O FOGO, OS BOMBEIROS E A POPULAÇÃO

LUZ CANÁRIO

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Quando deflagrou um incêndio perto de uma localidade chamada Falgaroso, na freguesia de Espinho, concelho de Mortágua, no dia 7 de Outubro, eu estava ausente. Mas pelas redes sociais apercebi-me que, mais uma vez,  tinha havido problemas, muita revolta e até agressões.

 Sou uma pessoa profundamente traumatizada pelo fogo de 2005. Nem nos piores pesadelos que a Igreja católica nos infligia com o Inferno, para nos atemorizar, eu vi imagens tão terroríficas como as vividas nesse fogo. Mas aprendi que, sempre que surgia um fogo nas nossas terras, matas e habitações, chamávamos os Bombeiros e imediatamente eles nos socorriam com todos os meios ao seu alcance.

Eles constituíam a Instituição mais credível, mais fiável que existia no nosso país, suplementando qualquer outra. Mais fiável do que a Justiça, a Segurança, a Banca… Ninguém duvidava que os Bombeiros estariam presentes, prontos a arriscar a vida para socorrer as populações nas suas aflições perante os perigos que lhes surgissem.

Só há muito pouco tempo tive um conhecimento sério e rigoroso do que se tinha passado durante esse incêndio por quem o viveu na pele, tentando enfrentá-lo e socorrer o próximo.

Ouvi dizer que o Senhor Presidente da Republica vai passar o período do Natal e passagem do Ano nas zonas afetadas pelos incêndios.

Será muito oportuno fazer-lhe duas perguntas:

 – Se surgir um incêndio no Palácio de Belém, espera que sejam os Bombeiros de Lisboa a apagá-lo ou que sejam os Bombeiros do Minho? Quem é que conhece melhor a zona e sabe por onde atacar?

– Quando os Bombeiros chegarem ao Palácio, espera que eles acionem imediatamente os meios para apagar esse fogo, ou espera que eles fiquem a olhar para ele?

O Senhor Presidente é uma pessoa muito próxima das pessoas e dos seus problemas. De certeza que dará a resposta mais sensata.

Não tem sentido que a população esteja em grande aflição no combate a um incêndio, que devora vertiginosamente tudo à sua volta, cheguem bombeiros munidos de meios de combate, e se ponham a olhar para ele sem fazer nada…porque não têm ordens. O que é isto? Sadismo? Gozar com a aflição das pessoas? Levá-las ao desespero e descontrole das suas emoções? Se não era para acudir imediatamente, então porque vieram?

 Os nossos Bombeiros, aqueles que sempre nos inspiraram o maior respeito, admiração, veneração e confiança, não são assim. Obedecem a ordens de pessoas que nunca sujam as botas na lama, mas são os Bombeiros que têm de “dar o corpo ao manifesto“. E a população nunca se revoltou contra os Bombeiros, pelo contrário, colaborou em tudo e com tudo quanto podia, e ajudou com toda a espécie de alimentos para que se sentissem sempre confortáveis. A população esteve sempre unida e grata e manifestava-o quando havia peditórios ou tornando-se sócia da Instituição.

Há quem queira destruir o interior do País, incluindo a sua população; há quem queira culpar os Bombeiros de atitudes que não têm nada a ver com eles. Mas temos de nos apaziguar e acreditar que tantos erros, cometidos por quem tem o dever de orientar, ajudar e proteger, sejam corrigidos no futuro e que a confiança e o respeito por essa grande Instituição voltem a reinar nas nossas terras. Todas as partes têm de reconhecer no que falharam e têm de compreender o desespero de quem está a perder tudo.

Absolutamente ninguém está isento de culpas. A população também se “tem posto a jeito” com muitas das atitudes que toma em relação à plantação desenfreada de árvores onde não deve.

Por fim, soube que o povo serrano foi HERÓICO nesse incêndio do dia 7 de Outubro. O fogo é um inimigo comum. Quando surge temos de ser um por todos, e todos por um, até à exaustão, à heroicidade.

Um ano de 2018 cheio de Paz entre os Homens e entre os Homens e a Natureza.

3 Comments

  1. Caríssima Luz Canário

    De um modo completamente inesperado, acabo de encontrar um mui correto desabafo seu sobre os incêndios que, mais uma vez, atingiram portugueses e o território nacional. A culpa, porém, foi de todos, desde os de hoje ao mais antigos. E já muito de trás.
    Quanto ao não cumprimento do dever de auxílio, ficando à espera de ordens superiores, pois, a culpa é de quem o não presta. Nenhuma ordem superior pode inviabilizar o dever de auxílio, mormente se desenvolvido em flagrante, presencialmente.
    Manifesto o meu regozijo por voltar a lê-la e também lhe envio os meus parabéns pelo seu texto. Um abraço de amizade e consideração e votos de um Natal com saúde e em alegria.

    Hélio Bernardo Lopes

  2. Como está, Professor Hélio Bernardo Lopes?
    Muito obrigada pelas suas calorosas palavras. Há muito tempo que queria escrever sobre este assunto, mas andava tão cheia de mágoa, sentia tanta raiva contra tudo e contra todos, que achei mais prudente serenar. Muitos outros foram escrevendo e comentando. E o que importa mesmo é que se continue a escrever e a comentar, porque o assunto é demasiado grave para se esquecr no Inverno, como sempre. Há tantos anos que se fala no descontrole que existe em relação à floresta, que se fala na mudança de clima, no aquecimento global, mas nada se tem feito, absolutamente nada. Pelo contrário, os criminosos cada vez têm mais poder, a industria do fogo é cada vez mais feroz, porque as vidas humanas, o respeito pela Natureza não dizem absolutamente nada a estes terroristas. Mas todos somos culpados, porque deixamos, porque plantamos árvores onde não devemos, porque não denunciamos com a mesma ferocidade com que somos atacados, porque continuamos a acreditar em políticos que na vez de nos protegerem querem simplesmente governarem-se à nossa custa, etç. etç. Custa falar disto…

  3. Professor Hélio, eu vivo entre a grande floresta de Mortágua e a do pinhal de Oleiros, Proença, Pedrogão… Em Mortágua há muito a fazer, sobretudo fazer cumprir as leis básicas de plantação de eucalíptos e pinheiros(já há poucos). É muito dificil porque os poderosos, os autarcas são os primeiros a não cumprirem essas leis. Mas na zona centro do Pinhal aquilo é medonho. Não existem pinhais, existem matas cerradas de árvores e mato que nem deixam os pinheiros crescerem. É impensável controlar ali um incêndio. A população envelheceu imenso, as pessoas jovens sairam daquela zona, não há ninguém a tomar conta daquelas matas há mais de 60 anos. Só medidas muito rigorosas é que podem salvar o nosso lindo país. Mas não temos políticos com coragem para tomar medidas tão drásticas. Isto envolve muitos interesses. Essas medidas não trarão votos. Houve coragem para expulsar tantos jovens, tantos portugueses, para fechar tantas fábricas e levar os portugueses à miséria e à morte, mas não haverá coragem para por os portugueses na ordem no que diz respeito à ordenação da floresta.Eu não acredito em milagres desta natureza. Eu penso que ainda vai morrer muita gente.Quando houve o inêndio na minha serra, em 2005, pensei que as coisas mudassem porque as pessoas perderam tudo. Qual o quê?! No ano seguinte toca a plantar eucalíptos em tudo quanto era sítio. Só não plantam em cima do alcatrão, porque não nascem!Um abraço e BOM ANO

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