Sexta, 03 Set 2010

Espectáculos — Segunda-feira, 15 Março 2010 — 0 Comentários

Santa Comba Dão foi a capital do Clarinete durante três dias

P1020316.jpgUm festival inteiramente dedicado aos clarinetes foi o que o Conservatório de Música e Artes do Dão (CMAD), de Santa Comba Dão, levou a efeito no passado fim-de-semana, dias 12, 13 e 14 de Março, recheado de actividades.

Tratou-se do seu 1.º Festival de Clarinetes, cujas actividades incluíram concertos, workshops, ateliês musicais, exposições, oficinas de música e muito mais para alunos ou simples amadores. Os grandes espectáculos musicais que o programa contemplava decorreram na Casa da Cultura, registando enchente em cada um daqueles dias.

O clarinetista João Moreira e a pianista Joana David foram as atracções do espectáculo de sexta-feira. Depois de uma primeira parte dedicada à música, assistiu-se a um momento de conversa, intitulado “Conversas de Palco com João Moreira”, no qual, além daqueles dois exímios músicos, também participou Sérgio Neves, director artístico do Festival. As carreiras de João Moreira e Joana David, repletas de sucessos em concursos nacionais e internacionais e passagens a solo por orquestras portuguesas e grandes palcos europeus, fizeram parte da conversa.

No sábado foi a vez de subir ao palco o Ensemble Sinfónico de Lisboa, orientado pelo maestro Samuel Pascoal, com uma formação composta por barítono, flauta, clarinete, oboé, trompa, harpa, piano, percussão e quinteto de cordas. Nesta sua estreia absoluta, interpretou obras do reportório sinfónico pós-romântico, modernista e impressionista, proporcionando ouvir obras marcantes de grandes compositores mundiais.

Um recital de alunos da Master Class e do Instituto Piaget e um concerto do Ensemble de Clarinetes do Dão, orientado pelo maestro Sérgio Neves, fez o encerramento do festival no domingo. Foi vez dos alunos do CMAD brilharem em passagens da “The ThreePenny Opera – Kurt Weill” (Ópera dos Três Vinténs) e saborearem, como todos os outros, os calorosos e merecidos aplausos da assistência.

Além dos espectáculos musicais, o Festival proporcionou aos participantes aprendizagens através dos workshops, oficinas de música e palestras. Para os alunos do ensino superior, conservatórios e escolas de música, houve workshops de clarinete, orientados por João Moreira, enquanto que para os músicos de bandas e músicos amadores, que normalmente não têm um espaço para cultivar e desenvolver as suas capacidades clarinetistas, houve ateliês musicais, dirigidos por David Machado, professor do CMAD.

Também os alunos que pretendem ingressar no CMAD foram contemplados, participando no domingo de manhã numa oficina musical, em que, entre outras coisas, o maestro Sérgio Neves deu conta da oferta educativa do CMAD. A programação do festival englobou ainda a realização de uma palestra sobre o “Clarinete”, com Alexandre Andrade e Isabel Tavares, do Instituto Piaget de Viseu, como oradores, e um seminário sobre a auto-manutenção de vários instrumentos musicais, orientado por Rui Pedro Silva, da empresa Companhia dos Sopros.

Paralelamente, decorreu na Casa da Cultura uma feira musical, onde foi possível reservar, encomendar, comprar e conhecer novos produtos para sopros e percussão. A feira teve sucesso, revelando o grande entusiasmo e a dedicação dos alunos e clarinetistas amadores.

“Fiquei muito bem impressionado com o festival, dou os parabéns à organização pela iniciativa, só que tem de acontecer todos os anos”, disse o professor e clarinetista João Moreira ao «Farol da Nossa Terra». Solicitado a falar da impressão que colheu dos alunos do Conservatório, respondeu: “Superou as minhas expectativas, fiquei bem impressionado, a minha impressão só não é fortíssima porque os alunos são muito pequeninos, não duvido que dentro de três a quatro anos sairão daqui alguns bons clarinetistas”. Admite que nem todos seguirão a vida de clarinetistas, mas afiança que “levam do Conservatório uma boa formação para a vida”.

Também ouvido, o director do CMAD, Paulo Gomes, limitou-se a comentar que o festival “foi muito bom”, remetendo o protagonismo para o maestro Sérgio Neves, na qualidade de produtor do Festival. “Com a excepção do Encontro Internacional de Clarinetes de Lisboa, não temos mais nenhum evento dedicado ao clarinete em todo o país”, assim realçou Sérgio Neves a importância deste festival. Estava dado o mote para a entrevista que se segue!…

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Foto de Entrevista.jpgENTREVISTA

P (Pergunta / Farol da Nossa Terra) – Como surgiu a ideia de organizar este Festival no Conservatório de Música e Artes do Dão?

