Luz Canário, Opinião — Sábado, 4 Setembro 2010 — 0 Comentários
ELES FICAM INSUPORTÁVEIS
Luz Canário
Fiz parte de uma reunião onde se discutia o encerramento de uma escola.
Eu penso que a maioria dos presidentes das Câmaras e das Juntas está contra o encerramento de muitas escolas em benefício da criação de mega-agrupamentos nos grandes centros urbanos. Todos têm plena consciência do quanto essa atitude política vai afectar o interior de Portugal e como vai lançar muitos dos seus munícipes no desemprego.
Ainda há muito poucos anos fizeram um esforço enorme para reconstruírem, aumentarem e apetrecharem as escolas para que houvesse uma educação com qualidade e onde todas crianças tivessem igualdade de oportunidades. Foram feitas cantinas e salas próprias para dar as refeições às crianças e ocupar os seus tempos livres. Foram feitos acordos e protocolos para que todas as crianças tivessem aulas de Inglês, Música e Educação Física. Foi dado emprego a profissionais de várias áreas. Criou-se vida e movimento nas localidades. Facilitou-se a vida dos pais e criaram-se grandes estímulos às crianças. Foram alcatroadas várias estradas, colocada electricidade e meios de comunicação onde não havia.
Ainda quando todo este processo estava no início, um novo governo lança-o no lixo, sem o menor respeito por ninguém, nem pela situação de crise económica que se está a viver.
Em nome de quê? Ainda não aprenderam, com a construção de grandes bairros económicos, onde a violência é constante e incontrolável, que o sucesso será muito maior se os agrupamentos forem mais pequenos e em meios bem diversificados?
Dizia-me um presidente da Câmara: “Manda quem pode, mas nós e os Presidentes dos Agrupamentos é que temos de dar a cara ao povo e nem sequer fomos ouvidos sobre nada.”
Não é nada fácil estar no meio dos pais de crianças tão pequenas, dos presidentes dos agrupamentos e dos presidentes das autarquias.
A grande maioria dos pais não acredita que estão a ser defendidos os superiores interesses dos filhos, porque eles vêem muito bem que a qualidade do ensino e da educação é cada vez pior por causa do facilitismo e da autoridade retirada ao professor. Não acreditam que levantar os filhos tão cedo para estarem nas escolas das 7h30 às 18h30 lhes traga saúde psíquica.
“Alguns demoram mais tempo a chegar à escola do que nós aos empregos. E estão mais horas fechados nas escolas do que nós nos trabalhos. Quando chegam a casa ficam insuportáveis. Não conseguimos controlar tanta agressividade e os fins-de-semana são um pesadelo.”
“Quando perguntámos às crianças qual era a hora em que gostavam menos de estar na escola, todos, sem excepção, responderam que era a hora do almoço. Houve pais que já foram aos refeitórios nessa altura e dizem que o barulho é infernal”.
“Perdeu-se a noção de disciplina, ordem, autoridade, silêncio, de empenho e de apreço. Só liberdade e facilidade”.
Nas aulas há muitos alunos que são educados e estão motivados para trabalharem e darem o seu melhor. Mas há outros que já sabem que não precisam de trabalhar porque passam sempre, e também não necessitam de ser obedientes e disciplinados porque os seus pais e o ministério da educação estarão ao seu lado nessa sua postura. Estas situações vão provocando stress, que se vai acumulando de aula para aula e à noite, em casa, é a explosão. Aqueles momentos de partilha de alegria e de refeição são, muitas vezes, uma decepção.
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