João Figueiredo — Quinta-feira, 1 Março 2012 — 8 Comentários
Em desacordo
JOÃO FIGUEIREDO *
Acompanhado de alguma controvérsia, o Acordo Ortográfico(AO) entrou em vigor no início deste ano.
Enquanto, para alguns, a sua implementação será um passo em frente na caminhada de unificação ortográfica dos países que usam a Língua de Camões, para outros tendem a considerá-lo como uma cedência de Portugal, sobretudo ao Brasil, uma vez que os restantes países lusófonos utilizam a grafia Portuguesa.
Este acordo também já está em vigor, desde 2009, no Brasil.
Confesso que até ser obrigado a escrever esta nova forma do Português não me tinha dedicado inteiramente às especificidades deste acordo.
Mas agora, que sou forçado a escrever de acordo com as novas regras, comecei a ficar um pouco de “cabelos em pé”.
Este acordo tem, entre muitas outras, as seguintes alterações: passámos a escrever com minúscula o dia da semana, os meses e as estações do ano, para além de transportar com ele o facto de tudo aquilo que não se pronuncia não se escreve. Acresce a curiosidade (perversa) de permitir dupla grafia, o que facilmente se percebe que acaba por “dar para tudo”. Como se isto não chegasse, ainda temos a supressão dos acentos gráficos nalgumas palavras – pelo (de pelar) e pelo (nome) escrevem-se da mesma forma…
Se é verdade que a entrada em vigor deste verdadeiro empobrecimento da língua portuguesa foi mais uma das decisões da governação socratiana, também convém não esquecer que este Acordo Ortográfico viu a luz do dia em 16 de Dezembro de 1990 no Centro Cultural de Belém com a assinatura do então Secretário de Estado da Cultura Pedro Santana Lopes. Também não deixa de ser curioso, o próprio, tenha vindo a 1 de Março, num artigo do SOL, confessar que “não escrevo os meus textos com a nova grafia porque ainda não o decidi fazer”. Pois, rico exemplo!
Agora que o AO está em vigor e cuja maior parte dos países de Língua oficial Portuguesa ainda não se decidiu pela sua aplicação, começo sinceramente a dar comigo a pensar quais as verdadeiras vantagens deste acordo.
Os governos de Angola e Moçambique tornaram publica a sua posição recusando aplicar o AO por respeito à língua portuguesa, pretendendo preservar a sua genuinidade.
Já nem invoco aqui questões jurídicas, que manifestamente não domino, que levam a que muitos especialistas afirmem convictamente que o AO não está sequer, legalmente, em vigor.
E para terminar, não podia deixar de me referir ao facto de se ter invocado a importância do Brasil, que ninguém contesta, mas no qual não vislumbramos que o mercado editorial português tenha tido facilidades de exportação para aquele imenso mercado. Aliás, o encerramento anunciado da Livraria Camões, no Rio de Janeiro, é um (mau) exemplo em sentido contrário.
Por tudo isto, não consigo perceber quais as vantagens para Portugal da assinatura deste acordo.
* Deputado do PSD
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Caro deputado João Figueiredo:
A mim parece-me que não há nenhum acordo, há a legitimação da dominância duma forma de escrever Português que se foi construindo nos últimos anos no lado de lá do Atlântico. Enquanto não mudarem a grafia do país dominante para Braziu, não me venham com a história «de tudo aquilo que não se pronuncia não se escreve»
Antes de tudo, não compreendo as vantagens dum suposto acordo. Os anglófonos acham que não vale o esforço e não é por haver acordo que o Inglês é de facto a lingua franca do nosso tempo.
Quem quiser, pode entreter-se com o desacordo ortográfico da Língua Inglesa:
http://en.wikipedia.org/wiki/American_and_British_English_spelling_differences
Um abraço.
Meu Caro deputado:
Ficámos a saber a sua posição sobre o Acordo ortográfico, tema deveras importante e que certamente está na agenda do povo português que não tem outras coisas com que se preocupar Ex. desemprego, crise económica, fecho de serviços, cortes nos salários, aumentos brutais de impostos e de portagens cortes brutais e aumentos na saúde e educação etc.etc.etc.Mas ficámos a saber que a administração “Socratiana” que na sua opinião é a mãe de todos os males tambem contribuiu para mais esta “desgraça” do acordo ortográfico.Esperamos que no futuro o novo poder instalado não fique conhecido por “Passadista” já que nos eatá a enviar para o passado “das cantinas dos pobres” e da calça rota e pé descalço Estarei atento para ver se no futuro “deputa” (estará de acordo com a nova ortografia?) no plenário sobre o que foi este momento trágico na nossa história e como retrocedemos 50 anos no nosso modo de vida.
Acredito que o AO só continua a ser implementado em virtude da enormidade de recursos já gastos. Mas quem tem poder de decisão tem que parar e decidir racionalmente fazendo o balanço ao que está gasto e que pode ainda vir a ser gasto; às vantagens e desvantagens; ao impacto económico, financeiro e ao impacto futuro (sobre o passado histórico e civilizacional)- este mais grave de remediar já que é a cultura berço que tem que ser modelo da versão clássica de uma língua (sem que isto desvalorize a beleza das novidades regionais)…Por outro lado a ambiguidade em nada favorece a aprendizagem de toda uma geração…
Os termos em que Helena Romão coloca o problema lembra-me isto:
http://www.skepdic.com/brazil/custoirrecup.html
Caro Deputado,
Está mais que na hora, de se acabar com esta bárbara agressão ao nosso já tão delapidado Património. E por maioria de razões, os nossos representantes eleitos, têm essa obrigação. Acabar o mais rapidamente possível com esta verdadeira mixórdia ortográfica.
