Assistência Social — Quarta-feira, 14 Janeiro 2009 — 1 Comentário
RUI CERDEIRA, gerente da Clínica de Recuperação e Tratamento da Toxicodependência, em entrevista
“Se todos nós fizermos um bocadinho em prol do próximo, em prol de quem necessita, em prol desta população carenciada, desta ou a outros níveis, de certo que as nossas sociedades futuras serão muito mais saudáveis, muito mais alegres, e é muito mais estimulante do que fecharmo-nos na nossa concha e só preocuparmo-nos em ajudar a nós mesmos, olharmos só para o nosso umbigo” – Rui Cerdeira
Desde há meio ano, a completar no final deste mês, que já funciona a CRTT – Clínica de Recuperação e Tratamento da Toxicodependência, sedeada em Carregal do Sal, cuja instalação levantou alguma apreensão na comunidade local, temendo que o contacto dos seus utentes com a população fosse fonte de proliferação do flagelo que é a toxicodependência e o alcoolismo.
Afinal, todos os receios eram infundados, a CRTT funciona quase sem a população se dar conta da sua existência e até dos importantes resultados já conseguidos em tão pouco tempo de actividade.
À sua frente está Rui Cerdeira, com raízes familiares em Carregal do Sal, antiga glória da equipa de futebol do Sporting Clube de Portugal, o qual reparte a gerência da CRTT em sociedade com os seus dois filhos: Rui David Cerdeira e Filipe Gonçalo Cerdeira, de 25 e 19 anos de idade, respectivamente.
No dia 30 de Dezembro de 2008, portanto, há pouco mais de duas semanas, foi assinado o compromisso de colaboração entre as entidades que constituem o Núcleo Territorial de Combate à Toxicodependência de Carregal do Sal, onde a CRTT faz parceria com a Câmara Municipal de Carregal do Sal, o Agrupamento de Escolas de Carregal do Sal, o Agrupamento de Escolas de Cabanas de Viriato, a Escola Secundária/3 de Carregal do Sal, o Centro de Saúde de Carregal do Sal e o Centro Distrital de Segurança Social de Viseu.
Tendo em conta tudo isso, achámos por oportuno entrevistar Rui Cerdeira, o que em boa hora fizemos, já que nos permitiu conhecer a sua componente altruísta, que provavelmente a todos passaria despercebida e a CRTT continuaria a ser olhada com o mesmo distanciamento e a mesma apreensão.
Lendo atentamente a entrevista, facilmente se concluirá que a CRTT deu outra dimensão ao nome de Carregal do Sal, ao próprio concelho e até à região em que está inserido. É caso para desejarmos um futuro risonho ao projecto da CRTT e dizermos, em unanimidade: Parabéns, Rui Cerdeira!

ENTREVISTA
Farol da Nossa Terra (FNT) – Com meio ano de actividade, o que é hoje esta Clínica?
RUI CERDEIRA – Hoje, é a realidade de um projecto, de uma ambição que, afinal, está concretizada. Começou a trabalhar a partir de 1 de Agosto de 2008. Iniciou-se, naturalmente, numa fase inicial com poucos residentes, mas já tivemos aqui 22 residentes, o que é uma taxa muito boa, mais a mais quando as convenções são só para 20 camas, embora se saiba que são tratamentos no máximo de 12 meses. Naturalmente, sairão uns e virão outros. No fundo, aquela ambição inicial está-se a concretizar, porque está-se a dar apoio a pessoas altamente carenciadas, alguns sem-abrigo, em que se não for a Segurança Social a apoiá-los financeiramente, muitas vezes, não há hipótese de tratamento para esta gente. Temos agora a vantagem que tanto ambicionámos, que era o apoio a nível do IDT, tem-nos estado a dar o apoio que sempre nos prometeu e, nesse aspecto, estamos agradecidos, porque tem estado na primeira linha em termos de apoios.
Fazemos aqui um trabalho essencialmente social, embora seja uma instituição privada, mas trabalha-se essencialmente com pessoas carenciadas. Estamos contentes, porque também fazemos parte da linha da frente para ajudar esta gente, não só em termos de dependência tóxica, mas também de alcoólicos.
FNT – Em que medida são esses apoios do IDT (Instituto da Droga e da Toxicodependência)?
