A ÚLTIMA FALÁCIA

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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Vivemos o tempo das falsas notícias, ou das notícias deformadas, mesmo das com algo, mas pouco, de verdade. O que tem vindo a passar-se nos Estados Unidos, desde que Donald Trump se tornou presidente, mostra ser esta a pleníssima realidade. Um pouco por todo o mundo, é esta a omnipresente realidade.

Entre nós também se tem vindo a operar esta mesma trajetória informativa, bastando olhar, por exemplo, o modo como tenta fazer-se crer que o que se passou em Portugal com a anterior Maioria-Governo-Presidente foi excelente, estando mesmo na base do atual êxito do Governo de António Costa e da ação dos partidos que o suportam na Assembleia da República. Mesmo um slalom gigante nos Alpes fica a anos-luz dos ziguezagues do PSD de Pedro Passos Coelho e do que já se antevê com qualquer um dos que, neste momento, lutam por suceder-lhe.

Uma mui recente intervenção do ainda líder do PSD, Pedro Passos Coelho, mostrou mais uma falácia sua, situação em que se mostrou sempre extremamente fértil. Disse o líder laranja que se impõe repensar o modo de funcionamento dos Sistemas de Saúde e Educativo, uma vez que deles não surgiu um efeito visível de estreitamento das desigualdades sociais. Sendo espantosos estes argumentos, tenho para mim que esta falácia é bem mais que isso, porque o próprio Pedro Passos Coelho deverá mesmo acreditar nestas enormidades.

A ausência de diminuição das desigualdades sociais não depende apenas de se ter acesso aos serviços de saúde, mais ou menos universais e gratuitos, ou à educação e à cultura. Se a classe política entender taxar imensamente menos os mais ricos e mais os da classe média, tal medida nada depende de se ter cuidados de saúde acessíveis ou níveis de escolaridade elevados. Se os políticos estabelecerem em lei que um almirante deverá ter como vencimento cem euros abaixo de um primeiro-tenente, tal não deriva dos mui mais vastos conhecimentos do primeiro em face do segundo.

O acesso muito amplo aos cuidados de saúde, naturalmente, é uma marca civilizacional. E é igualmente natural que cada um possa estudar sem se ver aqui limitado por condições materiais, seja a sua causa a que for. É, pois, uma realidade que nada tem que ver com esta mais recente falácia de Pedro Passos Coelho. Em contrapartida, sendo evidente, até natural, que os mais afortunados ao tempo do nascimento e do seu crescimento possam dispor de melhores vantagens globais, não passa pela cabeça de quase ninguém erigir essa situação como algo sem importância no desenrolar do crescimento do fosso social, que não dá mostras de se quedar.

Ao ouvir estas recentes considerações de Pedro Passos Coelho ficou-me a sensação de que o líder laranja, de facto, acredita no que disse, mostrando-se incapaz de perceber que a injustiça na organização social não pode pôr em causa direitos ou anseios naturais. Infelizmente, estas suas inenarráveis considerações falaciosas também nos vêm alertar para o objetivo posicionamento político de quem possa vir a suceder-lhe. E é por isso que nem Rui Rio nem Pedro Santana Lopes se aventuram a materializar, de modo concreto, o que pretendem realizar em essencialíssimos domínios para as pessoas.

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

2 Comments

  1. Para tudo seria escencial,que estes chamados intlerctuais,se olhassem em si próprio,antes de tomarem algumas retas,que afinal,só viram curvas…Esta é uma realidade ,que conviha rever,e depois,sim,depois ,fazer um diagnótico onde todos possamos encontrar as diferenças!Ter liberdade de comentar,é uma coisa ,mas ,dentro da verdade.

  2. Caríssimo Adelino Borges

    Obrigado pelas suas considerações e é com gosto que volto a lê-lo. Para lá, obviamente, do que nos vai dando com a sua escrita. Obrigado e um grande abraço de amizade.

    Hélio Bernardo Lopes

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