ÓSCAR PAIVA
.
Todos os anos, invariavelmente, no Dia da Mulher, escrevem-se coisas que apelam à nossa sensibilidade, mesmo à daqueles ou daquelas a quem as contínuas esmurradelas da vida já não faz despertar qualquer tipo de emoção. Com efeito, o mundo parece viciado em violência; violência pública e violência privada. A violência contra as mulheres é uma constante que indigna, de facto, as pessoas normais. Falar noutras violências quotidianas, permanentes atentados aos direitos humanos, não pode servir de justificação para o mal que se faz às mulheres.
A violência doméstica é uma hedionda cobardia que mostra o lado mais tenebroso de determinadas mentes. Toda a violência é condenável. Em nada engrandece o ser humano. A força bruta, o esmagamento, para mostrar superioridade, tem, na história dos povos e nas histórias particulares de muitos indivíduos, um rasto de horrores e de mortes. Ninguém é superior a destruir. Ninguém é senhor a subjugar.
Os sistemas totalitários seguem a lógica da força e do medo. O medo não se eterniza. Dias virão em que se transformará em coragem ditando o fim da subjugação. O ADN da liberdade é muito mais potente que todas as formas subliminares de imposição e controlo. E é por isso que a democracia é o menos mau de todas as formas de regime. É a forma de regime que mais se coaduna com a natural evolução da humanidade, evolução para a autodeterminação, evolução para a atualização de potencialidades em ordem a uma espiritualização crescente. Não se teime, tenebrosamente, em agrilhoar a humanidade do conhecimento à mitologia arcaica de tantas narrativas que a pretendem acorrentar nos calabouços da ignorância.
Viver é experimentar, experimentar é saber, saber é ousar e criar, avançar, mudar, querer ser feliz. Nenhum pensamento único, enroupado na mais brilhante sofística, nos trará felicidade. O capitalismo, sempre a acenar-nos com a livre iniciativa e a abundância, só por isto, também não traz felicidade. A violência é transversal às sociedades da abundância e às sociedades que querem controlar tudo e, de forma doentia, o pensamento dos outros. A dialética do senhor e do escravo está omnipresente nas sociedades totalitárias, mas também pode estar nas sociedades que se dizem democráticas. Quando a avaliação que se faz de um ser humano tem como critério o peso da carteira, a mesma dialética põe a nu a suposta igualdade e a suposta liberdade das democracias representativas.
Fingir que somos humanos é muito perigoso. Ou somos ou não somos. A substância dessa humanidade, que todos ansiamos, não vinga nos dias em que se pretende uma espécie de catarse coletiva; uma espécie de perdão por todas as omissões e todas as indiferenças, para todos os atentados à dignidade da mulher.
Fala-se tanto em liberdade, igualdade e fraternidade. A revolução francesa fez destas palavras o seu lema de ação virtual já que na realidade política em que foi total protagonista, guilhotinou a monarquia, criou outros “reinados” (o império napoleónico), outras oligarquias e semeou o terror.
Recordar desgraças, lembrar opressões de toda a ordem, desmascarar injustiças é o mínimo que se pode fazer quando ainda habita em nós algum pingo de sensatez e vergonha. Esse mínimo tem de continuar a manter-se vivo e atuante, acusador enérgico quando constatamos as humilhações permanentes a que são submetidas as mulheres.
Mas não basta manter acesa a chama da denúncia, é preciso ser consequente e pressionar, no exercício de uma cidadania ativa, as instâncias do poder para que atuem em consonância com os princípios que tantas vezes proclamam sem qualquer consequência prática.
O século do conhecimento e da “inteligência artificial”, das luzes da razão, que nos fascina em tantos domínios, vive, a paredes meias, com um mundo de sombras onde pululam feiticeiros com resposta “certeira” para todas as amarguras. Olhando a política, mais moderada ou menos moderada, nós vemos este mundo de sombras a fazer caminho. O resultado tem sido muito frustrante. As soluções “penso rápido”, pouco estudadas e estouvadamente aplicadas, têm acrescentado problemas aos problemas existentes. A política, de todos os quadrantes, mais comprometida com o poder de decidir ou na oposição, procura convencer os seus auditórios com uma retórica que mistura o encantatório com alguma racionalidade. Olhando essas retóricas, com distância e objetividade, ficamos sempre desiludidos, descrentes do futuro, sem chão para acreditar na mudança. Sem a irradicação daquilo que não deixa a sociedade crescer e ser feliz não há mudança que lhe valha.
As ditas “questões fraturantes”, tão agitadas por certas forças, e que estão a fraturar perigosamente a sociedade portuguesa, ou a tendência idiota para silenciar o passado histórico da nação, através da destruição dos seus símbolos e dos seus heróis, fazem parte de uma agenda que traça a incompatível clivagem entre progressismo e patriotismo; entre ideias de total rutura com o passado e entre a ideia de nação.
Neste inglório combate o mais importante fica esquecido, a democracia descaracteriza-se e perde vigor e o país continua endividado e adiado.
As forças políticas (da esquerda à direita) em vez de inventarem e agitarem “fraturas”, com soluções que, em muitos casos, as agravam ainda mais, deviam fazer um esforço de entendimento, de aprofundamento e de convergência nas medidas a adotar para sarar ou atenuar certas “feridas” sociais que minam a saudável convivência entre todos. Eliminar de vez, por exemplo, as desigualdades entre homens e mulheres, no plano real, será, sem sombra de dúvidas, um salto enorme na afirmação de direitos e, portanto, de credibilização da democracia.
As mulheres terem vencimentos inferiores aos dos homens é, entre outras coisas, uma forma de violência inqualificável. A violência doméstica e outras violências, tão ou mais gravosas, que tornam as mulheres vítimas indefesas, tem que apontar para um quadro legislativo que sancione de forma exemplar estes crimes.
A democracia é, por natureza, tolerante, mas não pode ser tola ou ingénua. A severidade das penas, para crimes que humilham e atentam contra a vida, tem de ser assumida sem qualquer tibieza. A resposta decidida a estes problemas fortalecerá, sem dúvida a democracia e o Dia da Mulher (que são todos os dias) brilhará com outra intensidade.


Seja o primeiro a comentar