EDUCAÇÃO, REGRAS, LIMITES E CASTIGOS

chqu.JPG.

Após a época Natalícia e depois de dias mágicos e ansiosos à espera das prendinhas que o Pai Natal trouxe é preciso recordar à família que a sua função vai muito além de presentear as suas crianças, nomeadamente com presentes desajustados às suas possibilidades económicas. Mais importante do que isso é o dever que a família tem de assegurar as necessidades básicas de alimentação, higiene, saúde, conforto, segurança e educação. É assim que se proporcionam competências emocionais para que a criança possa dar um dia um contributo positivo à sociedade onde está inserida e ser um adulto feliz.

Educar uma criança sempre foi a tarefa mais nobre confiada ao ser humano. Mas hoje, mais do que nunca, é o maior dos desafios que temos que enfrentar. Assim, deve procurar-se ensinar aos pais a importância de observar as crianças e de as respeitar. Não se pretende, com este artigo, tecer juízos de valor, mas mostrar que muito mais do que regras rígidas, é necessário que os pais saibam confiar no seu bom senso.

Todas as crianças passam por etapas, por níveis de desenvolvimento semelhantes e que são facilmente observados naquelas que se encontram na mesma faixa etária. Contudo, é importante ressaltar que nem todas elas seguem o mesmo padrão de desenvolvimento, ou seja, cada uma delas desenvolve-se respeitando as suas potencialidades. O comportamento e a personalidade da criança são produtos da interação contínua da hereditariedade e do meio ambiente.

As crianças nascem prontas para descobrir o mundo e esse período de descoberta é mais intenso nos primeiros anos de vida. Gesell et al. (2000) referem que os primeiros cinco anos do ciclo de desenvolvimento da criança são os mais importantes e os mais formativos, única e simplesmente por serem os primeiros, sendo incontestável a sua influência sobre os anos seguintes. A família, os amigos, a escola, e toda a sociedade na qual a criança está inserida são fortes influenciadores durante a formação de personalidade e durante todo o seu desenvolvimento (Bee, 1996).

Não há dúvidas sobre a necessidade de se definirem limites no processo de educação de uma criança. A aprendizagem dos limites começa muito precocemente, sendo que o papel dos pais é imprescindível para que isso aconteça. É preciso conter-se os comportamentos das crianças considerados menos corretos. Quando a criança já percebe melhor os significados, é importante que aprenda que tudo o que faz tem consequências, ou seja, que toda a ação boa terá consequências boas e que toda a ação negativa serve para aprendizagem. É importante que a criança saiba por que razão é que está a ser corrigida que a correção seja proporcional àquilo que fez.

Para se conseguir estabelecer o que é ou não permitido, os adultos devem clarificar  os seus próprios princípios morais. Muitas vezes acabam por confundir o que consideram que é permitido ou não. Isto gera muita insegurança, pois as crianças necessitam de coerência nas atitudes disciplinadoras e não de regras que mudem a qualquer momento.

Quando as regras são impostas e cumpridas, tranquiliza-se a criança, fazendo com que ela se sinta segura. Brazelton e Greenspan (2002) afirmam que a disciplina significa educação e não punição. Por isso, bater, castigar fisicamente uma criança além de não lhe ensinar nada, pode prejudicar a sua autoestima, tendo reflexos negativos no seu desenvolvimento. Por outro lado, se os adultos têm uma atitude empática e carinhosa, a criança aprende a comportar-se desse modo. A criança é obediente porque deseja agradar ao adulto, mantendo fortes os laços da relação. O objetivo da disciplina é estruturar dentro da criança um espaço para a autodisciplina, para que ela possa, por ela mesma, regular as suas ações.

As “faltas” de uma criança nem sempre são consequência de uma atitude rebelde e desafiadora. Muitas vezes, são o resultado da sua natural ignorância e inexperiência. Ela gosta de experimentar os limites do adulto, desobedecendo, mas também gosta de atrair a sua amizade, pela obediência. Compete aos pais saber despertar a sua natural vontade de se portar bem. Neste processo a punição e a humilhação diante de outras pessoas pode marcar profundamente a criança e levá-la a perder a relação de confiança com o seu educador (Pourtois e Desmet, 1993).

Um castigo aplicado a uma criança nunca deve ser um tubo de escape para o nervosismo ou frustração do adulto, nem uma forma de combater os comportamentos menos corretos.

Quando se questiona como reagir perante uma criança naturalmente teimosa e obstinada, costuma-se responder: “Se o que a criança está a tentar fazer é próprio da sua idade e inexperiência e não a coloca a ela ou a outros em perigo, o melhor é tentar ignorar o que está a acontecer e manter uma atitude vigilante; mas se o que se passa é uma obstinação grave, já repreendida anteriormente e de consequências nocivas para a criança ou para os outros, a firmeza dos pais deve ser total e, seja qual for a reação da criança, são eles que têm de vencer a batalha!..”

Martínez (1993) refere o castigo como uma pena que se impõe à criança como consequência das ações ou inibições que os educadores consideram incorretas. O adulto ao castigar pressupõe que corrige comportamentos, mas nem sempre este pressuposto é verdadeiro. O castigo, em si, é uma sensação de desprazer que revela à criança o descontentamento do seu educador, nem sempre percebido como medida correctiva, mas coerciva para que em situação semelhante o seu comportamento não se repita. Este facto de a criança não perceber o porquê do castigo é o maior erro do castigo em si.

