IMPENSÁVEL, CLARO ESTÁ!!!

HÉLIO BERNARDO LOPES *

HÉLIO BERNARDO LOPES.jpg

.

Num dia destes, estive prestes a escrever um texto a que daria o título, O DESCRÉDITO DAS INSTITUIÇÕES, centrado em torno de certo tema, mas de pronto seguido pelas evidentes generalizações possíveis e que todos, no seu íntimo, conhecem bem e à saciedade. Razões diversas de oportunidade levaram a que me determinasse a não escrever o referido texto. A verdade, porém, é que o título traduzia bem o estádio do pensamento das pessoas, por cá e pelo resto do mundo. Vejamos três casos que estão a materializar a ideia que pretendia materializar nesse meu texto.

Em primeiro lugar, o caso dos recentes grandes incêndios, que tiveram lugar em Portugal. Desde logo se percebeu o extraordinário filão político que os mesmos forneciam – na Califórnia ainda não se adotou o nosso critério –, para mais com as dificuldades da oposição da Direita – PPD/PSD e CDS/PP – no âmbito das posições políticas que haviam assumido desde a tomada de posse do atual Governo de António Costa, para mais com os seus êxitos, internos e externos, e que culminou na eleição, ao nível do EUROGRUPO, de Mário Centeno – o CR 7 da instituição – para seu líder.

Um dos dados que sobressaíram do rescaldo dos incêndios foi o da quase nula abordagem, em termos de responsabilidade, das autarquias e dos proprietários dos terrenos não limpos. E muito menos a ausência de multas sobre esses proprietários, ou mesmo a ausência de adequados e legais planos de ordenamento ou de proteção. Tudo passou a estar centrado no Governo e na Autoridade Nacional de Proteção Civil, (ANPC).

Como teria de dar-se, o Ministério Público determinou-se a tratar o caso. Segundo o noticiado ontem, existirão já dois arguidos no inquérito sobre os incêndios de junho em Pedrógão Grande. E que estes noticiados arguidos estarão indiciados por homicídio por negligência e ofensas corporais por negligência. Parece que foi uma fonte da Procuradoria-Geral da República a fornecer esta informação.

Os arguidos em causa, nos termos do noticiado, serão o comandante dos bombeiros de Pedrógão Grande, Augusto Arnaut, e o segundo comandante distrital de Leiria, Mário Cerol. Vamos, pois, esperar pelos resultados finais desta investigação, de molde a podermos posicionar-nos em face do que se passou no passado verão, porque, neste momento, o pau anda aí, para cá e para lá, com as costas ainda folgadas.

A notícia, porém, deixou-me algo perplexo, porque os dois referidos arguidos são bombeiros e, nos termos da ideia que vem sendo veiculada pela grande comunicação, isso nunca poderá ter lugar, dado que os eventuais culpados terão de ser governantes – do PS, claro está – ou da ANPC. Nunca bombeiros. Mas vamos esperar.

Em segundo lugar, o caso da RARÍSSIMAS. Um caso onde se tem tratado, muito acima de tudo, da dita culpa política – do PS, obviamente –, porque em casos isomorfos nunca se assistiu ao presente alarido. Basta recordar o cabalíssimo silêncio ao redor dos casos de políticos do PSD, que só são referidos de modo meramente noticioso e de passagem – tangente.

Acontece que o centro deste caso reside em dois aspetos, um mais importante que o outro. Por um lado – o menos importante e que é o centro da atenção comunicacional –, quem fez o quê de mal neste caso. Por outro lado – o mais importante neste caso, que quase não é tratado –, o que potencia este tipo de abusos e desde quando se assistiu à explosão do número das IPSS em Portugal.

Ora, qualquer concidadão que leia este meu texto conhece bem que o modo português de estar na vida se pode definir como há muito eu mesmo o fiz: não viu, não ouviu, não sabe, não pensa, obedece. José Eduardo Sanches Osório, um dos militares da Pontinha, em entrevista ao i, há uns quatro anos, foi imperativo: os portugueses são cobardes! Uma afirmação absolutamente correta, mas que deixou o entrevistador perplexo, talvez por não estar habituado a ouvir conversas politicamente incorretas, mesmo que plenas de verdade.

Como teria de dar-se, de pronto surgiu a treta da árvore e da floresta, tentando esconder-se uma realidade tão evidente quão simples: se o Estado delega em particulares funções suas e lhes fornece dinheiro em abundância e sem meios para fiscalizar a observância das regras e das leis, bom, está garantida a potencial prática de ilegalidades ou de crimes. Dupont e Dupond não deduziriam outra coisa.

