Quarta, 08 Fev 2012

Opinião — Domingo, 21 Março 2010 — 1 Comentário

Os “seareiros”: Um exemplo

ARTUR FONTES *

Artur. Fontes.jpg.

«o entusiasmo é bom, porque eleva o espírito;
mas a crítica é melhor ainda – porque o esclarece»

Cit. por António Sérgio, 1923

Acrescenta, ainda, António Sérgio, «a crítica (…) que vem da inteligência e do coração, (…) não a que vem da inércia, do partidarismo, ou do cepticismo».

António Sérgio, Raul Brandão, Raul Proença, Azeredo de Perdigão, Ribeiro Sarmento Pimentel, Jaime Cortesão, Emílio Costa, Luís da Câmara Reis, Rodrigues Miguéis, Aquilino Ribeiro, entre outros, foram os grandes intervenientes na procura de soluções e propostas para uma Reforma da República, através dos seus escritos publicados na Revista “Seara Nova”, na sua primeira fase.

Sottomayor Cardia, na Antologia que organizou, sobre estes pensadores desta Revista, escreveu: «todo o empenho militante dos seareiros se media pelo intento de criar elites verdadeiramente conscientes do seu papel na construção de uma sociedade diferente: elites intelectuais, políticas e sindicais. Era um amplo inquérito às causas da crise portuguesa, do estudo dos meios mais eficazes para debelar (…) era uma obra de clarificação das ideias, da lúcida persuasão, do audacioso amor à acção e à realidade que os seareiros esperavam a regeneração da vida portuguesa, a consolidação das instituições republicanas e a vitória das aspirações democráticas mais avançadas» ( in Seara Nova, Antologia, Vol.I, p. 27). E, caracteriza-os desta maneira: «A tal tarefa, meteu ombros, na Seara, um grupo de intelectuais que poderiam com facilidade fazer proeminente carreira política em alguns dos principais partidos. Recusaram-no contudo». No entanto, estes homens exemplares pela sua coragem e idoneidade moral e cívica, não deixaram de colaborar com outros sectores de opinião. Deixaram os seus intentos bem expressos, logo no primeiro número daquela revista, publicado no Século passado: «Queremos constituir na Seara Nova um núcleo de homens de boa consciência e vontade enérgica dispostos a assumir perante a espoliação, a rapina, o egoísmo e a mentira nacionais uma violenta e sistemática atitude de protesto (…) Queremos instaurar o processo de todos os escândalos, sejam quais forem os seus actores e responsáveis» (in “S.N”, nº1, 1921).

No nº 2, desta notável revista de então, Jaime Cortesão escrevia: «Os homens que dirigem a Seara Nova, nunca será demasiado repeti-lo, não (…) se movem por ambições políticas pessoais. (…) Querem, sim, unir esforços e as boas vontades isoladas para uma acção comum. Querem formar (…) uma opinião pública consciente (…) que escolha os verdadeiros chefes e exija uma governação com fins de puro interesse nacional. Sabem que, sem isso, não há revoluções nem reformas que valham» (in “S..N”, vol. II,)

Através dos textos desta revista, poderemos perceber do esforço desenvolvido por aqueles republicanos e democratas que nos precederam há muitas décadas atrás. Avisaram, alertaram e propuseram caminhos para reformar a nossa República. Estiveram atentos aos mais diversos problemas que afligiam o País, e explicavam ser «o mais grave problema português, o primeiro que desejaríamos ver a caminho da resolução, é o da educação das classes populares, – e sobretudo das classes dirigentes». No mesmo número avisavam para que «enquanto a selecção dos representantes do povo e a dos membros do poder executivo se não fizer entre os melhores – intelectual, moral e profissionalmente considerados (…) Nunca será possível, sem a menor dúvida, um perfeito governo democrático» (Rodrigues Miguéis, nº 39, 1924, in op.cit, vol.II, p. 72).

Contra os males que dilaceravam o País, estes pensadores levantaram-se em apelos. Poucos anos mais tarde, Portugal entraria numa das mais longas ditaduras da História Contemporânea. Muitos destes homens, de patriotismo e formação cívica elevada, para além de uma craveira intelectual notória aliada a uma humildade de quem apenas pretendia servir a Nação e a República, viram-se pela ditadura, exilados, proibidos de ensinarem e de exercerem as suas profissões. Expulsos os “cérebros”do País, este ficaria debilitado e o espírito deixar-se-ia de poder esclarecer, por falta de crítica, com as consequências por todos nós conhecidas.

* Deputado Municipal, PS, Carregal do Sal

Um Comentário

  1. Reformista Holistico diz:

    Portugal chegou a um momento de encruzilhada política, seja ao nível central como autárquicos, e exige-se aos líderes deste país que sejam, não só responsáveis, como acima de tudo competentes.
    Este artigo, deve-nos fazer pensar nas diversas atitudes que os partidos políticos, sejam eles quais forem, têm tido nas escolhas para as elites dos mesmos. Há 30 anos as escolhas recaiam em gente com créditos firmados no mundo do trabalho e que traziam à politica um saber acumulado de uma carreira de sucesso e que estavam na politica com “espírito de missão”, e o momento exige que haja uma “reforma holística”, a começar por essa escolha, mas sobretudo no modus operandi da classe politica, não esquecendo o simples votante, pois a este, o momento exige um voto inteligente.
    Foi esse espírito de missão que levou estes intelectuais citados no texto a reunir esforços para um bem comum – PORTUGAL, levando-os a discutir soluções e estratégias que levaram ao sucesso pretendido, em vez de se discutir indefinidamente o problema.
    Todos temos que mudar de atitudes para podermos em conjunto mudar o nosso destino, pois o passado trouxe no presente um balanço é altamente negativo. Exige-se mais profissionalismo em toda a escala hierárquica de qualquer organização a começar pela maior – o Estado.
    Continuarei a intervir sempre que me for oportuno, com uma visão reformadora e construtiva no sentido de contribuir para um futuro melhor.

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