E AGORA?!

ÓSCAR PAIVA

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Esta pandemia baralhou o jogo de todos os especialistas. Já se fala numa nova era pós pandemia, mas esta ainda não acabou e os números diários da DGS atestam, infelizmente, o que dizemos.

Se a nova era for para colocar a carruagem dos direitos conseguidos a andar para trás é preferível manter a velha era. Há sempre um conjunto de iluminados, naquelas doutrinas que todos conhecemos, a aproveitar o tempo de borrasca para relembrarem que as tão famosas “reformas estruturais” tardam em acontecer. E como as tragédias criam sempre mimosos ninhos de oportunidades, principalmente para quem tem espírito empreendedor, a receita tem sido sempre a mesma: diminuir salários, precarizar as relações de trabalho, aumentar as desigualdades, minimizar o Estado, passar a patacas os setores estratégicos da nação; enrodilhar o direito num labirinto de normas que pode acautelar muita coisa, mas não acautela a justiça que é devida a cada cidadão com tempo peso e medida.

Mas, perdoem-me o devaneio! Hoje quero ficar por mais perto. Quero falar no associativismo voluntário e na cultura atingidos no coração por esta pandemia inclemente. Que esperar, este ano, das nossas associações e das atividades que desenvolviam? E falar neste ano, também pode ser falar no próximo. Está tudo literalmente parado e o futuro continua a ser uma incógnita.

A Federação Nacional das Associações de Cultura e Recreio fez uma análise muito pessimista sobre a situação atual do associativismo. Do que se sabe (e para os mais distraídos) as associações, além de dinamizarem um conjunto variadíssimo de atividades também promovem a economia, sendo até, por via indireta, o ganha-pão de muita gente que vive das contratações para animar as imensas festividades em cada aldeia, vila e cidade de Portugal.

Tudo parado sinónimo de tudo lixado! Não estou a verter pessimismo. Estou a ser realista. Já se fala por aí em festas minimalistas. Mas será que alguém, acossado por este vírus invisível, que mata, está com vontade de andar aos saltos com uma máscara na “tromba”? O ano que corre não é para corridas, nem para alegrias de orelha a orelha. É, em abono da verdade, gostemos ou não, um ano de recolhimento, de medo, de pouquíssima confiança, de desinvestimento, de falta de liberdade, de quebra de rendimentos, de esmorecimento e solidão para muitos, principalmente para os mais idosos e doentes.

Claro, os catastrofistas, já buzinam de mil maneiras, todas muito à frente das nossas humildes lamúrias. Essas buzinadelas são para preparar o pobre povo, que somos todos nós, para os sacrifícios que, mais uma vez, seremos chamados a assumir. Congelamento de salários? Congelamento de carreiras? Mais desemprego? Mais falências? Mais impostos? E festas para relaxar e esquecer as agruras da vida? Nicles! O covid não consente! Vejam bem a tristeza que nos trouxe este “desgraçado”!

Para que a desgraça não tome proporções dantescas importa, mais uma vez, que quem nos governa (autoridades nacionais e autárquicas) tenha a sensatez de deitar “água na fervura” para que o “caldo não se entorne”. Era bom (estou a pensar alto) que se mantivessem os apoios pelo menos ao nível do ano transato para todos os organismos associativos que têm marcado positivamente a história das comunidades que servem. Bom, em primeiríssimo lugar, que seja garantido o pão diário a todas as famílias flageladas pelo súbito desemprego.

Estar com as pessoas, chegar às pessoas, servir as pessoas, de forma mais atenta e eficaz, em tempo de crise, é o especialíssimo dever de quem escolhemos para dirigir os nossos destinos.

Quando tudo está bem governar é uma espécie de “passeio dos alegres”. As desgraças definem uma liderança. Já dizia o poeta, “Um fraco rei faz fraca a forte gente”. A resiliência é uma grande qualidade em tempo de crise.

 

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