Estranhos poderes

ARTUR FONTES
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«Os erros reinam graças a apoios estranhos e emprestados»

John Locke

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A luta da Verdade contra a Mentira ou a do Bem contra o Mal tem sido uma constante na Vida das sociedades. Na base desta luta, está o confronto de ideias. Um confronto que se manifesta através e pelo diálogo, mas que se manifesta e muitas vezes, sob a forma da violência e da calúnia.

Tudo depende da circunstância e do momento político em que essas ideias são proferidas. Agradarão a alguns e a outros não, como diz o filósofo John Locke: “O poder dos poderosos por quem a verdade nem sempre é conhecida e a quem nem sempre agrada” (in “A Carta Sobre A Tolerância”, publicação 2008: 599, ed.70). Esse debate caracteriza as sociedades pela influência que deixa. Tem contornos morais e éticos, quer sejam filosóficos, políticos, religiosos ou sociais. Independentemente da época, da altura ou do local em que surgem e se manifestam, há e haverá sempre um denominador comum: A procura da verdade e a sua defesa contra a mentira.

Caracterizamos uma sociedade ou uma instituição seja ela política, religiosa ou social, pelas informações que delas temos em relação à aceitação ou recusa desta ou daquela teoria.

As dinâmicas «das vozes» de uma sociedade vêm-se, não só pelo cumprimento das Leis, como na consequente aplicação ou não, isenta e rigorosa, das mesmas. Para além desta constatação, outros indicadores nos permitirão observar tais como, a permissão livre ou não, da transmissão das ideias e dos diferentes pareceres. Ora, é pelo cumprimento do dever, pela obrigação de sermos sinceros nos nossos pensamentos, que se forjará a Liberdade de Consciência, a qual procurará a Verdade em detrimento da Mentira. Esta “obrigação de sermos sinceros” exige uma consciência madura e honesta.

Frei Bento Domingues, O.P., na sua coluna semanal, publicada aos Domingos, no Jornal “Público”, escreve: “ As notícias falsas revelam a presença de atitudes intolerantes e hipersensíveis. Dilatam a arrogância e o ódio. É o resultado da falsidade”( “Público”, Domingo, 11 de Fevereiro 2018). Mais à frente, escreve: “ O remédio mais radical para o vírus da falsidade é deixar-se purificar, continuamente pela verdade”.

Só numa sociedade livre, constituída por cidadãos capazes de combater as ambições desmedidas daqueles que se apresentam como cordeiros mas, que no exercício do poder, se tornam lobos, só nessas condições, se poderão construir instituições onde as pessoas sejam respeitadas, aceites e capazes de serem tolerantes. Sendo assim, tem toda a pertinência, o que John Locke escreveu, há mais de 300 anos : “Desejo que eles estejam prontos a reparar as injúrias que tenham cometido contra a verdade e contra o público, e que se permitam ponderar esta reflexão, (“Prefácio”, 2008: 9).

Este pensador inglês (1632-1704), pelo seu enorme empenho e combate pela Liberdade e Tolerância Religiosa, “grande defensor do direito à resistência e à rebelião quando um governo não cumprisse com os fins que lhe foram encomendados”, (Tomás Várnogy, in “O Pensamento Político de John Locke e o Surgimento do Liberalismo, 2006:54), viu-se obrigado a deixar a Inglaterra e a refugiar-se nos Países Baixos, durante 5 anos. Vítima de perseguições, de injúrias e da intolerância movida por aqueles que defendiam um poder absoluto, escreveu na altura “Pois tendo em conta que todo o poder que é confiado para realizar um certo fim é manifestamente negligenciado ou contrariado, é forçoso que se ponha um termo à missão confiada”, (in “Da subordinação dos Poderes da Comunidade Política”, 2008:381)

Mesmo, quando esses “poderes” reinarem com apoios estranhos e cheios de cumplicidades gratuitas e acreditarem poder espalhar o ódio, a arrogância e a mentira, a verdade, por mais que seja escondida, acabará por vencer contra a submissão e  obediências absolutas.

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