A Dignidade da Diferença

ARTUR FONTES
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«O pluralismo é uma espécie de esperança, porque se fundamenta no entendimento»

Jonathan Sacks

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…“de que é precisamente por sermos diferentes que todos temos algum contributo a dar  ao projecto comum de que fazemos parte. (Jonathan Sacks, in “ A Dignidade da Diferença, Como Evitar o Choque das Civilizações”, (2006:265)

Filósofo e teólogo, Jonathan Sacks foi, a partir de 1991, o Rabino – Chefe das Congregações Hebraicas Unidas do Commonwealth. Reconhecido internacionalmente pelos seus escritos e intervenções em prol da tolerância “numa época de extremismo” (Prólogo, 2006:7), tem tido uma intensa actividade quer como Professor Convidado na Universidade Hebraica de Jerusalém quer ainda como membro honorário do Conville and Caius College, de Cambridge, para além de ter participado em algumas delegações em zonas de conflito armado.

Do primeiro parágrafo, julgo podermos retirar ensinamentos para um relacionamento dialogante e construtivo entre opiniões diferentes, sobretudo, para quem foi recentemente eleito para os diversos cargos autárquicos. Todos os eleitos, assim como os restantes candidatos, apresentaram-se com o intuito de poderem vir a servir o concelho, tornando-se este e desta forma, num “projecto comum” de intenções. Ora, se compreendermos o que escreve Jonathan Sacks, que é pelo “entendimento de que a diferença é fonte de bênção leva-nos a procurar a mediação, a solução do conflito, a conciliação e a paz—-uma paz fundada na diversidade e não na uniformidade”, (p. 265), teremos aqui, um indicador e uma constatação precisa para um positivo relacionamento, entre os diversos autarcas, orientando os seus comportamentos e suas práticas naquele sentido. A construção da democracia não se limita ao discurso ou aos programas eleitorais. Ela terá que deixar a face discursiva escrita no papel para se transformar em realidade, em se materializar e se humanizar: Ser pessoa!

Daí, a percepção necessária de que, apesar de existirem opiniões diversas, existe um factor comum: somos pessoas, diferentes mas com valor!

Philip Selznick «A igualdade moral é o postulado de que todas as pessoas têm o mesmo valor intrínseco. Não são iguais nos talentos, contributos para a vida social e exigências válidas de recompensas e recursos. Mas, qualquer pessoa tem direito ao reconhecimento do facto de que é uma pessoa» (op.cit.p.268).

Ora, este reconhecimento, obriga-nos a saber ouvir e a saber respeitar os outros, aqueles que pertencem a outras correntes partidárias ou de opinião, que não as nossas. Nem os vencedores se devem comportar com arrogância, desprezando o bom senso e o equilíbrio, aproveitando-se do poder que possuem para humilhar ou vingar; nem os vencidos se devem comportar com atitudes do “bota-abaixo”, pela oposição por oposição de uma forma acéfala, mas sim contribuírem, em conjunto, para o tal projecto comum, que pertence a todos nós, na medida que em que se comprometeram por Juramento e por Honra, Servir com Lealdade a comunidade em geral! Todos!

Diz-nos Michael Ignatieff “ O maior obstáculo à reconciliação é a vingança”, citado por Jonathan Sacks, neste seu livro (p.245).

Nunca se deveria perder de vista a lição, de que não basta haver eleições para haver democracia e liberdade. Sucede com alguma frequência, em regimes desta natureza, e no Poder Local com certa frequência, a existência de ditaduras das maiorias!!! Estas, empurram as vozes e propostas das minorias para o saco do esquecimento, mesmo quando mais válidas que as da maioria!

Se os eleitos nunca se esquecerem que o “projecto comum” é a comunidade, servindo-a sem se servirem do poder que usufruem, haverá a tal conciliação pela mediação. Os interesses do concelho estarão acima dos interesses partidários e salvaguardados das quezílias mesquinhas dos indivíduos de fraca formação cívica e humanista. Na Política, haverá gente séria e responsável, capazes de se respeitarem retribuindo-nos a esperança

A esperança não nasce num vazio de conceitos, nem está aberta a todas as configurações culturais. A esperança nasce da crença de que a fonte de acção está em nós próprios”( Jonathan Sacks, op.cit. 2006:269).

Se cada um interiorizar estes ensinamentos, se cada um souber que o seu poder está na força da sua própria consciência e não na obediência cega e sectária a possíveis directivas emanadas por aqueles que detêm posições de chefia, mas que não se regulam pelos princípios básicos do tal “entendimento”, então, estarão a construir um edifício onde a dignidade se apresenta com rosto humano e não mascarada e falsa.

Assim, se constrói nas instituições uma democracia plural !

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