Quarta, 08 Fev 2012

Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Sábado, 26 Junho 2010 — 0 Comentários

AS PRESIDENCIAIS EM MOVIMENTO

HÉLIO BERNARDO LOPES *

HÉLIO BERNARDO LOPES.jpg.

Deixou de constituir fator de discussão a futura candidatura de Aníbal Cavaco Silva a um segundo mandato presidencial, agora que já de um modo inteiramente indubitável a sua intervenção se faz abertamente à revelia do apoio institucional com o Governo, como seria naturalmente de esperar num tempo difícil para Portugal como é o que vem decorrendo desde que a crise mundial teve o seu dealbar nos Estados Unidos.

Uma coisa, porém, é o natural direito de praticar uma candidatura a um segundo mandato, outra o de, perante a grave crise para que Portugal se viu atirado por via da irresponsabilidade criminosa dos defensores – e praticantes ativos – do modelo neoliberal, o Presidente Cavaco Silva se deitar a explicitar, alto e com bom som, que Portugal se encontra numa situação insustentável.

Esta foi a terceira intervenção do Presidente Cavaco Silva claramente contra a imagem e a situação, económica e financeira, de Portugal, depois daquela sua primeira infeliz referência do Dia de Ano Novo, sobre a situação explosiva a que se poderia chegar, e, mais recentemente, nas comemorações do 10 de Junho, com a referência à tal insustentável situação do País.

Qualquer pessoa que se dispa de interesses partidários e simplesmente pense nos do País, facilmente perceberá que um Presidente da República que realmente queira defender os interesses e a imagem do seu País não pode andar por aí a proclamar que a situação de Portugal é insustentável, porque esse é o tipo de afirmações que só servem os que, a partir de fora e defendendo os seus interesses, de há muito vêm deitando mão de tudo para pôr Portugal numa situação da mais cabal dependência e fragilidade.

Tem, pois, Mário Soares toda a razão, ao vir agora reconhecer a evidência do que escrevo atrás: o procedimento do Presidente Cavaco Silva é o mais eficaz trunfo para colocar Portugal e os portugueses numa ainda mais frágil situação, já mesmo sem um futuro minimamente capaz à vista. Em boa verdade, não pode haver quem faça pior ao País e a todos nós.

A tudo isto, e como pude escrever desde há muito, somam-se as inúteis intervenções comunistas, que parecem não sentir a realidade para que as palavras do Presidente Cavaco Silva estão a atirar Portugal. De molde que por aí se anuncia já um novo candidato presidencial, desta vez oriundo do Partido Comunista… Ou seja, os comunistas, lá bem no fundo, o que pretendem é dificultar a vida a Manuel Alegre, para o que será essencial, já com a vitória do neoliberalismo claramente consumada, manter Cavaco Silva em Belém. Quem diria que os comunistas acabariam, um dia, por vir a apoiar a histórica proposta de Francisco Sá Carneiro, de uma maioria, um Governo, um Presidente, mas no setor neoliberal? Quem poderia imaginar que os comunistas acabassem por vir a deixar passar, sempre protestando, claro está, a extinção do Serviço Nacional de Saúde, da Segurança Social Pública e do acesso ao Ensino Superior sem ser em função da possibilidade de poder pagar altíssimas propinas?

Por fim, a completamente evidente razão do Primeiro-Ministro, José Sócrates e de mim mesmo. Daquele, porque de há muito que se viu na contingência de ter de puxar por esta parte da Jangada de Pedro no mais completo isolamento. De mim, porque, como pude prever, essa historieta dos valores católicos é mera fantasia, para o que basta ver a completa ausência do tal candidato que corporize esses mesmos valores numa candidatura presidencial. De resto, hoje mesmo um bispo – o de sempre – nos veio dizer o tal célebre nim da Igreja Católica, sempre que o teste em causa é difícil…

* Antigo professor

e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia

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