Opinião — Terça-feira, 1 Junho 2010 — 0 Comentários
Não me alegro…
ARTUR FONTES
«Queiramos pensar um pensamento que se imponha aos homens pela sua justeza»
António Sérgio, 1920
António Sérgio, no prefácio do seu primeiro volume de “Ensaios”, convida-nos ao «(…) culto da lucidez, da ordem, da coerência e do espírito prático, ao idealismo com senso comum e à forma simples sem ser trivial (…)».
Este homem das letras e do pensamento, falecido em 1969, manteve sempre uma postura exemplar de verticalidade cívica e moral, durante a sua vida. Por isso, apelava ao rigor: «(…) Consideremos responsável da intranquilidade pública quem quer que não busca corporizar a ordem—-a exactidão, a probidade–na frase que diz ou na estátua que esculpe, na tela que pinta ou na prosa que escreve, no verso que canta ou na casa em que mora(…)». (op.cit.)
Pedagogo e investigador, homem de uma honestidade intelectual a toda a prova, íntegro e de intenso trabalho em diversas áreas, viu-se, por isso mesmo, frequentemente preso: 1910, 1933, 1935, 1948 e 1958.
Diria, António Sérgio: «a minha fidelidade à própria inteligência havia de levar-me a este antipático papel de sempre resistir, contrariar, combater, que tem sido o meu destino».
Opositor aos pensamentos dogmáticos e às verdades sem discussão ou fixas, foi um dos muitos portugueses que se uniram e propuseram a candidatura do General Humberto Delgado à presidência da República, (1958) em oposição ao candidato escolhido por Salazar, o Almirante Américo Tomás, e pela instauração das liberdades e da democracia, neste país mergulhado numa ditadura, a qual, anteriormente, o haveria levado ao exílio a Paris e a Madrid. Também tinha já sido apoiante, em 1945, da candidatura pela oposição, do General Norton de Matos.
Nos dias de hoje, começam a aparecer os candidatos às próximas eleições presidenciais. Pela parte do PS, ou dos seus dirigentes, foi decidido apoiar o já candidato Manuel Alegre. Não é o meu!
Defendo que, nas circunstâncias actuais, de uma crise quase sem precedentes e transversal a toda a sociedade portuguesa, o PS deveria ter, por obrigação, encontrado em conjunto com outras forças políticas, nomeadamente, com o PSD, um candidato que representasse a unidade nacional. Um candidato que, pelo seu perfil de idoneidade moral, de isenção, de trabalho, de inteligência, de pensamento, com uma visão moderna e europeia; conhecedor profundo das realidades abrangentes da sociedade; um candidato que representasse ser o verdadeiro símbolo do que representa ser-se presidente da República, na hora actual; deveria ter sabido perceber, que na hora difícil dos dias de hoje, um presidente não pode ser somente de uma “parte” da sociedade! O perfil desse presidente terá que ser obrigatoriamente visto por todos como o “calor” de que precisamos; do “consolo” que necessitamos; o “exemplo” vivo e sem “dúvidas”, que nos dará força interior para podermos vencer os dias trágicos que ainda virão, porque ele transmitir-nos-á essa força anímica; como que um “resguardo” da intempérie para recuperarmos forças.
Hoje, não se trata de um presidente de “esquerda” ou de “direita”. O tempo é outro! E, a chamada esquerda, especialmente o PS, que pela sua vocação política e ideológica, deveria ter compreendido e dar o exemplo do que é a ética das responsabilidades, da generosidade, do espírito de saber colocar a Pátria acima de tudo. Deveria ter sabido educar pedagogicamente as novas gerações que querem abraçar a política com uma escolha em que todos nos revíssemos!
Por isso, estou inteiramente, de acordo com as palavras cheias de saber político do Dr. Mário Soares, escritas e publicadas hoje. (“D.N”, 1 de Junho 2010).
Devo dizer, que tenho por Manuel Alegre um enorme respeito pela sua obra literária e pelo seu combate pelos ideais de Liberdade. Mas, isso não chega e nem basta para a hora actual. Por isso, não me alegro.
Termino com o que António Sérgio escreveu: «Ao caprichismo na vida do espírito há-de corresponder necessariamente o desregramento social: por isso o combate pela disciplina clássica se nos impõe agora imperativamente, como condição prévia e indispensável da regeneração da nossa Pátria», (op. cit) isto é, ao culto da lucidez e do pensamento que se imponha pela sua justeza!
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