Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Sexta-feira, 30 Julho 2010 — 0 Comentários
A PORRA DA VERDADE
HÉLIO BERNARDO LOPES *
Se alguém ainda tivesse dúvidas sobre o caos em que hoje se encontra a comunidade dos serviços de informações dos Estados Unidos, esta recente revelação de mais de noventa mil documentos classificados veio levantar o ínfimo de dúvida que pudesse existir. Simplesmente um caos.
Este caso, contudo, veio ainda mostrar aos aliados dos Estados Unidos que deixou de poder confiar-se na sua estrutura de informações, porque num ápice o que é secreto pode muito bem tornar-se público. Note-se, porém, que este episódio terá de ter um outro objetivo.
Pensando um pouco, facilmente se percebe que o atual caos, de que veio agora à superfície mais este fantástico episódio, poderá sempre ser assacado à administração Obama, porque embora os factos se reportem à anterior administração, a fuga só teve agora lugar.
De resto, e pensando um pouco, ver-se-á com facilidade que nada de muito novo surgiu pelo meio daqueles milhares de documentos, porque o facto do serviço secreto do Paquistão ter ligações à Al Qaeda era de há muito tomado como um dado certo. Mesmo as mortes que vieram agora a público eram já conhecidas das autoridades do Afeganistão.
O real objetivo desta aparente perda de documentação classificada é atingir a credibilidade da administração Obama. Por um lado, por ser de origem africana – um não branco, portanto –, por outro, pela humaníssima reforme que conseguiu operar no domínio da Saúde, onde existiam quarenta milhões de norte-americanos, completamente ostracizados, sem direito a um qualquer cuidado médico. Depois, pela reforma que operou ao nível do sistema financeiro, de molde a impedir ao máximo que se continue a fazer o que os criminosos neoliberais fizeram a todo o Mundo. E, por fim, pela coragem que há dias mostrou, ao salientar publicamente que os republicanos têm pouca ética.
Por tudo isto, como facilmente se compreende, o ódio a Barack Obama por parte dos grandes interesses é simplesmente a perder de vista. Para mais, depois de pôr na rua um general como o que se encontrava à frente das tropas no Afeganistão, mas que tinha o seu quê de politicamente desequilibrado, ou nunca teria proferido as considerações que fez a certa revista. E terá sido tal um mero acaso, ou mais uma peça na tentativa de desacreditar a administração Obama?
Foi pena que não tenham sido divulgados documentos que mostrem a podridão moral dos mil e um que atiraram os Estados Unidos para o novo Vietename em que se tornou o Afeganistão. Seria, como é evidente, bom em demasia, e também contra natura, porque os que agora deixaram sair estes noventa mil documentos, quase com toda a certeza, são os que, naquele cenário, se veriam apontados. Pobre Obama…
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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