quando uma crítica fundamentada serve de ponte entre as diversas opiniões. Liberdade de Pensar!

Uns mudam de partido, não por terem encontrado novos caminhos, mas por calculismo político; outros há que se mantém nas mesmas cores, com quotas em dia, mas concorrem por outros “emblemas” consoante os ventos da moda. Os partidos, no final da luta, o que pretendem são as estatísticas: Partido A tem x Câmaras, ou Freguesias ou Ass. Municipais, e o partido B tem y. O que conta são os números. Tudo serve.

Felizmente, para a saúde política do País, nem todos se regulam por aquelas velhacarias. “Para Todorov, a crítica da democracia não significa renunciar a esse ideal. O que está em causa é a preservação do pluralismo, do primado da lei, da legitimidades do voto e do exercício, de modo que a mais ínfima das vozes possa ser ouvida” (Guilherme d´Oliveira Martins, in Rev. cit).

A Política não é só um discurso, mas um pensamento que transmite valores, “se desejamos defender o ser humano contra as forças sociais que o destroem” (Zvetan Todorov).

Um Comentário

  1. Carlos Peixeira Marques diz:

    Caro Artur:

    Fez-me recordar o seu “discurso não proferido” de 2011. Que pena me dá a alcateia de submissos aos Sócrates deste mundo.

    Abraço.

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