Entrevista a FILIPE LOPES, comandante interino dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal

A tragédia que o país viveu com os incêndios dos dias 15 e 16 de Outubro exigiu também dos nossos bombeiros um esforço extraordinário, que redobrou o reconhecimento da importância de uma missão – a sua – que tem por lema “Vida Por Vida” e faz deles verdadeiros “soldados da paz”. Como tal, é de todo merecido que, acerca daquela tragédia, se dê voz a quem os comanda, cabendo hoje a vez a Filipe Miguel Correia Lopes, 36 anos de idade, comandante interino da corporação de Carregal do Sal, em substituição do comandante Miguel Ângelo David, requisitado temporariamente pelo governo para comandante do Comando Distrital de Operações de Socorro (CODIS) de Viseu desde Janeiro deste ano.

CURRÍCULO DE BOMBEIRO:

– Carreira de Bombeiro até Bombeiro 1ª

– Bombeiro profissional no Aeroporto de Lisboa 2014/2016

– Adjunto Comando de 2007 a 2017

– Segundo Comandante desde 2017

– Formador na área de Incêndios Urbanos e Industriais; Formador na área de Tripulantes Ambulância; Formador SBV/DAE; Curso de Quadros de Comando; Curso de Salvamento e Desencarceramento; Curso de Tripulante Ambulância de Socorro; Curso Desfibrilhação Automática Externa; Curso Postos de Comando; Curso Incêndios Florestais Nível 5; Curso Incêndios Florestais Nível 4; Curso de Segurança no Combate Incêndios Florestais; Curso Incêndios Urbanos Industriais; Curso Internacional de Bombeiro Aeroporto; Curso Postos de Comando Nível 1; Seminários temáticos na área de Proteção e Socorro.

– Louvor do Exército Português; Louvor da Assembleia Municipal de Nelas; Louvor por desempenho ao serviço dos Bombeiros Voluntários de Carregal do Sal; Medalha Grau Cobre (5 anos de bom e efetivo serviço); Medalha Grau Prata (10 anos de bom e efetivo serviço); Medalha Grau Ouro (15 anos de bom e efetivo serviço).

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ENTREVISTA

FNT (Farol da Nossa Terra) – De que meios operacionais e de quantos elementos dispõe a sua corporação?

FILIPE LOPES – O Corpo de Bombeiros de Carregal do Sal dispõe, neste momento, de 12 veículos de combate/apoio a incêndios e 8 ambulâncias de socorro/transporte de doentes. Quanto aos meios humanos, é composto por 76 operacionais e uma escola de estagiários com 17 elementos.

FNT – Esses meios são suficientes para resposta às necessidades da população da sua área territorial, tendo em conta o agravamento que se tem vindo a registar de ano para ano na época de incêndios?

FILIPE LOPES – Numa situação idêntica à vivida no dia 15 de Outubro, os meios nunca são suficientes. No nosso dia-a-dia, os meios existentes vão dando resposta às solicitações. Contudo, um corpo de bombeiros, no que respeita aos meios operacionais, necessita de estar sempre actualizado, não só em quantidade como também em qualidade. Neste momento, a nossa Corporação tem necessidade de um veículo de combate a incêndios urbanos.

FNT – Como analisa os incêndios ocorridos nos dias 15 e 16 do passado mês de Outubro?

FILIPE LOPES – Um incêndio com uma dimensão nunca vista. Algo dantesco, velocidades de propagação incríveis, projeções a longas distâncias. Resumindo, um incêndio que, em termos de combate, era humanamente impossível de combater.

FNT – O que se sentiu e o que tem a relatar dos incêndios que atingiram o seu concelho?

FILIPE LOPES – O incêndio atingiu a nossa área de actuação em cinco locais geograficamente distantes uns dos outros. Foram requisitados todos os meios humanos e operacionais deste Corpo de Bombeiros que estavam em combate fora do concelho. Com antecedência, os meios foram distribuídos pelas áreas consideradas de risco, mas como já referi o combate era muito difícil. Por momentos senti-me impotente. Os pedidos de ajuda eram constantes, os habitantes das localidades afectadas no nosso concelho e limítrofes refugiavam-se no nosso quartel. Acolhemos mais de 500 pessoas. Aqui, realizou-se um trabalho fantástico com a colaboração dos órgãos sociais da Associação, do Município, de populares e demais entidades, que permitiu que todos fossem recebidos e acolhidos. No terreno, a situação relatada era complicada. Os bombeiros não tinham condições de segurança que permitisse o trabalho eficaz. O vento, a falta de visibilidade e, a falta de reforços não permitiam que tivéssemos sucesso. Em conjunto com toda a população foi possível evitar uma tragédia ainda maior. Como tal, gostaria de agradecer publicamente a todos os populares que uniram esforços e colaboraram com os nossos bombeiros neste trabalho infernal.

FNT – Na sua opinião, como se vive uma situação dessas depois do que aconteceu quatro meses antes na região de Pedrógão Grande e todos os anos se “bater na mesma tecla” relativamente ao combate dos incêndios florestais?

FILIPE LOPES – O problema dos incêndios florestais não é de agora. Do meu ponto de vista, a solução passa por reorganizar a floresta portuguesa. O cadastro tem de ser realizado. Até agora, e depois de tantos anos a falar no mesmo, não se vê luz ao fundo do túnel. É preciso vontade e coragem de todos. A responsabilidade não é só dos governantes nacionais ou locais. Depois, há a questão da limpeza no interface urbano/florestal. É necessário pensar com urgência se é a floresta que vem ter com a casa, ou se a casa foi ter com a floresta. Quem comanda um incêndio florestal num perímetro urbano tem de estar sempre preocupado com esta questão. Aqui, a responsabilidade também é do cidadão.