RUI CERDEIRA – O IDT suporta 80% do tratamento dos residentes.
FNT – Qual é a dotação de utentes da Clínica?
RUI CERDEIRA – A dotação são 38. O problema que se coloca aqui é que convencionados pelo IDT só estão 20 camas e aí, naturalmente, as restantes ou é a título particular ou, então, não havendo essa capacidade, o IDT só se responsabiliza pelas tais 20 camas convencionadas.
FNT – São esses 20 residentes que a Clínica agora tem?
RUI CERDEIRA – Reduzimos para 18, porque isto tem alguma flutuação também, depende muito, mas de qualquer maneira estamos a falar de pessoas que vêm dos Açores, da Ilha da Madeira e do resto do país, tanto do Sul como do Norte. Sendo uma instituição única no distrito de Viseu, temos capacidade para albergar pessoas, venham de onde vierem.
FNT – Essa redução de residentes tem a ver com quê, foram tratados, desistiram, não tinham posses?
RUI CERDEIRA – Tem a ver mais, alguns, com tratamentos, feitos com algum sucesso, pensamos nós, embora a este nível o sucesso seja muito efémero, porque há sempre aquela situação em que pode haver uma recaída. Houve também algumas desistências. Nós vivemos um pouco com o sucesso, mas também com alguma impotência, porque há pessoas que pensam que ao fim de um ou dois meses estão completamente recuperados, e depois a vida lá fora, infelizmente, obriga-os a mudar de opinião.
FNT – Ter agora 18 residentes quando a dotação é de 38 traz dificuldades de manutenção?
RUI CERDEIRA – Traz sempre, temos que viver com isso, mas é caso para dizer, já que temos aqui o staff todo, o ideal é estarmos cheios. Não é isso que neste momento está a acontecer, também porque o IDT só suporta 20 camas. Todas as outras, tem de ser a nível particular feito esse pagamento, o que não é fácil, porque a crise está instalada em várias áreas da nossa sociedade. Portanto, não há assim aquela capacidade para ter o familiar ou o amigo em tratamento. De qualquer maneira, fica sempre muito menos oneroso do que ele estar todos os dias aí na rua a consumir. E, sabe-se lá até os problemas sociais que acarreta para conseguir esse dinheiro para o sustento do próprio vício! É complicado, mas é essa a realidade.
FNT – Qual é o nível de doença dos residentes da Clínica?
RUI CERDEIRA – A doença é a dependência, a nível do álcool e das drogas. As grandes dependências são essas.
FNT – Em que fases de dependência têm chegado à Clínica?
RUI CERDEIRA – Quando chegam aqui vêm num estado adiantado de dependência, mas depois passam por uma fase primária e uma fase secundária, estando estes mais perto da recuperação. São passos que têm de ser dados em termos da própria recuperação. No fundo, as dependências que nós estamos aqui a tratar são a nível do álcool e das drogas.
FNT – Que pessoal assegura esse tratamento?
RUI CERDEIRA – São duas psicólogas, um psiquiatra, um conselheiro e dois monitores.
FNT – Qual é a função do conselheiro?
RUI CERDEIRA – É o responsável que no terreno faz com que o programa do modelo Minnesota seja cumprido e que tem uma experiência enormíssima nessa área.
FNT – Quem exerce a direcção clínica?
RUI CERDEIRA – É a Dra. Marta Santos, psicóloga clínica. Ela é que é a directora da unidade terapêutica, portanto, é a directora clínica. Temos também o Dr. Octávio Torres, que é o director clínico da ala de desabituação. São eles os responsáveis clínicos da CRTT.
FNT – O que falta para que cheguem mais residentes à Clínica?
RUI CERDEIRA – O que falta é impormo-nos cada vez mais junto das famílias. De resto, há aqui qualidade em termos de staff técnico. No fundo é isso, a própria divulgação terá de ser feita, neste caso, com os próprios residentes. É uma unidade que está a tentar impor-se e implementar-se no mercado. É uma unidade de saúde e, naturalmente, com as mesmas ambições de que amanhã será melhor do que hoje.
FNT – Os serviços da Clínica estão a colher rentabilidade, face ao investimento aqui feito?
