Opinião — Terça-feira, 27 Julho 2010 — 0 Comentários
O PROBLEMA DOS EXAMES NACIONAIS
HÉLIO BERNARDO LOPES *
Surgiu há dias, quase certamente de um modo recorrente, o já histórico problema do exame nacional, como mecanismo de decisão sobre o acesso ao ensino superior público. E, como sempre teria de dar-se, lá voltou o referido exame a ser posto em causa, sendo pedido o respetivo fim.
Bom, não posso estar mais em desacordo, salientando, desde já, o enormíssimo risco que uma tal decisão sempre representaria. Mas para que se possa perceber a razão de ser desta minha opinião, exponho de seguida uma história que teve lugar numa faculdade pública portuguesa de prestígio.
Em certa disciplina do curso professado nessa faculdade a avaliação do conhecimento dos alunos, ao longo do semestre, fazia-se por duas vias: avaliação contínua, essencialmente a cargo de assistentes e monitores, e exame final, da responsabilidade do regente da disciplina.
Ora, em dado ano deu algum brado o caso de um aluno que conseguiu onze valores no âmbito da avaliação contínua em certa disciplina, mas em que apenas conseguiu um valor no respetivo exame final. Estudado o caso de imediato, por rápido se percebeu que a fantástica discrepância se ficara a dever à muito má capacidade para proceder à avaliação contínua dos alunos por parte do docente que teve a cargo este caso, bem como outros, embora com muito menos discrepância do que o atrás referido.
Pois, isto mesmo é o que, com elevada probabilidade, poderá vir a ter lugar se o critério fundamental do exame final vier a ser posto de lado. Este critério – o do exame final – é o único que possui caráter universal, porque a avaliação contínua sempre poderá variar de escola para escola, sendo que nos meios mais pequenos, onde toda a gente se conhece, e onde existem senhores e Senhores, poderão estar sempre presentes efeitos derivados de amizades pessoais ou familiares. O próprio José Luís Saldanha Sanches, infelizmente já fora da nossa companhia, isso mesmo referiu, como possibilidade a ter em conta, ao nível do que designou como podendo ser a captura de alguns magistrados, referindo até o histórico caso dos juízes de fora, como meio de a tal evitar.
Por tudo isto, nada há, na lógica destas coisas, que justifique o fim dos exames finais como elemento essencial de seleção no acesso ao ensino superior. Pôr-lhe um fim, ou desvalorizá-lo mais ainda, é abrir a porta ao caciquismo de todo o tipo, acabando por criar as condições que venham a permitir, em muitos casos, a entrada por via das influências pessoais ou locais.
Será que virá aí nova asneira política em matéria educativa? A ver vamos.
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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