O castigo verbalizado sob a forma de ralhar não é mais que um desabafo mal organizado e dirigido à criança, em tom de voz áspero e elevado. Trata-se mais de uma forma de o adulto descarregar sobre a criança a frustração ou contrariedade que ela provocou. Esta é uma forma bastante usual que os pais usam para falar com a criança e aqui a palavra não é um meio para chegar à criança, mas sim, um meio de aliviar tensões. É um desabafo impulsivo com todos os inconvenientes de uma reação impulsiva, na maioria das vezes desajustada no sentido de se dizer o que não se pensa e frequentemente o que não se deseja é um escape momentâneo, que pode não trazer à criança algo mais que o medo momentâneo pelo descontrolo do educador.

O castigo físico, numa sociedade em que se tem lutado a favor dos direitos da criança, parece, à priori, um comportamento aberrante, desacreditado pelos principais estudiosos e repugnado pela sociedade em geral. No entanto, não podemos deixar de lhe atribuir a devida importância não só pelo facto de existir, mas também porque o seu abuso resulta num mau trato e numa vinculação negativa criança/educador, que mais tarde trará graves consequências na construção da sua personalidade e relação com o outro. Um castigo físico revela, à partida, duas coisas: por um lado, perda de controlo por parte do educador, um contrassenso, como é que a criança pode aprender com um exemplo contrário ao que se lhe exige? O que se pretende é que a criança se controle; por outro lado, transmite à criança medo, pois, a suas diferenças físicas estão bem presentes e este castigo não atua como medida educadora, uma vez que, na maior parte das vezes, a criança percebe que não deve repetir tal ato, não entende o porquê, uma falha grave na educação. Embora Martínez (1993), não se revele adepto deste tipo de castigo não deixa de lhe atribuir algumas vantagens: a sua imediata aplicação após a transgressão revela o castigo mais eficaz e o facto de a criança não ficar a imaginar o que será que lhe vai acontecer quando perceciona que fez algo que o adulto não gostou, cria um estado de ansiedade e uma expectativa ilusória quase sádica do castigo a que vai ser sujeita.

Pais e educadores que se vejam na necessidade de castigar deveriam primeiro reflectir se essa necessidade lhes vem da raiva, da vingança ou da fraqueza. A maior parte das vezes actuam sob o sentimento da raiva ou da vingança pela impotência que sentem face à criança ou adolescente que desautorizou ou infringiu alguma regra. Os castigos têm um valor muito limitado porque a crianças não reagem por compreensão mas por medo (Sampaio, 2006).

Mas, afinal, o que torna uma criança obediente? Provavelmente, é ela sentir-se amada, respeitada e sentir que os adultos têm firmezas nos seus valores, nas suas resoluções. Sempre que um adulto quiser que a criança faça ou deixe de fazer algo, deve explicar-lhe o porquê (Silva, s.d).

O amor e a firmeza são as duas palavras-chave da educação (Brazelton e Greenspan, 2002). Postas ao mesmo nível na balança são a melhor garantia do sucesso da tarefa educativa (Silva, s.d). A criança tem de compreender aquilo que lhe ensinam e lhe ordenam. E se ainda é pequena de mais para compreender os limites que se lhe impõem, é fundamental que sinta que quem a contraria também a ama e a protege.

BIBLIOGRAFIA

BEE, H. (1996). A criança em desenvolvimento. 7 ed. Porto Alegre: Artes Médicas.

BRAZELTON, T. B. (1992). Dar atenção à criança – Para compreender os problemas normais do crescimento. Lisboa: Terramar.

BRAZELTON, T.B. (1995). O grande livro da criança. O desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos. Lisboa: Ed. Presença.

BRAZELTON, T. B. (1998). O grande livro da criança — O desenvolvimento emocional e do comportamento durante os primeiros anos. Lisboa: Editorial Presença.

BRAZELTON, T.B. e GREENSPAN, S.I. (2002). A criança e o seu mundo. Requisitos essenciais para o crescimento e aprendizagem. Lisboa: Ed. Presença.

GESELL, A. (1996). A criança dos 0 aos 5 anos. 4 ed. São Paulo: Martins Fontes.

POURTOIS, J.P. e DESMET, H. – “A educação familiar”. In Revista portuguesa de pedagogia, 1999, pp. 12-23.

SAMPAIO, D. (2003). Vozes e Ruídos – Diálogos com Adolescentes. Lisboa: Editorial Caminho.

SAMPAIO, D. (2006). Lavrar o Mar – Um olhar sobre o relacionamento entre pais e filhos. Lisboa: Editorial Caminho.

SILVA, Y.R. da (s/d). Como educar os nossos filhos. Lisboa: Edição Livros do Brasil.

WINNICOTT, D. W. (1995). Conversas com os Pais. Lisboa: Terramar.

.

Enfermeira Helena Carvalho Cruz

Seja o primeiro a comentar

Deixe uma resposta

O seu endereço de email não será publicado.


*