Sexta, 03 Set 2010

Festas — Segunda-feira, 5 Maio 2008 — 0 Comentários

Santa Comba Dão – Festa religiosa anual da Santa Cruz manteve tradição centenária

Imagem 044.jpgMantendo a sua tradição centenária, em primeiro domingo de Maio, realizou-se ontem, dia 4, de manhã, a festa religiosa anual da Santa Cruz na povoação de Vimieiro, incluindo a habitual cerimónia do Encontro das Cruzes e o curioso ritual da antiga submissão paroquial da igreja daquela povoação à igreja matriz de Couto do Mosteiro.
Transportadas pelas respectivas irmandades, chegaram primeiro ao largo do Cruzeiro, local do encontro, as cruzes de Santa Comba Dão e de Couto do Mosteiro, acompanhadas desde o fundo da povoação pela Banda Filarmónica de São João de Areias. Reunidas ao cimo da estrada proveniente do Rojão Grande, onde aguardavam acompanhamento da mesma banda, chegaram depois as cruzes de São João de Areias, São Miguel, Pinheiro de Ázere, Óvoa e da Santa Cruz, igualmente transportadas pelas respectivas irmandades.
Ladeadas pela cruz do Vimieiro, designada de “cruz filha“, e pela cruz de Couto do Mosteiro, designada de “cruz mãe“, as restantes cruzes posicionaram-se de frente para o cruzeiro, onde o pároco de Santa Comba Dão e Vimieiro, Pe. Ricardo Ferreira, e o pregador convidado, Frei Eliseu Moroni, da comunidade dos Franciscanos Conventuais de Viseu, solenizaram o Encontro das Cruzes, perante uma multidão agrupada desde a estrada aos montes envolventes. Na sua saudação, Pe. Ricardo lembrou que era dia da Ascensão de Nosso Senhor e Dia da Mãe, associando daí mais significado festivo ao cerimonial. Frei Eliseu interpretou a presença das irmandades e daquela multidão da seguinte forma: “A nossa presença aqui foi para dizermos que queremos ser cristãos a sério“.
Seguindo-se o ritual da submissão paroquial, o portador da “cruz filha“, de joelho no chão, inclinou a mesma perante a “cruz mãe“, dando depois três voltas em seu redor. Igual inclinação de reverência fez também perante a cruz de cada uma das outras paróquias ali representadas. Cumprido este ritual, todas as irmandades partiram em procissão, com acompanhamento musical da banda filarmónica, até ao adro da igreja de Santa Cruz, à volta da qual deram três voltas, antes de se posicionarem junto ao coreto da celebração eucarística campal.
Faltava um quarto de hora para o meio-dia, conforme programado, quando os dois citados sacerdotes e o padre António José Rodrigues, pároco de Óvoa, Couto do Mosteiro e Pinheiro de Ázere, que naquela altura se lhes juntou, deram início à celebração da Eucaristia. Na sua pregação, Frei Eliseu Moroni, numa alusão ao encontro das cruzes, observou que estas, mais que dois bocados de madeira, são o sentido da Cruz de há mais de dois mil anos: “Eis o Homem!“. Centrando a prédica na marca humana de Jesus, continuou: “Cristo não tinha aspecto de homem, estava pisado como uvas pisadas, mas ninguém pode tirar a marca do ser humano assumida por Jesus, a dignidade de ser homem, filho de Maria. Ninguém tirou a humanidade àquele Homem que aí está pendurado na Cruz“.
Depois, dirigindo-se aos fiéis, aquele sacerdote exortou: “É assim que nos devemos comportar durante cada novo dia, procurando atingir uma meta que está à nossa frente, atingir a perfeição: Jesus. A beleza de sermos cristãos hoje, de sermos iluminados pela humanidade de Jesus, encontra-se naquela expressão do Evangelho: Eis o Homem!“. Perguntou, então: “Mas, como chegar a essa meta?” O próprio deu a resposta: “Através da vivência da Sua palavra que todos os domingos é proclamada, tal como hoje aqui estamos reunidos, para que cada um de nós não perca o rumo dessa viagem“. Em nova alusão às cruzes, afirmou: “Temos que olhar para o Crucifixo e fazer dele o rumo da nossa vida”.
As cerimónias religiosas incluíram ainda, após a missa, nova procissão das irmandades com as cruzes, dessa vez percorrendo parte do espaço ocupado pelos feirantes e repetindo três voltas em redor da igreja.
Este costume terá tido origem, séculos atrás, em ritos pagãos campestres que o Cristianismo adoptou como bênção dos campos, ocorrendo precisamente em tempo de floração, prenúncio de colheitas férteis. Essa simbologia tem sido também vista no enfeite das cruzes por ocasião do reviver desta tradição, o que agora só foi visível na “cruz filha”.
O decréscimo do aparato das cerimónias religiosas, contrastando impiedosamente com o aumento desmesurado da componente feirante dos festejos, não recai apenas no enfeite das cruzes. Antigamente cada irmandade fazia procissão a pé desde as próprias povoações, quando agora é feita a partir de concentrações próximas da povoação de Vimieiro.
Noutro tempo, talvez não mais que duas dezenas de anos, as três bandas filarmónicas do concelho (São João de Areias, Pinheiro de Ázere e Santa Comba Dão) participavam nos festejos, acompanhando cada uma a irmandade da sua própria povoação. Isso tornou-se impraticável pelo facto de, em cada ano, só uma banda ser paga pela Comissão de Festas, havendo duas a participar de graça. Portanto, só de três em três anos calhava vez a cada uma de ser paga.
Outra alteração surgida nos últimos tempos foi o horário da procissão, tendo esta sido mudada da parte da tarde para a parte da manhã. “Era feita depois do almoço, era uma bagunça“, disse-nos António Alves, de Rojão Grande, que desde 1970 tem sido colaborante da Comissão de Festas, agora a dar vez a outros.
A parte da tarde ficou reservada para a continuação da feira e a animação recreativa, cujo programa incluía um concerto pela Banda Filarmónica de São João de Areias, actuação da Tuna Santo Estêvão, de Santa Comba Dão, e exibição do Rancho Folclórico “As Lavadeiras do Mondego”, de Póvoa dos Mosqueiros. Também no dia anterior (sábado) funcionou a feira e houve animação recreativa, tendo esta estado por conta do grupo de gaiteiros “Zé Craveiro“, à tarde, e do conjunto musical “Trap Zap“, à noite.
Imagem 032.jpgImagem 036.jpgImagem 037.jpgImagem 038.jpgImagem 039.jpgImagem 040.jpgImagem 042.jpgImagem 045.jpgImagem 050.jpgImagem 046.jpgImagem 057.jpgImagem 058.jpgLino Dias

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