Opinião — Segunda-feira, 1 Fevereiro 2010 — 0 Comentários
A sabedoria de “Salomão”
SALVADOR MASSANO CARDOSO *
No decurso de um debate sobre Bento XVI e as suas polémicas afirmações sobre os preservativos e a sida, os argumentos apresentados por ambas as partes, os que condenam a atitude do chefe da Igreja Católica – entre os quais me incluo -, e os que defendem a sua posição, não são conciliáveis nem para lá caminham. Mas afinal por que é que não ocorreram mudanças nos envolvidos? No fundo, como é facilmente compreensível, ficou tudo na mesma. Presumo que foi devido à forma demasiado assertiva com que os dois grupos abordaram a questão. Se “tivéssemos” feito as “coisas” de forma sugerida, discreta, subliminar, às tantas seria muito mais eficaz do que dizer expressamente o que pensamos. Faço esta análise com base em Borges que afirma o seguinte: “Talvez o espírito humano tenha tendência para negar as afirmações perentórias. Lembrem-se do que disse Emerson: os argumentos não convencem ninguém. Não convencem ninguém porque são apresentados como argumentos. Assim, olhámos para eles, ponderamo-los, viramo-los de todos os lados, e decidimos contra eles. Mas quando uma coisa é apenas dita ou – melhor ainda – insinuada, há uma espécie de hospitalidade na nossa imaginação. Ficamos prontos a aceitar”.
Apesar de tudo valeu a pena, não porque tivesse ocorrido quaisquer mudanças, nem vai haver, como é óbvio, mas pelo facto de Salomão, não o bíblico, mas o elefante ter entrado em cena e com ele Saramago e o próprio Jesus Cristo.
Conta-nos o escritor a fabulosa estória de uma menina que ia sendo “esmagada” durante o famoso cortejo em homenagem ao Arquiduque da Áustria. Mas Salomão, o elefante, com a sua tromba rodeou a cintura da miúda, acabando por a entregar à mãe. Estupefação geral! Os presentes nem queriam acreditar nos seus olhos. O pai, agradecido, para perpetuar o episódio, fez nascer um monumento em homenagem ao Salomão, “O elefante diplomata”, presente na fachada da sua casa, a famosa “Elefantenhaus am Graben” de Viena.
Saramago, na “A Viagem do Elefante”, colocou na boca do Arquiduque Maximiliano rasgados cumprimentos ao condutor do animal o qual se apressou a dizer que tinha feito muito pouco, o mérito era todo do elefante.
A hospitalidade com que foi recebida a nossa comitiva ainda está presente na imaginação dos descendentes, que o nosso autor maior aproveita para refrescar, atribuindo ao Arquiduque uma das mais poderosas afirmações que deveriam nortear as nossas existências: “Se cada um de nós fizesse o muito pouco que lhe compete, o mundo estaria muito melhor.”
Quem diria que um elefante de verdade pode comportar-se num mundo de cristal sem fazer estragos? Antes pelo contrário! Será que o facto de ter sido batizado de Salomão terá tido alguma influência?
* Professor catedrático de Epidemiologia e Medicina Preventiva,
Universidade de Coimbra