Como se tem podido ver à saciedade, este tema nunca é tratado, surgindo logo o já histórico seguro de vida: não se pode confundir a árvore com a floresta… Mas o tema justifica que aqui recorde um artigo meu, já com anos – Sócrates estava ainda a governar –, intitulado, A MINA. Um artigo sugerido por via de uma conversa minha com o antigo provedor da Misericórdia de Almeida, o meu falecido amigo, Tó Sousa. Um Tó Sousa claramente enfurecido, nessa manhã já distante, perante a possibilidade do controlo das Misericórdias passar para a Igreja Católica.

A meio da conversa disse para o Tó Sousa: repare, vem aí uma onda de pobreza e de miséria, provavelmente ao longo da maior parte deste século, pelo que a posse das Misericórdias pela Igreja Católica permite que esta se apresente como a grande ajudadora dos necessitados e dos pobres. E completei, gerando mais um acréscimo de fúria no Tó Sousa: já vê, isto é uma mina e a Igreja não é parva

Tenho para mim que este caso só teve a repercussão que se tem vindo a ver porque no mesmo surgem políticos do PS. Chegou-se ao ponto de ouvir um concidadão nosso referir que escreveu uma carta ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, mas a verdade é que dessa carta ninguém fala nem se conhece o respetivo conteúdo. O próprio Presidente da República também não ajudou aqui a esclarecer o que realmente recebeu e que medidas tomou.

Sejamos claros: o Estado passou para as mãos dos privados funções que eram suas; atribuiu-lhes a gestão de montanhas de dinheiro; extinguiu a obrigatoriedade de serem precisos Revisores Oficiais de Contas, (ROC); e quase não tem fiscalização para essas instituições e respetivas ações. Perante estas realidades de todos conhecidas, cabe-me perguntar ao leitor: os governantes que temos tido, mormente desde que a anterior Maioria-Governo-Presidente extinguiu a obrigatoriedade das IPSS deverem ter ROC, dando-se de seguida uma subida das IPSS em centenas de pontos percentuais, não sabiam que a realidade vinda a lume neste caso teria de ser um acontecimento quase-certo?! Claro que sabiam! De outro modo, faltar-lhes-ia um ínfimo de poder de conjetura. Não poderiam ser governantes nem ter empregos capazes e minimamente exigentes. Conclusão certa: tudo vai continuar na mesma, sendo certo que casos deste tipo se situam a anos-luz de serem raros.

Por fim, e em terceiro lugar, o caso da IURD. Também aqui não existe nada de novo, devendo esta sequência de episódios perder o seu interesse de um modo veloz.

É um tema que não é novo porque o mesmo terá sempre de ter lugar, mormente em organizações de tipo religioso, dado que os seus crentes confundem, sempre e naturalmente, o segredo de tudo o que possa manchar o nome da instituição com um ataque ao nome de Deus. Basta recordar a conversa, recentemente noticiada, de certo padre – o tal, apanhado por certa freira, mas que logo apontou o dedo à pequenita – com a pequenita que violava, a quem disse que dela se esperava que fosse um bom soldado de Deus.

Mas é um tema sem interesse, porque o mesmo se esgotou no seu primeiro episódio, sendo os restantes meros isomorfismos deste. De resto, tal como o atentado de Camarate, este trabalho só nos chegou já com o caso prescrito. Além do mais, faltam aqui personalidades da nossa grande sociedade, o que daria logo ao caso um outro sabor.

Por fim, um desafio à TVI e aos restantes canais televisivos: ofereçam-nos trabalhos deste tipo, mas sobre ações da Igreja Católica Romana, em Portugal e no mundo, e ao nível do que é moralmente inaceitável. Por exemplo: sobre as crianças retiradas às mães solteiras em Madrid, não há ainda muitos anos. Neste caso e em termos de documentários, estamos num verdadeiro RARÍSSIMOS. Deitando mão de uma expressão de Pedro de Varennes e Mendonça, inserta num outro domínio, há razões para que assim suceda

.

 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

1 Comment

  1. Aos Leitores

    Com imensa graça, Camilo Lourenço escreveu há dias, no JORNAL DE NEGÓCIOS, o seu texto, O DIA EM QUE MARCELO GAGUEJOU, tendo ali salientado que “Marcelo Rebelo de Sousa apanhou um grande susto a propósito do tema Raríssimas. Questionado sobre o assunto, o Presidente apareceu titubeante, gaguejante. Percebeu-se rapidamente que, pela primeira vez, Marcelo não estava à vontade.”
    Não lendo, de um modo imensamente geral, os textos de Camilo Lourenço, a verdade é que este me deixou perdido de riso, uma vez que traduz muitíssimo bem o que, em certo dia, se pôde ver com o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa.
    Neste sentido – só para o presente texto -, deixo ao leitor o meu conselho amigo no sentido de o ler, embora o que está em jogo se esgote no parágrafo que cito antes. Um bom Natal para o leitor.

    Hélio Bernardo Lopes

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*