Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Terça-feira, 13 Julho 2010 — 0 Comentários
JÁ DEVERÁ TER PERCEBIDO
HÉLIO BERNARDO LOPES *
Qualquer pessoa corrente e mediana, desde que esteja atenta ao que hoje se desenrola pelo País, terá já percebido que o dito socialismo democrático português está à procura de uma escapatória para poder evitar ficar na Histórica como o mau da fita que decorre atualmente no País. Dos que assim atuam, salienta-se Mário Soares, que não pára de apontar como excelente Pedro Passos Coelho, que mais não é, afinal, que um neoliberal, domínio a que o histórico socialista democrático atribui – e aqui com razão – a culpa do desastre humanitário mundial para que a generalidade dos povos do Mundo se viram atirados na sequência da criminosa crise do capitalismo selvagem: o neoliberalismo, de que Pedro Passos Coelho tanto se diz defensor.
A História da III República Portuguesa, para lá do essencial e incontornável papel dos militares, encontrou em Mário Soares e no seu partido dois esteios fundamentais da respetiva construção. Uma construção que se suporta, ainda hoje, e mau grado as mil e uma delapidações já sofridas, na Constituição de 1976. Um documento de grande referência no plano do Direito Constitucional e do Direito Constitucional Comparado. Uma estrutura onde o Serviço Nacional de Saúde universal e gratuito constitui um indiscutível fator de progresso na saúde pública dos portugueses e na defesa do seu direito essencial à vida, independentemente dos meios materiais possuídos.
Ora, foi-me hoje mesmo possível escutar as palavras de Manuel Alegre, na sequência de um encontro que manteve com personalidades que o apoiam e se encontram ligadas ao setor da Saúde, salientando que a manutenção do Serviço Nacional de Saúde universal e (no mínimo) tendencialmente gratuito deve continuar, porque o mesmo, sobretudo num tempo de pobreza, de desemprego, de miséria e de ausência de futuro, é naturalmente ainda mais essencial à salvação da vida de quem tenha necessidade de a preservar.
Manuel Alegre terá já percebido o que pretende o PSD de Pedro Passos Coelho, e também que o permanente elogio de Mário Soares a este último, de algum modo, acabará por influenciar alguns dos nossos eleitores, invariavelmente desinteressados da vida política, e muito propensos a não pensarem, minimamente que seja, sobre o País e o seu futuro. Para lá destas evidências, Alegre terá igualmente compreendido o (quase) silêncio sobre estes riscos por parte do PCP e do Bloco de Esquerda, que pouco ou nada referem as perigosíssimas pretensões do PSD e que sempre tomam como inimigo político principal o partido que suporta o atual Governo e o seu Primeiro-Ministro.
A somar a tudo isto aí está a mais recente tomada de posição do Presidente Cavaco Silva, numa reunião que teve lugar no Estoril, e onde salientou que se impõe pôr em marcha uma nova geração de políticas públicas… Ou seja: diminuir a despesa, e promover o crescimento das exportações, embora nada seja nunca dito sobre como conseguir um tal objetivo. Resta saber o que qualquer um de há muito terá percebido: será uma tal realidade exequível? E como distribuir a riqueza assim criada? Enfim, o tudo em nada português.
Num destes dias – e não devo estar muito enganado –, com o recente reaparecimento na cena económica e financeira internas de Patrick Monteiro de Barros, se Pedro Passos Coelho chegar à governação, bom, lá surgirá, e mais uma vez, a questão da tal central nuclear… De resto, como antecâmara de tal realidade, aí está já o pedido do PSD sobre a realidade da vida do Plano Energético Nacional…
Enfim, com toda a sinceridade, eu creio que o partido de Manuel Alegre foi longe de mais, porque não se pode defender o (dito) socialismo democrático e aplicar, ao dia a dia, o neoliberalismo. Um dia – que é já o que está a viver-se neste momento – acaba por perceber-se que se ultrapassou o ponto de não-retorno político. De resto, Mário Soares, para criar uma justificação para um descalabro histórico já razoavelmente anunciado, por rápido se determinou a explicar que a escolha do apoio a Manuel Alegre poderia mesmo levar ao fim de José Sócrates e do seu próprio partido. Mas será que estas duas realidades têm alguma coisa a ver com a candidatura de Manuel Alegre, ou com o seu apoio pelo seu partido? Claro que não! O que está hoje a passar-se começou há muito, e pela mão do próprio Mário Soares. O resto é conversa para entreter os distraídos. Ou seja: Manuel Alegre já deverá ter percebido o calvário que está prestes a atingir os portugueses. E sempre através do voto democrático, no seu partido e no PSD, pois claro.
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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