R (Resposta / Sérgio Neves) – Enquanto aluno, fui incentivado durante todo o meu percurso académico a participar em workshops com os mais diversos professores. Nos finais da década de 90 e início do século, Portugal organizou através da Associação Portuguesa de Clarinetes diversos congressos e festivais. Estas iniciativas permitiram o emergir de vários clarinetistas portugueses e a socialização e transmissão de conhecimentos com os melhores clarinetistas mundiais. No ano passado, após candidatura portuguesa para a organização do Congresso Mundial de Clarinetes, presidida pelo professor Carlos Marques, Portugal recebeu pela primeira vez o ClarinetFest, o que permitiu deslumbrar concertos memoráveis pelos grandes nomes mundiais e portugueses durante uma semana intensa. Foi a partir daí que a ideia deste festival surgiu, com a necessidade de colmatar uma lacuna do ensino, uma vez que o sucesso educativo não depende apenas do aluno, mas do resultado de um intercâmbio dinâmico e activo com o ambiente que o rodeia.

P – O que se pretendeu alcançar com a realização deste Festival?

R – O objectivo deste festival foi contagiar os alunos com o espírito lutador e triunfante dos professores, clarinetistas e músicos que estiveram presentes. Independentemente da profissão que os alunos vierem a seguir, este é o lema que a escola lhes quer transmitir. O festival veio ajudar a reforçar esta mensagem e proporcionar, não só aos alunos de clarinete, mas a toda a comunidade escolar, musical e cultural de Santa Comba Dão, a vivência artística durante um fim-de-semana de actividades com grandes artistas do panorama nacional.

P – A seu ver, quais foram os pontos altos do Festival?

R – O festival teve uma duração reduzida, foi pensado ao pormenor para acrescentar algo de novo. Nenhuma actividade foi inferior a outra, mas o ponto alto foram, sem dúvida, os concertos com o Clarinetista João Moreira, a pianista Joana David e o Ensemble Sinfónico de Lisboa.

P – Qual a importância de terem sido introduzidas no Festival outras actividades além das apresentações musicais?

R – Aquando da programação do festival, pensámos que seria bastante interessante criar uma actividade que pudesse envolver o máximo de alunos e associações musicais. Para isso, criámos várias actividades diversificadas com o objectivo de proporcionar a alunos e Filarmónicas a possibilidade de conhecerem, experimentar e adquirir material musical com o aconselhamento de especialistas.

P – Como avalia a receptividade e o desenvolvimento do evento?

R – A receptividade ao evento foi muito positiva, tanto em relação ao Workshop, ao Atelier Musical e à Oficina de Música como em relação aos concertos, onde desde o primeiro espectáculo conseguimos mostrar Santa Comba Dão no seu máximo esplendor. Temos consciência que os hábitos de consumo musical actual são um pouco diferentes do programa que apresentámos e demorará alguns anos até que concertos como estes façam parte da agenda regular de qualquer família e que se crie a necessidade de haver uma maior regularidade destes espectáculos através de uma agenda cultural anual mais intensa, mas mesmo assim o público foi generoso para connosco, quer em termos de enchentes da sala nos três dias quer em termos do carinho dos seus aplausos e das manifestações de estímulo para continuarmos com iniciativas como esta. O Conservatório tem a função de educar musicalmente os alunos envolvendo os pais no processo educacional e, desta forma, sempre que acompanham o seu educando, fazemos um esforço adicional para que possam sair beneficiados com a sua própria educação musical e o gosto por uma cultura a que a maioria não teve acesso.

P – Como é que se compreende que este festival seja o único evento dedicado ao clarinete, além do Encontro Internacional de Clarinetes de Lisboa?

R – Podemos encontrar no nosso país as mesmas actividades que o festival ofereceu, mas de uma forma isolada em diferentes sítios e datas. O que pretendemos com este festival é juntar num só evento palestras, seminários, workshop, atelier musical, bancas de exposição e concertos, de forma a que os alunos de clarinete da Região Centro e Norte de Portugal possam ter acesso ao mesmo tipo de informação de um aluno de Lisboa. O facto de não haver mais festivais ou congressos de clarinete deve-se à grande dificuldade que é organizar uma actividade deste género, desde os apoios à organização de uma estrutura que seja aliciante para alunos e público.

P – Contaram com algum apoio a nível dos custos da realização do Festival?

R – A conjuntura económica não permite actualmente o apoio ideal para a organização destes eventos. No entanto, existem várias empresas que se esforçam para apoiar estas iniciativas e foi a partir daí que este festival contou com o patrocínio de empresas nacionais e internacionais como a Buffet, a Rico, a Companhia dos Sopros, a Edições Convite à Música e a Câmara Municipal de Santa Comba Dão e com o apoio do Instituto Piaget de Viseu, da Quinta do Rio Dão, da Quinta de Bispos, do Restaurante Cota Máxima e de Pianos Manuel Macedo.

Lino Dias

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