Hélio Bernardo Lopes, Opinião — Segunda-feira, 21 Junho 2010 — 0 Comentários
UMA VIVÍSSIMA REALIDADE
HÉLIO BERNARDO LOPES *
De um modo muitíssimo frequente, não acompanho o programa televisivo, Plano Inclinado, moderado por Mário Crespo e com as presenças permanentes de Henrique Medina Carreira, João Duque e Nuno Crato. Não sei, de resto, se este último ainda ali continua, nem se Maria Filomena Mónica é agora uma presença assídua do programa. Sei, isso sim, que a fui ali encontrar, e por um mero acaso, num destes mais recentes programas. E, contrariamente às suas usuais intervenções noutros lugares e momentos, desta vez gostei de certa explicação que ali forneceu aos que acompanhavam o programa.
A dado passo do programa, Maria Filomena Mónica explicou que os portugueses sempre apreciaram Salazar pelo facto de ser uma personalidade séria, salientando esta realidade muito simples de perceber: o facto resulta de a população, na sua generalidade, saber que o não é. A evidência.
Isto mesmo pude eu já exprimir, e desde há muito, a amigos, conhecidos e até figuras públicas a quem me determinei a escrever. Duas dessas personalidades a quem escrevi foram, precisamente, Mário Crespo e Henrique Medina Carreira, a quem salientei a necessidade de ter em conta, digamos assim, a problemática do ovo e da galinha, e que dar-lhe uma solução que possa ser duradoira requer que se tenha em conta as caraterísticas culturais do povo que se governa.
Não deixo de achar graça aos comentários frequentes de Henrique Medina Carreira, até mesmo de Maria Filomena Mónica, porque dos mesmos fica-me sempre a sensação de que pensam que todo o País está desejoso de aplicar a boa moral sempre por aqueles apresentada, quando a realidade que se conhece em nada confirma tal ideia. Chego mesmo a ficar com a sensação de que imaginarão que nos tempos de Salazar a realidade não era já esta, salvaguardadas as naturais proporções, derivadas, claro está, do mui maior grau de liberdade dos dias que passam.
De resto, se leram a obra de Fernando Dacosta, As Máscaras de Salazar, por ali mesmo terão conhecido que o próprio Presidente do Conselho, para lá de conhecer quem fazia o quê de ilegal, comentava até a situação com a sua governanta, e de um modo nada frágil em matéria de palavreado.
Termino com o pensamento, sobretudo, em Maria Filomena Mónica: para quando os trabalhos, sejam de quem for, sobre a Aginter Press, sobre o Angoshe, sobre o Fundo de Desenvolvimento do Ultramar, sobre as FP 25, sobre o atentado de Camarate, sobre o Bolama, por aí fora? Será que alguém terá coragem de pegar nestas realidades? Muito sinceramente, não creio. Fica-me a sensação de que há muita gente bem preparada que continua a pensar que o hábito faz o monge.
* Antigo professor
e membro do Conselho Científico da Escola Superior da Polícia
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