RUI CERDEIRA – Não, não é em 5 meses que isso se consegue. Existe a perspectiva, sim senhor, de que melhores dias hão de vir. Temos noção de que, face ao investimento que está aqui feito, há muito caminho pela frente, há que haver muito sacrifício, muita entrega, porque para ser rentabilizado tudo o que está aqui têm de passar uns aninhos. No fundo, conforta-nos sentir que nós somos parte da recuperação desta gente, somos parte activa na recuperação dessa gente, e é isso que também nos motiva e nos estimulou há uns anos atrás a avançarmos com um projecto destes. É caso para dizer, em termos sociais, a nossa parte está a ser feita, estamos a tentar dar mais saúde a um grupo da nossa população que é carenciado e, como todos nós sabemos, com uma grande dependência. Muitas das vezes esta dependência provoca problemas a níveis sociais, de segurança e até de saúde. É uma população de risco.
FNT – A procura que a Clínica está a ter já dá alguma satisfação ao vosso projecto?
RUI CERDEIRA – Sim, já é um grande estímulo, fazendo também nós parte da equipa que está para os ajudar. Estimula-nos saber que há pessoas que saem daqui recuperadas, apesar de não sabermos por quantos anos, mas ficamos contentes por essas pessoas saírem daqui recuperadas. Sabemos o quanto é efémera, às vezes, esta recuperação, porque há sempre o risco de lá fora, ao fim de um ou dois meses, se aperceberem que não estão tão fortes como pensavam que estavam. Isso é uma verdade!
FNT – Também estão a ser tratadas pessoas destas redondezas?
RUI CERDEIRA – Sim, mas em menor número. A maioria é dos Açores, da Madeira, de Lisboa e do Porto.
FNT – Há alguma razão para esse menor número de pessoas das redondezas?
RUI CERDEIRA – Temos noção de que nesse aspecto podíamos ser mais rentabilizados, estamos em condições para que exijam mais de nós.
FNT – Falando do próprio concelho, a Rede Social não canaliza para aqui necessitados de tratamento?
RUI CERDEIRA – As Câmaras podiam ter um papel fundamental no sentido de os encaminhar, como até já sucedeu, por exemplo, com a Câmara de Mortágua. Também temos de ter em conta que estamos numa fase embrionária, ainda temos que mostrar alguma credibilidade, mostrar trabalho. Pelo menos da nossa parte, temos vontade de o mostrar. Agora, depende do envio através dessas unidades de residentes para a CRTT.
FNT – O compromisso de colaboração do Núcleo Territorial de Combate à Toxicodependência, recentemente assinado, de que a Clínica também é parceira, não assegura já esse envio?
RUI CERDEIRA – Isto não funciona com parceria, mas foi forma de eles acreditarem que aqui é um bom espaço para onde possam encaminhar essas pessoas.
FNT – Essa acção está concertada, a nível do Núcleo de Combate à Toxicodependência?
RUI CERDEIRA – Há contactos, não só a esse nível, mas também a nível interno do próprio IDT. O IDT, em Lisboa, já enviou informação para todos os Centros a nível nacional da existência da nossa clínica, até pelas convenções que já estão protocoladas. Nós enviámos informação às Câmaras de que estávamos ao dispor dos seus munícipes e, a partir daqui, não há mais nada a fazer, é só esperar que acreditem no potencial da nossa equipa e nas instalações da unidade.
FNT – Que garantia dá a Clínica aos familiares das pessoas que necessitam destes tratamentos?
RUI CERDEIRA – A garantia que damos é que existe aqui um staff técnico com conhecimento, que estamos aqui prontos para ajudar a diminuir a dependência dos internados que nos confiam. Há aqui uma equipa de trabalho com reconhecida capacidade e uma vontade enorme de rapidamente erradicar as dependências que existem em termos dos internados.
FNT – Tem-se constado que a nível da Região Centro, é a única clínica do género de tratamento e recuperação com estas condições. Isso é verdade?
RUI CERDEIRA – Que eu conheça, sem dúvida nenhuma! Eu já conheço algumas comunidades, poucas têm as condições que nós temos aqui. Isso é verdade. Agora, é preciso que as pessoas olhem para nós, quem tiver necessidade de nós, estamos aqui de braços abertos para os receber e para os ajudar.
