Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Sexta-feira, 3 Setembro 2010 — 0 Comentários
UMA REVELAÇÃO MUITO VEROSÍMIL
HÉLIO BERNARDO LOPES *
Poucos portugueses terão esquecido os contornos do histórico caso da menina inglesa, Maddie, desaparecida no Algarve, e filha do conhecido casal McCann. E também se deverão lembrar das mil e uma vicissitudes que depois se desenrolaram em torno das tomadas de posição de Gonçalo Amaral sobre aquele caso.
Contrariamente à mais recente doutrina que tem vindo a fazer escola em torno de casos como este, a grande verdade é que a ausência do corpo da menina desaparecida constituiu sempre, no domínio público, uma grande incógnita sobre a realidade do que possa ter-se passado.
Admitir que certo corpo não encontrado possa ter desaparecido por vias mais ou menos criativas e inusuais, bom, vá que não vá. Mas dois corpos desaparecidos, em tempos distantes, envolvendo pessoas de estrutura social diametralmente oposta, e nunca encontrados, já é de estranhar. E quando nos surge, alguns anos depois, em lugar muitíssimo distante, um terceiro caso, bom, aquela doutrina terá de ser cabalmente posta em causa. Na Física, na Astrofísica ou na Cosmologia, por exemplo, esta é a regra, mas a verdade é que na Criminologia as teorias valem pela persistência do autor da ideia e pelas suas ligações aos grandes meios de comunicação social.
Ora, a nossa grande comunicação social trouxe há dias a notícia de que certo pedófilo inglês, que terá mesmo passado algum tempo no Algarve, à beira da morte terá deixado uma carta a um seu filho, e onde relata que a pequenina, Maddie, terá sido raptada por uma máfia cigana, que se encarregou de a fornecer a um casal que a desejava depois de a ter visto, fosse ao vivo, fosse através de fotografias.
Este inglês ora falecido, nessa carta que deixou ao filho, relatou também que tomou conhecimento desta realidade através de um cigano, que lhe relatou o sucedido na sequência de uma embriaguez para que se havia deixado arrastar.
Como se torna evidente, toda esta explicação, desde que suportada no original da carta escrita pelo falecido, constitui, em minha opinião, a mais verosímil explicação para o que terá sucedido à pequenita, Maddie, nesse Verão fatídico passado no Algarve.
Dificilmente se poderá defender que uma tal carta, deixada a um filho à beira da morte, possa não passar de uma mentira, ou de uma historieta repleta de ausência de um ínfimo de nexo. Mas já se compreende bem, especialmente quando se é português, que ter referido há mais tempo às nossas autoridades esta história poderia acabar por se constituir num conjunto de aborrecimentos absolutamente impensáveis. Um mínimo de conhecimentos sobre a realidade social portuguesa, com acesso a concidadãos seus e com a mesma mania doentia, e para mais mantendo contacto com alguém da etnia apontada como fonte da tal máfia, bom, sempre justificaria uma atitude de silêncio e de não colaboração com as nossas autoridades.
Estou em crer, do muito que ouvi e li sobre este tema, que esta é a explicação mais fidedigna até hoje surgida em torno do mesmo, embora se torne essencial o conhecimento material da carta e o reconhecimento da sua autoria. A ser assim, e como sempre me pareceu, tiveram razão o Ministério Público e o então diretor-nacional da Polícia Judiciária, Alípio Ribeiro.
* Antigo professor e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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