FNT – Chegou a sentir impotência face à gravidade do que se lhe deparou no terreno?

FILIPE LOPES – Claro que sim! Todos nós, sem excepção, responsáveis operacionais e bombeiros, nos sentimos impotentes nessa situação.  Gostaria de deixar aqui uma questão para reflexão: O que fariam se, durante o combate, os bombeiros que estão sobre o nosso comando vos abraçassem a chorar compulsivamente e a dizer que não conseguiram fazer mais? Foi este o sentimento vivido!

FNT – Presenciou alguma situação que possa considerar um milagre?

FILIPE LOPES – Por vezes é difícil explicar algumas situações. Se é milagre ou não, isso não sei, mas que ocorreram situações adversas que acabaram por correr bem, isso houve.

FNT – Depois do que aconteceu e perante as consequências destes incêndios, que reflexão deveria ser feita por quem de direito?

FILIPE LOPES – Acho que se deve aproveitar esta oportunidade para, de uma vez por todas, mudar o que tiver de ser mudado.

FNT – Quando tantas queixas houve pelo país de não ter aparecido um bombeiro em povoações em risco, o que se lhe oferece dizer?

FILIPE LOPES – Compreendo, mas não entendo. A protecção civil somos todos nós. Os nossos meios e recursos são finitos. Se o incêndio entra em vários locais ao mesmo tempo, com uma intensidade brutal, a ameaçar inicialmente cinco localidades, isto obriga a uma grande dispersão de meios humanos e materiais. Os bombeiros são humanos. Têm famílias, têm bens, têm amigos. Os bombeiros também perderam alguma coisa neste incêndio. Esses bombeiros que tiveram perdas, de quem se vão queixar? Volto novamente a frisar, a responsabilidade é de todos.

FNT – Como comandante, que resposta tem a dar em relação às críticas que por vezes são dirigidas aos bombeiros?

FILIPE LOPES – Como responsável operacional pelo Corpo de Bombeiros de Carregal do Sal só me ocorre dizer uma pequena coisa: nós, bombeiros, fazemos das críticas oportunidades de melhoria, devemos aprender com todos.

FNT – Tratando-se de bombeiros voluntários, como se sentem quando lhes são atribuídos deveres e responsabilidade sem a compensação financeira que têm os profissionais?

FILIPE LOPES – As responsabilidades dos Corpos de Bombeiros são definidas por lei, independentemente de serem profissionais ou voluntários.

FNT – Acha bem que aos bombeiros voluntários de uma corporação se junte bombeiros profissionais, como o governo já anunciou para todos os concelhos?

FILIPE LOPES – Face à evolução da sociedade portuguesa, é impensável um corpo de bombeiros do século XXI não ter uma força mínima profissional. Esta força deve ser adaptada à realidade de cada corpo de bombeiros. No entanto, o nosso país não teria capacidade financeira para ter exclusivamente corpos de bombeiros profissionais ou pelo menos distribuídos da mesma forma que temos os voluntários. Os bombeiros voluntários são a grande força dos corpos de bombeiros. É necessário criar com urgência incentivos ao voluntariado.

FNT – Sem incentivos ao voluntariado, ficarão os voluntários menos estimulados para a missão de bombeiro do que os profissionais que com eles estiverem lado a lado, na mesma corporação?

FILIPE LOPES – É importante clarificar que os bombeiros profissionais têm o mesmo estatuto que os voluntários, o que os distingue é apenas a profissão. No que respeita a regalias e incentivos, são os mesmos para ambos, nomeadamente isenção taxas moderadoras, reembolso de propinas, etc. Realmente, estes incentivos são escassos para que se possa atrair mais voluntários. No entanto, quem se inscreve nos bombeiros não o faz para poder beneficiar desta ou aquela regalia, fá-lo por espírito de missão.

FNT – Acredita ser fácil ao comandante gerir a coabitação de voluntários e profissionais no exercício da mesma missão?

FILIPE LOPES – Claro que sim. Os corpos de bombeiros são estruturas essencialmente assentes no voluntariado, mas que na verdade actuam como profissionais. Encontram-se organizados como uma empresa, requerendo um acompanhamento diário permanente. Todos trabalham em prol do mesmo objectivo. Cada bombeiro sabe exatamente qual é a sua função, respeitando o seu próximo. Só assim se consegue trabalhar em equipa.

FNT – Por último, se é que pode responder, enquanto comandante, o que é que correu mal, e o que mudaria no ordenamento do concelho, para evitar que esta tragédia se repita?

FILIPE LOPES – De certo que haverá sempre algo a melhorar. Não querendo repetir o que já referi, é urgente repensar a nossa floresta. Enquanto responsável operacional deste Corpo de Bombeiros, gostaria de ter nas nossas fileiras mais homens e mulheres para ajudar a desenvolver o nosso grandioso trabalho.

FNT – O que gostaria de referir mais nesta entrevista?

FILIPE LOPES – Gostaria de agradecer publicamente todas as manifestações de apreço destinadas aos nossos bombeiros. Agradecer toda a ajuda dada durante aquele flagelo. Por último, mas não menos importante, queria demonstrar publicamente o orgulho que sinto por poder comandar estes bravos Bombeiros. São mulheres e homens de uma grande capacidade de superação, união, sacrifício e disponibilidade. São únicos e a razão da nossa existência. Obrigado a todos!

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Para Defesa da Beira e Farol da Nossa Terra

 

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