ÓSCAR PAIVA
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A democracia não é apenas o direito de votar de tempos a tempos. É muito mais que isso. Mesmo a democracia não é tida como a melhor forma de governação, mas, realisticamente falando, pode ser a menos má forma de gerir as comunidades. E é nesta forma que a tomamos já que tudo o que sai da humana condição é imperfeito.
Em democracia acho execrável os ataques ad hominem pois não possuem qualquer subtileza argumentativa a não ser a má educação e falta de caráter. Sempre que há insultos em vez de argumentação, mais ou menos sólida, há falta de educação. A falta de caráter revela-se sempre que o ataque surge na ausência do visado. E quando se junta a tudo isto mentiras e insinuações torpes ficamos elucidados sobre a verdadeira natureza do agressor e do seu comportamento democrático.
Há gente que convive muito mal com a crítica. Uma opinião séria, sem louvaminhas ou vénia, se contraria a tese do adversário, pode ser motivo para um chorrilho de disparates, tomados, igualmente, como crítica. E este tipo de comportamento nada tem a ver com crítica. É pura e simplesmente, feitio, irritação, descontrolo, má educação e talvez, inconscientemente, apelando ao Freud, desejo de intimidar ou amedrontar.
Dizia um amigo, igualmente na linha de Freud, que quando atacamos verbalmente uma pessoa, o que estamos a dizer dela é aquilo que nós somos e não temos coragem de reconhecer. De facto sabemos muito pouco acerca de nós mesmos. Cada um de nós continua a ser um grande mistério para si mesmo. O pouco que sabemos de nós vai-se desvelando na relação com os outros. Daí a grande importância do relacionamento, da convivência, da comunidade. A célebre afirmação de Aristóteles, a milénios de distância, continua a mostrar-se um grande tratado de sabedoria: “um homem só ou é um deus ou um louco, mas nunca um homem”.
Em democracia o uso da palavra tem uma importância vital. Na Grécia antiga, os sofistas, já sabiam que o seu uso servia “para matar ou embelezar”. Um eleito do povo deve medir muito bem o que diz ou escreve. Uma vez eleito não representa apenas aqueles que nele votaram, mas representa todos os eleitores. Os eleitores, o povo soberano, merecem dos seus representantes todo o respeito e consideração. A democracia não pode entender-se como uma “luta de galos”, sem qualquer regra. A democracia, na sua genuína autenticidade, “governo do povo, pelo povo e para o povo”, só o é se for continuamente participada, escrutinada, fiscalizada. Um eleito sabe que está sujeito a esse permanente escrutínio devendo conviver com ele de forma normalíssima, já que faz parte da própria essência do exercício democrático.
Quando isso não se verifica algo está errado. Um eleito quando se empertiga no seu cargo e levanta a voz apenas para intimidar não honra o compromisso que assumiu e, por isso, presta um péssimo serviço à democracia. As legítimas reivindicações dos cidadãos eleitores, colocadas com a devida elevação, devem merecer dos legítimos representantes a ponderação devida e a resposta adequada.
A democracia não está consolidada nem nunca estará. A natureza humana tem uma doentia tendência para o controlo, para a desconfiança, para a imposição. Por isso, esta construção que trouxe paz, segurança, tolerância e prosperidade à Europa, e a outros países do mundo, tem que ser continuamente alimentada pelos que amam a liberdade, não temem o confronto de ideias, respeitam a diferença e honram, pela palavra e pelos atos, a pessoa de cada ser humano.
Cada vez mais vamos vendo e sentindo os efeitos nefastos de tantos falsos democratas que, a coberto das facilidades que o sistema concede, se infiltram em lugares de influência e se portam como autênticos ditadores. E entre nós, em todos os partidos, temos alguns que funcionam como o “lobo vestido com a pele do cordeiro”.
Precisamos de estar atentos, cada vez mais atentos. Uma cidadania responsável não se circunscreve a uma Assembleia de Voto com, para cúmulo, cada vez mais abstenção. A crise da democracia pode também aferir-se pelo crescente número de abstencionistas e atração, igualmente crescente, de propostas políticas musculadas, para não dizer autocráticas.
A pandemia que nos atormenta está a dar-nos muitas lições e a maior e mais imediata é a de que “todos precisamos uns dos outros”. Que se saiba os pretensos deuses humanos são todos de pés de barro! Os proclamadores de verdades impostas trouxeram dor, miséria e morte a milhões de seres humanos. A história comprova-o.
Apesar de tudo a democracia parece ser a forma governativa que melhor responde às naturais limitações do ser humano. A angústia existencial, que a todos toca, (e mais ainda em tempos de incerteza como aqueles que estamos a viver) faz-nos perceber as imensas fragilidades que transportamos. Manias de grandeza?! Pobres coitados!
A humildade é uma qualidade essencial e muito mais ainda para todos aqueles que desempenham especiais funções de responsabilidade.
A brutalidade e insensatez só servem para agravar os problemas.


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