E AGORA, QUE É FEITO DELES?!

HÉLIO BERNARDO LOPES *

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A vida política portuguesa mostra, diariamente, cenas que nos permitem rir com gosto e fartura. Desta vez, tudo voltou a passar-se ao redor da Procuradora-Geral da República, Joana Marques Vidal, e da generalidade dos partidos políticos, com especial ênfase para os da nossa Direita – PPD/PSD e CDS/PP.

Ainda na véspera, e mesmo na véspera desta, Joana Marques Vidal era o supremo da nossa magistratura, até da própria comunidade portuguesa, mas logo num ápice os grandes bandeirantes desta posição se quedaram num estrondoso (e igualmente risível) silêncio. Mais um ápice, e estes apregoados arautos do combate à grande corrupção passaram do mais amplo badalar ao mais sepulcral silêncio. De resto, os partidos que suportam o atual Governo de António Costa não estiveram assim tão menos mal.

Este comportamento permite retirar uma interessante conclusão, invariavelmente não referida entre nós: hoje, à beira dos quarenta e quatro anos da III República, há medo em Portugal.

Imagine o leitor que o que agora nos foi dado saber sobre Joana Marques Vidal havia sido noticiado, por exemplo, sobre o ministro José Vieira da Silva. O que acha o leitor que, num ápice, fariam o PPD/PSD e o CDS/PP? Ah, chamariam de pronto o ministro à Assembleia da República! Desta vez, porém,…,nada! Nem uma palavrinha!! É, objetivamente, uma manifestação aberta do poder da cagufa. Já lá vão quase quatro décadas e meia sobre a Revolução de 25 de Abril.

Ao mesmo tempo, e com alguma coragem pouco frequente, a TVI e a TVI 24 lá nos expuseram as peripécias em torno da receção do Presidente Marcelo Rebelo de Sousa aos familiares das crianças que vêm sendo tratadas ao redor da IURD. A verdade é que, perante todo este caso, nunca até agora se ouviu o Presidente da República exigir que se vá até às últimas consequências, doa a quem doer, de molde a que nada fique por esclarecer. O que se viu com os incêndios florestais, não se viu desta vez. Nem ouviu. Muito significativo…

Por fim, talvez o mais interessante episódio sobre o caso das crianças da IURD – surgido no âmbito da parte explicativa e esmiuçadora do documentário –, que teve desta vez a presença sempre marcante do académico e causídico António Garcia Pereira. De parceria com o juiz desembargador Eurico Reis, este terá sido o episódio mais relevante e que permitiu já compreender muita da realidade suscetível de ser conjeturada com elevada probabilidade de se acertar.

Foi-nos agora dado ver o que é o comportamento político em Portugal. E aos mais diversos níveis… E já não podem restar dúvidas de que, afinal, continua a existir medo de falar em Portugal. E foi por ser este o modo português de estar na vida que o regime constitucional da II República durou quase meio século: raros viam, ou sabiam, do que quer que fosse

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 * Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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