Sábado, 31 Jul 2010

Festas — Terça-feira, 5 Maio 2009 — 1 Comentário

Festa anual da Santa Cruz reviveu tradição centenária

Imagem 019.jpgA povoação de Vimieiro, do concelho de Santa Comba Dão, voltou a estar nas atenções de milhares de fiéis e romeiros com a realização da sua grandiosa festa anual da Santa Cruz, conhecendo o seu ponto alto na tradição centenária do Encontro das Cruzes e do curioso ritual da antiga submissão paroquial da igreja daquela povoação à igreja matriz de Couto do Mosteiro.
Esse cerimonial foi repetido, como habitualmente, no primeiro domingo de Maio, portanto, no passado dia 3, uma coincidência que permitiu festejar a Santa Cruz na data precisa. Nem sempre isso acontece e, nesse caso, a festa é realizada no primeiro domingo depois do dia 3 de Maio.
Transportadas pelas respectivas irmandades, chegaram primeiro ao largo do Cruzeiro, local do encontro, as cruzes de Santa Comba Dão e de Couto do Mosteiro, acompanhadas pelo padre António José Rodrigues, pároco de Óvoa, Couto do Mosteiro e Pinheiro de Ázere, e pela Banda Filarmónica de São João de Areias. Na tradição oral diz-se que “a mãe veio visitar a filha”. Reunidas ao cimo da estrada proveniente do Rojão Grande, onde aguardavam acompanhamento da mesma banda, chegaram depois as cruzes de São João de Areias, São Miguel, Pinheiro de Ázere, Óvoa e Vimieiro, igualmente transportadas pelas respectivas irmandades.
Ladeando a cruz do Vimieiro, designada de “cruz filha”, e a cruz de Couto do Mosteiro, designada de “cruz mãe”, as restantes cruzes posicionaram-se de frente para o cruzeiro, onde o pároco de Santa Comba Dão e Vimieiro, Pe. Ricardo Ferreira, e o pregador convidado, Frei Eliseu Moroni, da comunidade dos Franciscanos Conventuais de Viseu, solenizaram o Encontro das Cruzes, perante uma multidão agrupada desde a estrada aos montes envolventes. Após a saudação de Pe. Ricardo foi vez de Frei Eliseu se dirigir à multidão, questionando: “Que sentido tem a Cruz? Todos fugimos da cruz, mas estamos todos aqui a seguir a Cruz!“. Ele próprio deu a resposta: “Na Cruz está a força de Deus“.
Terminada a empolgante prédica de Frei Eliseu, seguiu-se o ritual da submissão paroquial. O portador da “cruz filha”, de joelho no chão, inclinou a mesma perante a “cruz mãe”, como que a beijá-la, dando depois três voltas em seu redor. Igual inclinação de reverência fez também perante a cruz de cada uma das outras paróquias ali representadas. Cumprido este ritual, todas as irmandades partiram em procissão, com acompanhamento musical da referida banda filarmónica, até ao adro da igreja de Santa Cruz, à volta da qual deram três voltas, antes de se posicionarem junto ao coreto da celebração eucarística campal, situado no exterior do adro da igreja, do lado sul da mesma.
Pouco faltava para o meio-dia quando os três sacerdotes deram início à Celebração Eucarística, presidida pelo respectivo pároco. Cabendo-lhe a pregação da homilia, Frei Eliseu Moroni centrou a prelecção na crise de confiança, falando desta como “valor em fim de extinção” em todas as áreas da sociedade e apontando a geração actual como uma geração de indecisos, à qual atribuiu a falta de padres e de missionários. Lançou, então, o convite aos jovens para que pensem nas escolhas fundamentais da vida e reflictam antes de se deixarem cair nas más escolhas, as quais dividiu em vários níveis, dando maior ênfase à “escolha delegada”, em que os jovens se decidem a “seguir o bando” e são forçados a fazer distúrbios, e à escolha contraditória, infiel, “sempre com a possibilidade de fazer marcha-atrás no casamento, em que tudo se torna frágil, fluído, próprio da modernidade de hoje”. Concluiu, então, que “nenhuma delas tem sentido para seguir Jesus” e exortou: “Olhem para a Cruz, para o amor de Cristo, fiel para sempre!“.
As cerimónias religiosas foram concluídas com nova procissão das irmandades e respectivas as cruzes, a seguir à missa, percorrendo dessa vez parte do espaço ocupado pelos feirantes e repetindo três voltas em redor da igreja.
Este costume terá tido origem, séculos atrás, em ritos pagãos campestres que o Cristianismo adoptou como bênção dos campos, ocorrendo precisamente em tempo de floração, prenúncio de colheitas férteis. Essa simbologia tem sido também vista no enfeite das cruzes por ocasião do reviver desta tradição, o que agora, também este ano, só foi visível na “cruz filha”.
A parte da tarde ficou reservada para a continuação da feira e a animação recreativa, cujo programa incluía um concerto de despedida da Banda Filarmónica de São João de Areias e uma tarde cultural com animação da Tuna “Unidos de São Joaninho”. Os festejos tinham sido iniciados na sexta-feira, feriado do 1.º de Maio, com animação musical, à tarde, e baile, à noite, a cargo do grupo “Broncas e Coriscos”. Também no sábado, dia 3, houve animação diurna com o mesmo grupo, e baile, à noite, com a “Banda Pacífico”. A habitual feira, com todo um imenso aparato de arraial, diversões, quermesse e comes e bebes, funcionou durante os três dias.

Lino Dias

Um Comentário

  1. António Neves diz:

    Há muitos anos que não ía à Santa Cruz e por isso não percebi bem o que se estava a passar quando vi a Cruz do Vimieiro reverenciar as cruzes das paróquias vizinhas. Ora isso não faz sentido! A Cruz do Vimieiro deve reverência à Cruz-mãe do Couto do Mosteiro e a mais nenhuma. É bem claro o reverendo António Nunes de Sousa (paróco do Vimieiro) quando no último quartel do século XIX descreve a cerimónia dizendo que “o pároco do Vimieiro vai também receber as outras cruzes e os párocos que as acompanham, mas vai só; a única recepção aparatosa é a da cruz do Couto” (Leal, Pinho – Portugal Antigo e Moderno, p. 1451). A não ser que o que interessa não seja o rigor histórico mas ou “fica mais bonito assim” e nesse caso peço desculpa por me estar a intrometer…

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