Alvarelhos reviveu a tradição centenária da Queima da Comadre e do Compadre

Mudam-se os tempos e as vontades,

As tradições são para manter!

Todo o mundo é feito de mudança,

A Queima nós vamos continuar a fazer!…

Foi com o espírito desta “deixa” que a Associação Recreativa e Cultural de Alvarelhos (ARCA) deu continuidade à tradição centenária da Queima da Comadre e do Compadre na passada sexta-feira, 09 de Fevereiro, desta vez com substanciais alterações.

A mudança de local da “queima” foi a alteração principal, optando-se pelo recreio da extinta escola primária, actual sede desta associação, em detrimento do habitual Largo das Cruzes. No início do espectáculo das “deixas” e do “julgamento”, foi explicado por António Ribeiro, presidente da Assembleia Geral, que a mudança de sítio teve a ver com razões logísticas e com a segurança das pessoas que participam e das que assistem, a que acresce um menor aglomerado de casas em seu redor.

Passando a estar tudo mais concentrado e com mais facilidade de controlo, suprimiu-se o cortejo alegórico dos andores com os bonecos a queimar (comadre e compadre), desde a escola até àquele largo, e, ao mesmo tempo, procurou-se evitar que as pessoas, estando mais perto de casa e com o frio que se fazia sentir, não voltassem à sede da associação para o baile dessa noite.

Fora isso, o programa cumpriu-se dentro do figurino que lhe é peculiar, mas conhecendo algo bem diferente a nível das “deixas”. Começou com a arruada de bombos pelo Grupo Zés Pereiras, de Oliveira do Conde, ao início da noite, até à hora do baile, novamente animado pelo conhecido teclista Nuno Filipe, de Pinheiro de Ázere. O baile foi interrompido pouco depois das 22h00 para dar lugar ao teatro do “julgamento” e das “deixas”, desta vez sem a participação do grupo de teatro do NACO, por indisponibilidade resultante das múltiplas actividades em que se encontra envolvido, segundo justificação também dada por António Ribeiro, que, então, fez questão de afirmar que a ARCA vai continuar a manter com o NACO e com todas as associações “profícuos relacionamentos e entendimentos”, havendo até a intenção de que a parceria com o NACO volte no próximo ano aos termos anteriores.

Apresentando o palco um cenário de tribunal, o teatro começou com a história verdadeira da porca de Alvarelhos, talismã desta terra, ocorrida nos anos 30/40 do século passado, contada pelo juiz Pedreira Dura (António Ribeiro) à escrivã Amélia Fatela (Mimi Fontes). Depois, o juiz mandou a escrivã chamar os réus, actores com os papéis de compadre Ambrósio Regador (José Castanheira), comadre Joaquina Maravilhas (Inês Ribeiro) e compadre António Métediço (José Ramos). O julgamento dos réus incidiu numa conduta, durante o ano 2017, que o tribunal considerou “imprópria da vivência em comunidade desta terra”, condenando a comadre e o compadre à pena máxima de serem queimados em praça pública e o compadre António Métediço, “que que nada fez para contribuir para o bom nome desta terra, nada fez para evitar o assédio constante da comadre Joaquina Maravilhas”, a uma pena de prisão de três anos, suspensa por igual período de tempo, sob pena de no próximo ano também ir parara à fogueira se o seu mau comportamento se agravar.

O enredo do teatro fez ainda referência à ida da associação ao tribunal do Julgado de Paz da sede do concelho para se defender de uma queixa sobre uma das “deixas” do ano passado, alegadamente considerada lesiva da pessoa visada na mesma, que obrigou a associação à apresentação pública de um pedido de desculpas.

As “deixas”, depois cantadas por José Ramos e Inês Ribeiro, acompanhados em coro pelos outros três actores e em música por Nuno Filipe, não visaram desta vez qualquer nome, evitando melindres de quem quer que fosse, quando era tradição serem dirigidas a jovens solteiros da aldeia, quase sempre 24 raparigas e 24 rapazes, a partir dos 15 anos de idade. No entanto, ficou numa das “deixas” a seguinte promessa: «E neste mudar de cada dia / Havemos de retomar a tradição / Sem sermos chamados a Tribunal / P’ra aplicação de uma sanção».

O salão encheu completamente, de tal forma que não se conseguiu o silêncio desejado, pese os sucessivos pedidos nesse sentido, tendo o bar provisório ali montado alguma influência nisso, de tal modo que a Direcção já admite colocar o bar, no futuro, fora do salão, no alpendre da escola. A representação autárquica verificou-se em quantidade honrosa, com a presença de José Batista, vice-presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal, Cristina Borges, vereadora, Jorge Gomes, presidente da Assembleia Municipal, e António Borges, presidente da Junta de Freguesia de Oliveira do Conde.

Ao serem apanhadas de surpresa pelo conhecimento da chamada da associação a tribunal, houve pessoas que lamentaram e criticaram tal atitude, considerando-a desmotivante para quem se esforça por manter vivas as tradições da aldeia e por enriquecer a vida associativa da ARCA. Isso pareceu dar ainda mais apreço ao desempenho dos actores, saindo vigorosamente aplaudidos no final da sua actuação, aliás, bem merecido.

A queima no recreio da escola esteve bem, não houve falhas e os “bonecos” rodopiaram em mastros separados, armadilhados de rastilhos e bombas, e estoiraram como das outras vezes. A habitual descarga de fogo-de-artifício preso, em redor dos mastros, realçou o início daquele ritual.

O baile continuou pela noite dentro, com Nuno Filipe à altura das circunstâncias, como sempre sucedeu, pois é repetente de várias edições desta tradição. A prova é a de que os bailes têm estado sempre muito concorridos e bastante animados.

Lino Dias

1 Comment

  1. Agradecimento
    A Direção da ARCA – Associação Recreativa e Cultural de Alvarelhos manifesta o seu mais penhorado agradecimento à excelente participação de público na Queima da Comadre e do Compadre, realizada no Centro de Ocupação, Lazer e Troca de Saberes – ex-escola primária e jardim-de-infância de Alvarelhos -, no passado dia 9 de fevereiro de 2018. Ao contar com uma significativa moldura humana, a organização desta iniciativa viu premiado, uma vez mais, o seu esforço.
    A Associação agradece, também, aos elementos do Grupo de Bombos Zés Pereiras, que estiveram envolvidos na arruada e a todos os que, de uma ou de outra forma, se mostraram disponíveis para manter esta tradição, com especial destaque para as amigas desta coletividade Mimi Fontes e Inês Ribeiro que aceitaram prontamente o desafio para entrar no teatro das deixas.
    Para além do circuito municipal de natação, com a participação de jovens, as atividades da ARCA primam pelo bem-estar das suas gentes e pela salvaguarda dos valores da aldeia e da Freguesia, com a realização de caminhadas temáticas e da Festa do Torresmo e de Tradições. A Queima da Comadre e do Compadre e as suas “deixas” é uma iniciativa centenária, sobre a qual continuarão a ser depositados todo o empenho e dedicação para a valorizar.
    Esperamos, pois, que o cartaz de 2018 tenha sido do agrado de todos quantos nos visitaram, pelo que se reitera o nosso BEM-HAJA pela vossa presença e entusiasmo.
    Ao Farol da Nossa Terra, o nosso muito obrigado pela excelente reportagem do evento.
    Alvarelhos, 14 de fevereiro de 2018.
    O Presidente da Direção,
    José Figueiredo Castanheira.

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