Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Terça-feira, 13 Abril 2010 — 0 Comentários
SINAIS DESAPONTADORES
HÉLIO BERNARDO LOPES *
À medida que os dias se vão passando, e depois do mais que lógico – absolutamente incontornável, claro -, reconhecimento da realidade da pedofilia praticada por uma enormíssima quantidade de padres católicos, e por quase toda a parte deste nosso Mundo doente, eis que nos surge agora a tentativa de relativizar a tenebrosa revelação, por rápido evitando abordar o tema.
Isso mesmo foi agora possível observar por parte do Cardeal Patriarca de Lisboa, quando se dirigia à Sé Patriarcal, recusando falar sobre um tema que está aí bem diante de todos, e que envolve, por parte de muitíssimos padres, e por (quase) todo o Mundo, uma objetiva responsabilidade moral e criminal.
De resto, nas suas intervenções neste recente período pascal, o próprio Papa Bento XVI, sempre envolto em polémica desde o início do seu pontificado, também perseverou em não abordar o tema agora vindo a lume nesta sua universal dimensão, materializada em escândalos por quase toda a parte.
Tenho para mim que se trata de um erro tático muito elementar, até porque a revelação destes escândalos, pela natureza da realidade que lhes está subjacente, e pelo que pôde já ver-se, deverá vir a ter uma continuação prolongada.
O tema destes escândalos da pedofilia de uma boa imensidão de padres católicos já tinha sido mal abordado há dias, por parte do bispo de Lisboa, porque o que se passou neste domínio tem já décadas de existência, e pouco tem a ver com o tempo que hoje se vive. O que o tempo atual veio permitir foi o seu conhecimento e o seu tratamento pela grande comunicação social.
Tem, pois, toda a razão o bispo do Porto, ao referir que a fé dos católicos perdura para além das trevas, antigas ou atuais. De facto, quem é que hoje se importa, para lá das vítimas, com este tipo de abusos por parte de uma boa miríade de padres? Quase ninguém! Todos falam, claro está, mas tudo não passa disso mesmo. Que importância atribuem hoje os católicos aos crimes da Inquisição? Nenhuma, como é óbvio! E se ela voltasse de novo, por hipótese? Bom, fingiriam nada saber e poucos diriam o que quer que fosse. Foi sempre assim. E ficavam a Igreja e a fé católica em causa? Claro que não!
Simplesmente, a sucessão de factos que vem tendo lugar depois da onda mais recente destas revelações criminosas mostra, se vista com atenção, que pouco deverá vir a mudar no seio da estrutura e da vida da Igreja Católica, para o que basta ter podido ouvir aquela inacreditável comparação entre as naturalíssimas críticas à hierarquia da Igreja Católica e o anti-semitismo. Uma atitude que reforça as mil e uma dúvidas, nunca cabalmente levantadas, sobre o comportamento do Papa Pio XII face ao genocídio dos judeus e de outros.
E é por tudo isto que certo cardeal tem toda a razão quando diz que toda a Igreja está com o Papa Bento XVI, porque a esmagadora maioria dos católicos dos nossos dias, se acaso tivesse sabido de tais abusos, nunca se disporia a testemunhar tais factos, e muito menos denunciá-los. Precisamente o que fez a hierarquia que tomou conhecimento de tais realidades e nunca nada disse ou fez. Uma realidade estrutural.
Para ver que pouco deverá mudar, basta que nos lembremos das palavras do Cardeal D. José Saraiva Martins: os casos de família tratam-se no seio da mesma, tudo agora se reduzindo a uma maquinação contra o Papa e a Igreja Católica. E se este prelado diz isto, logo um outro – o bispo Januário Torgal Ferreira – diz o contrário: não acredita que exista uma maquinação contra o Papa. Respostas, pois, para todos os gostos. No fundo, fugas diversas para a frente, mais arcaicas ou mais modernistas.
É minha convicção muito sincera, com base no que se vai sabendo e vendo, que a hierarquia da Igreja Católica não terá condições para se modificar neste domínio, porque se assim não fosse, bom, assumia a realidade ora vinda a público, dava-lhe um rosto, e colaborava no esclarecimento da verdade, de parceria com as autoridades judiciárias dos diversos países onde tais hediondos crimes tiveram lugar. Como não terá, pois, de existir falta de espiritualidade no Mundo? E para mais num tempo de neoliberalismo e de globalização!
Embora seja para mim triste ter de defender a resignação de um Papa, e por um motivo desta natureza, eu penso que seria preferível para a Igreja Católica que Bento XVI pusesse um fim no seu pontificado, até por ter o mesmo sido sempre acompanhado de polémicas diversas desde o seu início, polémicas agora tristemente encimadas por estes crimes hediondos e de uma dimensão (quase) universal.
*Antigo professor
e membro do Conselho Científico da Escola Superior de Polícia
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