Solidariedade — Terça-feira, 22 Junho 2010 — 0 Comentários
Milhares de pessoas dão a cara para salvar a casa de Aristides de Sousa Mendes
Dois dias após se ter assinalado, em Portugal e noutros países, o 70.º aniversário do dia em que Aristides de Sousa Mendes decidiu seguir a sua consciência e tentar salvar do holocausto nazi cerca de trinta mil refugiados, entre os quais se contavam dez mil judeus, reuniu-se em Cabanas de Viriato um grupo de apoiantes da iniciativa lançada no Facebook por Regina Azevedo Pinto, uma jovem advogada estagiária de Viseu, com a denominação de “Salvar a Casa de Aristides de Sousa Mendes”.
Em apenas duas semanas, cerca de onze mil pessoas registaram-se como apoiantes da iniciativa, dando a cara para uma lista de nomes que esteve exposta na parede da casa durante a tarde do último sábado, 19 de Junho, altura em que mais de meia centena de subscritores ali manifestaram presencialmente a vontade de que a velha Casa do Passal seja restaurada e transformada em Escola de Cidadania. Ante essa comunhão de vontades, estranhou-se que a comparência de gente do próprio concelho não tenha completado a dezena de presenças.
“RECUPERAR A CASA TRANSFORMANDO-A NUMA ESCOLA DE CIDADANIA” era, efectivamente, o apelo exibido a toda a extensão do gradeamento de ferro, à frente da casa, emparceirando com outro cartaz que clamava atenção para a necessidade de “SALVAR A CASA DE ARISTIDES DE SOUSA MENDES”. Além da exposição destes apelos, foi entregue por Regina Azevedo Pinto ao administrador da Fundação Aristides de Sousa Mendes uma lista com os nomes dos apoiantes que através do Facebook subscreveram a iniciativa, juntamente com uma petição que o mesmo deverá fazer chegar ao presidente da Assembleia da República apelando para que a velha casa em ruínas seja rapidamente restaurada e para que a sua transformação em Escola de Cidadania seja apoiada.
A iniciativa de Regina Azevedo Pinto foi elogiada na intervenção de diversos oradores, entre eles: Atílio dos Santos Nunes, presidente da Câmara Municipal de Carregal do Sal; Luís Humberto Fidalgo, vice-presidente da Câmara e vogal da Fundação Aristides de Sousa Mendes; João Carlos Figueiredo, deputado do PSD na Assembleia da República; Álvaro de Sousa Mendes e António Moncada de Sousa Mendes, netos de Aristides de Sousa Mendes e administradores da Fundação com o seu nome; Noslen, artista plástico de Mangualde; Hermínio Cunha Marques, escritor, de Carregal do Sal, autor do livro épico “O Cônsul Português em Rimas de Acentos Humanitários”; Maria Leonor Amaral, professora da EB1 Casalinho da Ajuda (Lisboa); Lurdes Paraíso, professora de EB 2/3 de Vila Nova de Tázem; e Carlos Adolfo d’Aguiar, professor aposentado do ensino primário, de Cabanas de Viriato, primo de Aristides de Sousa Mendes.
Em declarações ao «Farol da Nossa Terra», Regina Azevedo Pinto explicou que avançou com esta iniciativa por sempre ter admirado Aristides de Sousa Mendes, sendo para ela “uma figura muito querida”, e por lhe causar pena ver a casa em que o mesmo viveu num adiantado estado de degradação. “É um acto de justiça para com Aristides de Sousa Mendes dar vida a esta casa”, salientou. Segundo esclareceu, sempre se sentiu sensibilizada para com o estado da casa, tanto pelas vezes que a visitou com seus pais como pela leitura de livros sobre Aristides de Sousa Mendes. Acerca da forma como o encontro decorreu, disse: “Correu muito bem, dentro das minhas expectativas”.
“É uma iniciativa muito válida, muito especial, que nos dá esperança quanto ao futuro desta casa, pois já envolve mais de dez mil pessoas, e envolve gente muito empenhada nesta causa”, declarou, por sua vez, Álvaro de Sousa Mendes. Acrescentou: “Com a petição que vamos entregar ao Sr. Presidente da Assembleia da República, acredito que, conjugados todos estes factores, a reconstrução da casa irá para a frente, podendo esta petição ser o pontapé de saída enérgico para isso”.
Para o presidente da Câmara, “estas iniciativas são importantes para mobilizar outras vontades”. Nas declarações prestadas ao «Farol da Nossa Terra», voltou a frisar o que tinha dito na sua intervenção deste encontro, tomando como menos merecidas as honrarias concedidas a José Saramago, no transporte e na chegada do seu caixão a Lisboa, do que as honrarias que Aristides de Sousa Mendes devia ter por parte do governo português. “Já não digo mais, mas merecia, pelo menos, tantas atenções como as que deu ao Saramago, que apenas escreveu para proveito próprio, enquanto que Aristides de Sousa Mendes viu a sua vida arruinada e morreu na miséria por salvar outras vidas”, sublinhou Atílio Nunes. Relativamente à intervenção que a autarquia possa ter na reconstrução da casa, observou: “Não é trabalho só da Câmara, é também do governo, tem que dar o seu apoio”.
Além do deputado João Carlos Figueiredo, também Acácio Pinto (clicar), deputado do PS na Assembleia da República, marcou presença no encontro. Ambos estão motivados para fazerem tudo o que lhes for possível no sentido de que a recuperação da casa seja uma realidade, desejando vê-la ao serviço da comunidade enquanto local de memória e escola de cidadania, perpetuada como símbolo mundial da defesa dos direitos humanos.
A petição que vai ser entregue na Assembleia da República visa, além da recuperação da casa, a integração da mesma no património escolar nacional, de forma a poder ser contemplada no projecto, em curso, da remodelação das escolas pelo Parque Escolar e transformada numa Escola de Cidadania, que funcione como uma extensão de todas as escolas nacionais. Diz Regina Azevedo Pinto que, para o efeito, será necessário um montante de cerca de dois milhões de euros, representando apenas 0,08 por cento da verba total que o governo está a gastar actualmente com a recuperação de escolas do ensino secundário.
A iniciativa contou ainda com a adesão de artistas plásticos do distrito de Viseu, partindo do pintor Noslen, de Mangualde, a ideia de, durante o encontro, executarem trabalhos em homenagem a Aristides de Sousa Mendes. Além do mesmo, colaboraram na iniciativa Alcídio Marques, Ricardo Rodrigues, Manuel Paraíba e Luís Duro, todos de Viseu. “Esta casa merece outro trato, é uma bela casa, é uma bela causa, é uma causa que merece a nossa atenção”, disse Noslen ao «Farol da Nossa Terra», acerca da presença dos pintores. Os quadros ali executados vão dar lugar a uma exposição itinerante durante este ano de comemoração do 70.º aniversário do dia em que Aristides de Sousa Mendes, contrariando ordens superiores, começou a passar os vistos com que salvou milhares de refugiados da segunda guerra mundial. A exposição terá início no Museu Municipal de Carregal do Sal.
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