FNT – Tendo feito carreira profissional de futebolista e continuado depois a dedicar-se ao futebol, na formação de jovens promessas, por que optou agora por este projecto?
RUI CERDEIRA – Não é, realmente, uma actividade da minha área, mas todos nós devemos ter responsabilidades em termos sociais e não nos podemos, de maneira nenhuma, afastar nem demitir das nossas obrigações sociais. Da minha parte, da parte que me toca, como costumo dizer, está a ser feita a obrigação de ajudar quem necessita. Podia ir para uma outra área qualquer, mas até por algumas experiências negativas que conheci com colegas meus no futebol, e lidei com algumas pessoas badaladas que morreram com overdoses ou caíram na miséria devido à dependência do álcool e das drogas, senti a necessidade, da minha parte, de ajudar quem precisava e quem precisa, e por isso esta minha opção. É uma opção que eu quero acreditar que seja a correcta. Acima de tudo, sinto-me útil e sinto que estou a ajudar quem tem muita necessidade dessa ajuda.
FNT – Pode-se, então, dizer que a sua opção tem também algo de altruísta?
RUI CERDEIRA – Não sei se será isso, mas o que eu penso, como cidadão, é que se todos nós fizermos um bocadinho em prol do próximo, em prol de quem necessita, em prol desta população carenciada, desta ou a outros níveis, de certo que as nossas sociedades futuras serão muito mais saudáveis, muito mais alegres, e é muito mais estimulante do que fecharmo-nos na nossa concha e só preocuparmo-nos em ajudar a nós mesmos, olharmos só para o nosso umbigo. No fundo, o meu objectivo é um pouco esse. Quero transmitir aos meus dois filhos que o pai, pelo menos, está aqui predisposto a mudar de actividade profissional em prol de alguém que precisa. Por isso é que eu digo que isto me estimula bastante, no dia a dia estou empenhado em ajudar o próximo. Isso para mim é tão gratificante e tão estimulante como se me tivesse saído o totoloto.
FNT – Sente-se compensado de ter trocado uma actividade menos preocupante por esta, ser altruísta compensa isso?
RUI CERDEIRA – A outra actividade, em termos do meu ego, satisfazia-me bastante, aliás, sempre foi a minha vida, sempre estive ligado ao futebol e ao desporto, mas alimentava-me o ego, só me alimentava a mim, e neste momento, se calhar, sinto necessidade de ser alimentado também por outras situações. O saber que estou a ajudar quem necessita e quem precisa de ajuda já me satisfaz, alimenta-me o ego doutra maneira e enriquece-o mais, até, desta maneira.
FNT – Os seus dois filhos estão na sociedade com o mesmo espírito?
RUI CERDEIRA – Perfeitamente, estão com a mesma abertura, embora estejam numa fase de formação. O mais velho está a estudar na Universidade, vai acabar este ano o curso, e o mais novo está no 12.º ano, mas no fundo, não estando para já presentes nesta actividade do pai, estão a apoiá-lo a mil por cento.
Lino Dias
Um Comentário
Deixe um Comentário
Cronistas
Agenda
- Emprego Jovem, Perspetiva e Horizonte
- Energias Renováveis e Eficiência Energética
- Assinatura do protocolo
- Intercâmbio musical
- Noite de Fados
- Carnaval Infantil
- MEMÓRIAS DE ‘UMA’ ESCOLA
- Futebol de Benjamins
Comentários Recentes
- Sr. Lino, obrigadesima por postar sobre ...
- Ontem mesmo, ouvi um comentario assustad...
- Um abraço de parabéns.
Amadeu Coelho...
- Estudei neste colégio nos anos 70 i 71, ...
- tenho muito orgulho em pertencer a este ...
- Não sou de Lagares mas a minha mãe é por...
- 60 anos de ditadura.
Os outros que s...
- E PARECE QUE VAI CONTINUAR,CARISSIMA PRO...









Há obras que se demarcam das outras pela filosofia que as orientam. Caso desta: O altruísmo e o humanismo.
Ajudar a integrar as vítimas das doenças sociais, entre elas, as que estão em causa, as quais dão lucros fabulosos, é uma tarefa pedagógica e de relevo.
Parabéns.