O CÍRCULO VICIOSO

ÓSCAR PAIVA

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A covid está a atrasar muita coisa, a desvelar outras e a ocultar muitas mais. Todos se queixam, muitos estão a morrer. Algumas desgraças encobertas, de longa data, estão a revelar-se. Mas tudo “vai ficar bem”. Não é assim que reza a cantilena para um novo porvir? E os que estão em aflição? E os que morrem?

Apesar de tudo o que se diz do nosso Serviço Nacional de Saúde, ainda bem que existe. Importa dimensioná-lo e melhorá-lo. A desgraça que nos está a acontecer mostra que os problemas relacionados com a saúde não podem ser encarados como negócio.  E há mais coisas essenciais a uma vida harmoniosa em comunidade que não podem ser encaradas como negócio, mas o alijar de responsabilidades empurra muitos para a ilusão de que o Estado mínimo é que é bom. É a moda dos tempos atuais. Também não se quer um Estado ‘máximo’. Quer-se um Estado ao serviço dos cidadãos, com um aparelho administrativo desburocratizado e eficiente. Os setores estratégicos não podem estar à mercê de interesses privados. Em nome do interesse coletivo e da independência do próprio Estado esses setores são vitais para assegurar o normal funcionamento da democracia. Num Estado democrático e de direito há muito espaço para a expansão e realização dos legítimos interesses privados.

Quando a desgraça nos bate à porta, de forma tão repentina e com consequências devastadoras, não são os mealheiros das fortunas colossais que se abrem para dar resposta imediata aos problemas. Nenhum “paraíso fiscal” se chega à frente. Todos reivindicam a intervenção do Estado, até os que têm muito o fazem. A democracia liberal, agora tão enaltecida, em momentos destes olha para o Estado como tábua de salvação. E se assim é faz-nos falta um Estado forte, com autoridade, que não funcione ao sabor dos interesses corporativos; um Estado que seja o garante da justiça e da regulação dos antagonismos sociais; um Estado que sirva a nação no seu todo e acolha respostas duradouras para os menos bafejados pela sorte.

O Estado parece cativo de querelas ideológicas sem sentido e dos grupos que as alimentam apenas preocupados com o poder e a distribuição das mordomias que ele pode proporcionar. O governo do povo (é o que quer dizer democracia, sem mais adjetivos) quase nunca é do povo e é isto que desacredita o “sistema”.

A discussão entre esquerdas e direitas está cheia de vícios redutores. Não há deuses de um lado e demónios do outro, consoante as conveniências ideológicas de cada um. Também não há fim das ideologias. Essa é mais uma mistificação para nos empurrarem para outro tipo de coisas que também são suportadas por ideologias. Não se queira uma tecnocracia de governantes infalíveis que contabilizam proveitos e procuram suprimir direitos aos reais autores da criação de riqueza. Assim nunca teremos um Estado fundado no direito e na justiça social, um Estado democrático.

O mal do ocidente, da nossa cultura que correu mundo, é a perda intencional da memória coletiva. Contam-se estórias não se ensina história e quando se ensina o selo do chamado “progressismo” apresenta-a como resultado de uma inevitável e trágica luta entre opressores e oprimidos. E a história é muitíssimo mais do que isto. Nesta luta de galos e garnisés estes, uma vez donos do poleiro, fazem as mesmíssimas tontices dos que antes o detinham. Esquerdas e direitas valem pouquíssimo quando o que está em jogo é a mera substituição de atores no palco do poder. A farsa vai-se repetindo, mudando apenas, para tudo continuar na mesma, algumas caras.

Se há lições a tirar da história (das histórias dos grandes, dos remediados e dos pequenos) é a obrigação de aprendermos com os seus erros. E tem havido erros tremendos, muitos ignorados por puro oportunismo. Daí as estórias bem encadernadas e muitas guindadas aos altares da sapiência hipócrita. Mas não passam de estórias. A realidade é outra e bem mais cruel. Em muitos aspetos o mundo vai avançando a passo de lesma. Não há rasgo nem audácia. Os que se aventuram muito cedo perdem a genica, talvez antes, a esperança. Correr ao engano parece ser a sina costumeira. Será que se aprendeu alguma coisa com os erros do passado?

O quotidiano engaiola-nos em montanhas de discursos que deslizam céleres pela carapaça da nossa indiferença. O essencial parece escapar-nos sempre. Muitas vezes o que vem a terreiro, para a discussão de momento, são os excertos daqui e dacolá que convêm para zurzir o adversário. Há pouca honestidade intelectual. A tal luta do galo e do garnisé, ou entre galos ou entre garnisés, subiu também ao quotidiano dos partidos, mostrando um confrangedor vazio a engrossar, cada vez mais, a bancada dos abstencionistas e dos que vão escorregando para os braços de um qualquer radicalismo. E, assim sendo, tudo parece entrar num círculo vicioso. As misérias do passado, por “inevitabilidade” das leis que regem a história, tendem a repetir-se no presente e assim, indefinidamente, até ao fim da própria história! Sob o ponto de vista da covid atual somos imediatamente remetidos para as terríveis pandemias do passado.

Mas nem tudo é confusão, miséria, calculismo interesseiro, retrocesso. Há sinais luminosos a relevar: a rapidez com que a comunidade científica se uniu para responder à pandemia não pode ignorar-se. De facto, as sociedades têm hoje um outro lastro de conhecimentos e os necessários meios para trabalharem em redes alargadas. Tudo isso contribuiu para a produção de diversas vacinas em tempo recorde. Se a sua aplicação for um êxito poderemos rejubilar. E aqui os políticos têm uma palavra séria a dizer. A gestão da polis cabe aos políticos. Nunca se demitam dessa responsabilidade.

Espera-se que os políticos, e os partidos que os suportam, sejam capazes de introduzir nas suas práticas os elementos de mudança capazes de os credibilizar mais aos olhos do eleitorado, dos cidadãos. As velhas receitas da cenoura e da ratoeira dão para desconfiar. Ninguém, minimamente sensato, se disponibiliza a mudar para pior, mas o engodo todos os dias nos é lançado. É chegada a hora de romper o círculo vicioso. Será desta?

Um SANTO NATAL para todos.

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