Hélio Bernardo Lopes — Domingo, 29 Janeiro 2012 — 0 Comentários
AS DUAS CATADUPAS
A semana acabada de passar trouxe ao conhecimento público uma vastíssima gama de apreensões de droga, em quantidades muito variadas e um pouco por todo o País. E – clara marca do tempo – houve até quem fizesse uma confusão e entregasse uns bons quilogramas de droga nas Nações Unidas, por via de uma simples confusão em torno dos símbolos exteriores das embalagens. Ou seja: a droga está por toda a parte, qual Bélarte, do nosso Mundo decadente.
Simplesmente, se esta semana deverá vir a mostrar nas estatísticas futuras a ocorrência de um máximo local no gráfico respetivo, longe, em todo o caso, do máximo absoluto nacional, já o tráfico observado nesta cidade de Lisboa esteve dentro dos parâmetros usuais, ou seja, com um ritmo quase diário, embora eu só possa avaliar o que se passa durante a tarde.
O que toda esta realidade confirma é muito simples e eu mesmo a tenho já referido e desde há muito: o caudal de estupefacientes que circula é já completamente independente do que possa ser apreendido. Uma realidade que se pode facilmente perceber por este facto: toda a movimentação no seio do tecido social é hoje quase diária e com um ritmo que é quase invariante face ao das apreensões.
Mostra isto, pois, duas coisas. Por um lado, o que entra sem ser detetado é incomensuravelmente mais do que o que é apreendido. Por outro lado, terão de existir, digamos assim, albufeiras de estupefacientes, de molde a que as solicitações diárias possam ir sendo alimentadas.
Destas duas realidades, a segunda constitui hoje um dado relativamente novo e absolutamente essencial, dado que neste último ano e meio se assistiu à passagem de um caudal com picos uma vez por semana, depois duas vezes, mais tarde três, e hoje já completamente diários. As pessoas estranhas nos lugares conhecidos, as ausências de outras, e o caudal de utilização de telemóveis, e por mil e um, são os indicadores mais visíveis. Realidades já diárias.
Mas há um dado novo que poderá levar a mudanças nesta realidade: a saída anunciada, por via da crise, de muitos dos estrangeiros que servem, sobretudo, nos ambientes locais que vivem deste mecanismo. Se a saída de imigrantes continuar a crescer, tor-nar-se-á mais complicado manter todo este mecanismo. Claro que se encontrará alternativa, mas será mais desagradável para os barões situados aos diversos níveis da máquina global do problema. Ainda assim – e creio não estar errado –, o risco irá decrescer. Enfim, uma verdadeira mas engraçadíssima pândega.
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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