Ambiente — Quarta-feira, 22 Abril 2009 — 0 Comentários
Atentado ambiental
A CAULE vem denunciar um acto condenável ocorrido no passado mês de Fevereiro, no largo da ITALVA na Ponte das Três Entradas, no qual funcionários da Junta de Freguesia de Santa Ovaia resolveram decepar barbaramente uma tília e três castanheiros.
Note-se que aquela tília, com 60/70 anos, estava em bom estado vegetativo, não apresentando quaisquer sinais de declínio. Com a copa bem formada, não dificultava nem causava nenhum transtorno, o que nos faz questionar, mesmo usando de toda a nossa capacidade inventiva, das razões de tal atentado, levando-nos a pensar que se tratou pura e simplesmente de um acto de ignorância, como a foto documenta.
A CAULE vem desde já oferecer-se como consultor junto das Juntas de Freguesia ou de outros interessados para que actos desta natureza não se repitam na nossa região, permitindo-nos assim usufruir com qualidade deste espaço que a todos pertence.
Junto segue o parecer dado pelo Dr. Francisco Coimbra, consultor em arboricultura ornamental e antigo vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Arboricultura.
CAULE – Associação Florestal
WWW.CAULE.ORG
OS “MITOS” ASSOCIADOS ÀS PODAS DE ÁRVORES NO ESPAÇO URBANO
As “podas radicais”, que destituem de dignidade e valor estético as árvores – ditas ornamentais – em meio urbano, são justificadas com base em preconceitos que continuam arreigados na população, que muitas vezes as exige quando os responsáveis pela sua gestão e manutenção optam por outros modelos de condução. Assim, temos ouvido dizer que estas “rolagens” rejuvenescem e fortalecem as árvores, ou que são a única forma económica de controlar a sua altura e perigosidade… Será isto verdade?
1. A poda drástica rejuvenesce a árvore? – NÃO! São as folhas a “fábrica” que produz o alimento da árvore. Uma poda que remova mais do que um terço dos seus ramos – e as “podas” radicais removem a copa na totalidade – interfere muito com a sua capacidade de se alimentar, destruindo o equilíbrio copa/tronco/raízes. O facto de, após uma operação traumática, as árvores apresentarem uma rebentação intensa – como tentativa “desesperada” de repor a copa inicial – não significa rejuvenescimento, mas sim um “canto-de-cisne”, à custa da delapidação das suas reservas energéticas.
2. Fortalece-a? – NÃO, a poda radical é um acto debilitante, uma porta aberta às enfermidades. As pernadas duma árvore massacrada têm, pelo seu grande diâmetro, dificuldade em “cicatrizar”, e os cortes nestas condições são muito vulneráveis a ataques de insectos e fungos que causam podridões. As nossas cidades estão cheias de tristes exemplos, árvores cujo estado sanitário decadente é o resultado destas práticas do passado…
3. Torna-a menos perigosa? – NÃO, estas “podas” induzem a formação, nos bordos das zonas de corte, de rebentos de grande fragilidade mecânica, pois têm uma inserção anormal e superficial no tronco. Como se desenvolvem, ao longo dos anos, podridões junto às zonas de corte, esta ligação fica ainda mais fraca, tornando estes ramos instáveis e potencialmente perigosos a médio e longo prazo.
4. É a única forma de a controlar em altura? – NÃO, a quebra da hierarquia – que estava estabelecida entre os ramos naturalmente formados – permite o desenvolvimento de novos ramos de forte crescimento vertical, mas agora de uma forma desorganizada e muito mais densa! Não se resolve, assim, o motivo porque geralmente se recorre a esta supressão da copa, pois em alguns anos a árvore retoma a altura que tinha, sem nunca mais voltar a ter a saúde e a beleza característica da espécie…
5. É mais barata? – NÃO, se a gestão do património arbóreo for pensada a médio e longo prazo! Aparentemente parece ser mais económico recorrer-se a uma “rolagem” única do que utilizar os princípios correctos de poda, investindo na formação do pessoal ou recorrendo a profissionais especializados nas situações mais complexas. No entanto, esta economia é de curto prazo, pois as árvores desvalorizam-se a todos os níveis, e está-se a onerar o futuro, que terá que “remediar” a sua decrepitude precoce. E a redução drástica da esperança de vida das árvores implementa custos acrescidos para sua remoção e substituição…!
E já que as árvores não falam, gritemos nós em sua defesa, com este contributo – que se pretendeu pedagógico e não demagógico – para a desmistificação destas “ideias feitas”, responsáveis por tantos atentados à beleza, saúde e dignidade dos exemplares arbóreos do nosso país!
Francisco Coimbra
Consultor em Arboricultura Ornamental
Antigo Vice-presidente da Sociedade Portuguesa de Arboricultura
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