Exmo. Sr. Deputado,
Como se costuma dizer “mais vale tarde, que nunca”. Confesso que me faz impressão que muitos deputados só tenham compreendido o verdadeiro disparate que é o AO90 depois dele lhes ter “entrado pela casa adentro”.
As vantagens para Portugal do AO não existem. Aliás, nem é certo que existam no Brasil. Prova disso é que ainda ontem, Quarta-feira, o Senado brasileiro esteve a ouvir reputados professores sobre o AO e no final o deputado do PSDB Cyro Miranda veio dizer, após a audiência, que talvez o melhor fosse “zerar” o AO e começar tudo de novo porque o actual não tem ponta por onde se lhe pegue.
Não é má ideia e ainda se vai a tempo. Seria uma decisão bem acolhida por TODOS os povos lusófonos.
E talvez não fosse má ideia compreender que o prestígio da língua portuguesa a nível internacional não tem nada que ver com a ortografia. Os eventuais “problemas” estão na diferença entre o uso dado à língua no Brasil face aos restantes países lusófonos. São diferenças de sintaxe e de significado das palavras que estão muito para além da ortografia. Muitas outras línguas possuem as mesmas variações (sendo o Inglês o exemplo mais citado mas recordando que outras há como o Alemão, o Francês e o “espanhol” em todas as suas variantes.)
Portugal devia optar pelo respeito pela sua tradição ortográfica e parar de vez com estes “Acordos Ortográficos”. A promoção da Língua faz-se através da divulgação dos autores lusófonos, da promoção de cursos de português no estrangeiro, da celebração de acordos comerciais e fiscais que permitam maior facilidade de circulação das obras lusófonas dentro do espaço da CPLP etc. Lembre-se, por exemplo, dos impostos que o Brasil cobra aos livros importados seja de onde for. Os académicos Brasileiros nunca se queixaram, por exemplo, da ortografia dos livros mas sim da dificuldade que é importá-los para o Brasil. O futuro da língua portuguesa a nível internacional passa muito mais pela divulgação e pela supressão de entraves burocrático-fiscais e não pela elaboração de patéticos “Acordos” Ortográficos.
Sr. Deputado,
Estou à espera duma proposta de lei sua para deixar de andar com os cabelos em pé. Tem o meu maior apoio e, segundo o que me é dado a ver, da esmagadora maioria da Nação. Afinal quem o elegeu.
Fico na expectativa.
Cumpts.
Sr. Deputado,
Quando afirma «Confesso que até ser obrigado a escrever esta nova forma do Português não me tinha dedicado inteiramente às especificidades deste acordo», estará, na prática, a assumir o que será provavelmente a regra entre a maioria daqueles que têm (e dos que tiveram) assento no Parlamento, ou seja, os que aprovaram (mas também aqueles que estão agora a ajudar a implementar, quanto mais não seja pela sua passividade/apatia) um documento com consequências profundas para todos, as quais aparentemente quase ninguém na AR se dedicou seriamente a procurar inferir — e não terá sido certamente por falta de vários estudos sérios, credíveis e independentes que alertavam para as deficiências e futuras implicações nocivas do AO90.
Pergunto, pois, como creio que o farão muitos portugueses, como é que serão aprovadas muitas das propostas levadas à votação, quando aqueles que as votam confessam não se dedicar, como seria a sua obrigação — pois para isso foram eleitos — a analisar, com seriedade e sentido do dever, as implicações daquilo a que estão a dar o seu aval em nome dos cidadãos que representam.
Se só agora tomou verdadeira consciência do assunto, e dadas as suas actuais funções de deputado da maioria que presentemente ocupa o poder (e que tem insistido teimosamente em avançar com a implementação do AO, apesar da justificada contestação de que o mesmo tem sido alvo), está em excelente posição para ajudar a que a voz dos inúmeros opositores a esta barbaridade seja ouvida E TIDA EM CONSIDERAÇÃO.
Se de facto, confome afirma, não consegue «perceber quais as vantagens para Portugal da assinatura deste acordo», levante essa questão no Parlamento e peça a quem de direito uma resposta fundamentada, com factos e números, pois certamente não estará sozinho nessa pretensão. Julgo que ainda vai muito a tempo.
E, já agora, se quiser assinar a Iniciativa Legislativa de Cidadãos — em http://ilcao.cedilha.net — que pretende que a aplicação do AO seja interrompida, reanalisada e devidamente debatida, e divulgar publicamente que o fez, demonstrará uma coragem política que poucos revelam ter nos tempos que correm. Mas, se o fizer, que seja porque a isso apelam a sua sensibilidade de cidadão e o seu sentido de ética, e não tendo em vista futuros proventos políticos. Creio que não lhe ficaria bem!…
Mas isto é apenas a minha opinião, claro.
Cumprimentos